A empresa dá lucro! Mas cadê o caixa? Uma reflexão sobre regime de competência e regime de caixa para investidores

A empresa dá lucro! Mas cadê o caixa? Uma reflexão sobre regime de competência e regime de caixa para investidores

tcschool

11 FEV

4 MIN

A empresa dá lucro! Mas cadê o caixa? Uma reflexão sobre regime de competência e regime de caixa para investidores

Quando falamos que a empresa divulgou lucro, não necessariamente ela possui caixa disponível. Ao mesmo tempo, outra empresa que divulgou prejuízo pode ter caixa disponível para uso.

Parece confuso, né? Vamos explorar um pouco dessas diferenças para simplificar coisas que parecem complexas, mas não são. Isso ocorre porque a contabilidade trabalha com dois métodos simultaneamente, o regime de competência (accrual accounting, em inglês) e o regime de caixa (cash accounting). Os dois regimes, ou métodos, (entenda clicando aqui) não são conflitantes como muitos pensam, ao contrário, são complementares e ajudam a entender o contexto empresarial independentemente de qual for o tipo de entidade (privada, estatal, terceiro setor).

De modo prático, se você já está acostumado a ler uma Demonstração do Resultado (DRE), ficará mais fácil acompanhar o raciocínio. Suponha o caso de uma empresa que vendeu R$ 10.000, sendo que recebeu 60% à vista e 40% a prazo. Suponha também que a empresa possui uma única despesa, da depreciação da máquina no montante de R$ 1.000 mensais.

Como ficaria a DRE dessa empresa?

 

Vamos lá:

 

Agora, onde estão os 60% recebidos à vista (caixa ou bancos) e os 40% (recebíveis) das vendas?

O reflexo dessa operação está no balanço patrimonial, no grupo do ativo, conforme representado abaixo:

Já a depreciação tem sua contrapartida como conta redutora (depreciação acumulada de máquinas) do respectivo ativo no grupo de ativos imobilizados. Essa é outra questão oportuna para reflexão.

 

Nessa depreciação da máquina saiu caixa da empresa?

Não! O caixa saiu quando a empresa comprou a máquina. Dessa forma, a empresa consegue periodicamente recuperar o investimento feito na máquina.

Essa “mecânica” da contabilidade permite enxergar melhor o consumo dos ativos imobilizados (pela depreciação) e dos intangíveis (pela amortização), quando for o caso.

Vamos retomar o exemplo da DRE, inicialmente elaborada pelo regime de competência, mas agora, elaborando a DRE pelo regime de caixa (isso é apenas um exercício para termos em mente a lógica sobre como a contabilidade captura as transações).

 

Agora piorou ou melhorou o conteúdo informacional? Temos mais ou menos informações? Temos muito menos informações.

O balanço patrimonial também só iria refletir o caixa da empresa, ou seja, pelo regime de caixa perdemos um vulto de informações que são “mapeadas” ou “controladas” pelas bases de mensuração do regime de competência que permitem o reconhecimento dos eventos/transações.

Em outras palavras, o conteúdo informacional da contabilidade está no regime de competência, mas a qualidade dos números depende de outros fatores já explorados em outros textos e entrevistas do TC.

 

Por causa do regime de competência, temos noção de quanto a empresa poderia receber de caixa no período seguinte (R$ 4.000), concorda?

Existe a conta patrimonial de recebíveis (contas a receber). Uma informação prospectiva que vem de uma informação histórica da venda passada (período anterior). Uma outra questão que fica é a qualidade desse recebível. A empresa pode não receber esse direito dela no futuro se o cliente quebrar, por exemplo.

No caso citado acima, apareceria outra conta patrimonial chamada de Provisão para Créditos de Liquidação Duvidosa (PCLD ou Provisão de Devedores Duvidosos – PDD). Essa conta é redutora do contas a receber para mostrar quanto dos recebíveis estão comprometidos com clientes que não pagam as contas em dia. Isso nos ajuda a entender a qualidade das vendas das empresas, ou seja, dos seus clientes.

O mesmo ocorreria se a empresa comprasse hoje estoques de um fornecedor por R$ 20.000 para pagar em 60 dias. Vejamos esse exemplo no balanço patrimonial mantendo o evento anterior:

Nesse caso, a empresa recebeu os estoques, ganhou prazo de 60 dias, pode vender todo o estoque com margem de lucro, pagar o fornecedor e gerar lucro (e caixa). Novamente, as contas patrimoniais fornecedores e estoques não apareceriam no balanço patrimonial se ele fosse elaborado pelo regime de caixa. Apenas o caixa seria reduzido com o pagamento do fornecedor e recebimento das vendas.

Enfim, o regime de competência nos permite monitorar muito melhor a gestão da empresa, mas dependemos de outras demonstrações contábeis (ou demonstrações financeiras) para completar o entendimento do negócio.

Para finalizar mais dois exemplos de uma empresa que só vende a prazo por três anos consecutivos e outra que só vende à vista, mas ambas utilizam o regime de competência como deve ser feita a contabilidade. Qual seria a diferença?

 

Regime de Competência

São idênticas as Demonstrações do Resultado, certo? Não conseguimos enxergar por aqui quanto da receita foi à vista ou a prazo, precisamos combinar o Balanço Patrimonial e a Demonstração dos Fluxos de Caixa, mas se remontarmos a DRE pelo regime de caixa, podemos ver quanto de conteúdo informacional perderíamos nos dois casos:

 

Regime de Caixa

Observem que até o lucro líquido ficaria distorcido no caso da empresa 2, isso porque deixa de considerar a despesa de depreciação ao longo dos anos, que só conseguimos mensurar (mais precisa ou menos precisamente) o consumo do ativo por causa do regime de competência.

A essas parcelas (ou montantes) do regime de competência damos o nome de “accruals” (por exemplo: depreciação, contas a receber, provisões, fornecedores, etc). Em algum momento, essas contas foram caixa ou serão convertidas em entradas e saídas de caixa e o regime de competência permite que a contabilidade faça o controle adequado das decisões empresariais para que esses fluxos possam ser, em alguma medida, visualizados e monitorados ao longo dos períodos (mensal, trimestral, semestral, anual etc).

Espero que tenham compreendido a diferença entre lucro e caixa. Lucro = Fluxo de Caixa + Accruals!

 

José Elias Feres de Almeida
Professor da UFES, Gestor de clube de investimento
Autor de artigos científicos publicados nacional e internacionalmente e dos livros “Fundamentos de Contabilidade para os Negócios” e “Contabilidade para Pequenas e Médias Empresas”.

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