O fetiche do “título de doutor” e a importância da pós-graduação no Brasil

O fetiche do “título de doutor” e a importância da pós-graduação no Brasil

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08 JUL

4 MIN

O fetiche do “título de doutor” e a importância da pós-graduação no Brasil

Por Márcia Batista da Fonseca,

 professora associada do Departamento de Economia, UFPB

Desde o início da crise sanitária, com a pandemia provocada pelo novo coronavírus, as universidades brasileiras têm sido responsáveis por fazer a ponte entre os diversos atores sociais que estão agindo no enfrentamento da crise. Apesar de hoje termos o maior número de recuperados da Covid-19 no mundo, temos 1,6 milhão de casos confirmados, 65 mil mortos no país (em dados oficiais) e passando do 305 mortos por milhão. Pari passu, estamos em plena crise econômica, com previsão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de redução de 6% da atividade econômica este ano, agravada pela incerteza quanto ao ritmo de contágio da doença e a necessidade de retorno das atividades essenciais para que o país não tenha um colapso.

importância da pós-graduação

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Universidades contra a pandemia

Em meio a este caos, as universidades se aliam a entes públicos e privados na busca por soluções para a saída da crise. Essa preocupação vai desde a atuação dos hospitais universitários no combate da pandemia, até a produção de estudos de acompanhamento econômico, geográfico, epidemiológico pelos programas de pós-graduação e laboratórios de pesquisa, além da produção e distribuição de produtos, como o álcool em gel, equipamentos de proteção individual, e a criação de equipamentos que permitem o tratamento de pacientes em casos graves levados ao sistema de saúde.

Um exemplo disso, foi o que ocorreu na Universidade Federal da Paraíba. Professores pesquisadores dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica e Elétrica no mês de abril do corrente ano, desenvolveram em dois dias um respirador pulmonar de licença aberta, de baixíssimo custo. O equipamento utiliza de tecnologia touch screen, equipado com sistema multibiométrico e de conectividade wireless, podendo assim ser operado remotamente por meio de um celular.

Se fosse possível elencar algo positivo nesta crise pandêmica, este seria o reconhecimento de que o trabalho desenvolvido nas universidades (em sua maioria públicas) e em especial, nos programas de pós-graduação e laboratórios de pesquisa, é vital para a produção econômica, científica e tecnológica do país. Por outro lado, percebe-se que a maioria da população não tem noção de que a pós-graduação, através dos professores e seus alunos, mestrandos e doutorandos, é a responsável pelo desenvolvimento da pesquisa científica, buscando a redução de desigualdades econômicas e sociais, o desenvolvimento de capacidades humanas e o crescimento inclusivo e sustentável para o país.

Desenvolvimento econômico e pesquisa científica

Não há como se obter desenvolvimento econômico sem pesquisa. Segundo o relatório Research in Brazil: Funding Excellence da empresa Clarivate Analytics, entre 2013 e 2018, 15 universidades públicas foram responsáveis por 60% do conhecimento científico do país e segundo a Academia Brasileira de Ciências (2020), cerca de 95% das pesquisas feitas no Brasil são realizadas por universidades públicas. Mas, como funciona a pós-graduação no Brasil e o desenvolvimento das pesquisas?

O Sistema Nacional da Pós-graduação no Brasil, em 2020 abrange 4.641 programas de pós-graduação stricto sensu divididos em 7041 cursos de mestrado e/ou doutorado. Segundo a Coordenação para apoio de Pessoal Qualificado (Capes) em universidades na maioria públicas, tendo em torno de 300 mil matriculados nos diversos cursos. Tendo estes programas de pós-graduação titulado aproximadamente 87 mil pós-graduandos por ano nas mais diversas áreas do conhecimento. Há também as formações de pós graduação lato sensu, que representam as especializações, e as residências médicas e multiprofissionais.

Em 2019, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lançou um relatório chamado Education at a Glance que mostra que 21% dos jovens brasileiros entre 25 e 34 anos concluem a universidade no Brasil, enquanto a média dos países da OCDE é de 44%. Destes jovens, apenas 0,84% concluem o mestrado e 0,11% o doutorado no Brasil. A média da OCDE é de 14,33% e 0,84%, respectivamente para mestrado e doutorado. Além disso, o percentual médio de pessoas entre 25 e 64 que possuem doutorado nos países da OCDE é de 1,1%. No Brasil este percentual chega a 0,2% da população. Ou seja, o percentual do Brasil é seis vezes menor que a média da OCDE.

Formação de doutores no Brasil

O funil é estreito. São necessários mais dez anos de estudos ininterruptos após a conclusão do ensino médio para se formar um doutor no país. Segundo a OCDE, o Brasil tem hoje 7,6 doutores para cada 100 mil habitantes. Talvez este baixo número provoque um verdadeiro fetiche com relação a obtenção do título de doutor. Esse fetiche pode favorecer a falsificação de currículos no Brasil, mesmo de autoridades do alto escalão governamental.

Percebe-se com base nestes dados a necessidade urgente de ampliação do número de doutores no Brasil, para evitar humilhações públicas provocadas pela adulteração de currículo e porque atrelado ao crescimento do número de doutores, segue-se o aumento da produção em pesquisa, o que significa consequentemente um maior desenvolvimento econômico, científico e tecnológico para o país.

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