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Corleta: Os Treasuries yields americanos vão estragar a festa das bolsas?

Postado por: TC Mover em 26/02/2021 às 14:04
Treasuries yields

São Paulo, 26 de fevereiro – Os títulos de dívida pública são o melhor termômetro da economia. Os rendimentos desses títulos geralmente apontam com precisão para onde irão as taxas de juros nos próximos meses ou anos.

Por isso, causa preocupação o fato de que, no mês de fevereiro, tivemos a alta mais intensa em quatro anos dos chamados Treasury yields, ou rendimentos dos títulos do Tesouro americano. Esse fenômeno tem reverberações muito profundas para os ativos financeiros, especialmente os de risco.

Commodities, fundos de índice, fundos de participação e ativos de mercados emergentes sofrem com as oscilações dos Treasury yields. A bolsa e a moeda brasileiras, por natureza, envolvem maior risco. Tipicamente, em um movimento de aversão ao risco, que implica sair desses ativos, os yields tendem a diminuir, pelo equilíbrio de oferta e demanda. Lembremos que as taxas dos títulos de dívida se comportam de forma inversa aos preços desses títulos.

No entanto, o cenário de inflação parece atropelar esta lógica. A volta dos yields aos níveis pré-pandemia do coronavírus indicam que a economia americana deve estar prestes a iniciar um ciclo de aceleração da retomada sem grandes ganhos de produtividade, ou seja, os mercados preveem o retorno da inflação. Dessa forma, os yields se tornam uma alternativa de investimento mais atrativa que os ativos de risco nos mercados, o que, em teoria, poderia reduzir o apelo das bolsas, atualmente operando perto das máximas históricas.

Lembremos que a inflação é um fenômeno monetário: com a crise causada pelo vírus, os governos se viram intimados a injetar liquidez nos mercados e aumentar a quantidade de dinheiro em circulação de forma muito agressiva. Eis que os títulos públicos dos países desenvolvidos, com yields nas mínimas históricas, se tornaram produtos de investimento desinteressantes, e o dinheiro correu para as bolsas. O gráfico do S&P500 dividido pelo rendimento dos Treasuries de dez anos exemplifica bem a situação.

Treasuries

Arte: Vinícius Martins / TC Mover



Historicamente, períodos de taxas de juros reais, ou seja, a taxa de juros descontando a inflação, nulas ou negativas estão associadas com ralis nas bolsas. Não é algo difícil de entender: o investidor sempre vai querer um binômio de risco e retorno positivo, e quando o mínimo de risco está associado a retornos negativos, a única saída é tomar mais risco. O Treasury yield de dez anos tocou 1,61% nesta quinta-feira e mostra graficamente forte recuperação, com sinais de reversão da queda observada no ano passado.

Arte: Vinícius Martins / TC Mover



Entendendo que os Treasury yields podem ditar a taxa de juro no médio e longo prazo, o Federal Reserve, Fed, embora venha insistindo em que manterá a taxa básica de juros perto de zero por um período prolongado, fica pressionado a subi-la, o que significaria pousar o helicóptero que sobrevoa o planeta fazendo chover dólares na economia. Seria como acabar a festa nos mercados acionários. Isso pode ser assustador para o especulador comprado em ativos de risco.

Os americanos vacinados, muitos destes mais velhos e com poupanças acumuladas, sairão para gastar, pressionando a curva de demanda e, portanto, contribuindo para um cenário inflacionário. No entanto, o mercado de trabalho mostra recuperação frouxa. Os indicadores antecedentes e observados de emprego nos Estados Unidos se tornam importantíssimos para o investidor entender o que vai acontecer com a economia no pós-pandemia.

No curto e médio prazo, momentos como este dão ao investidor a alternativa de se proteger através do mercado de opções ou de futuros, ou simplesmente optar por fazer caixa diminuindo a exposição em bolsas. Já o investidor de longo prazo tende a ignorar esses sinais, já que lá na frente os preços refletem os lucros das companhias e estes vieram muito bem nas mais recentes temporadas de balanços.

Lembremos que, em condições normais, ao fazer um hedge, ou proteção do capital, via um índice acionário, um contrato futuro desse índice ou um ETF, o investidor joga para longe de si riscos sistêmicos do mercado e fica exposto unicamente aos riscos individuais das companhias que optou por ter em carteira. Para quem quer prever o destino de curto-prazo do mercado, importante é olhar para o fluxo do investidor estrangeiro e o estresse dos títulos públicos americanos.

Arte: Vinícius Martins / TC Mover

DISCLAIMER: As informações disponibilizadas na coluna são meramente opiniões do COLUNISTA na data em que foram expressas e não declarações de fatos ou recomendações para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários, ou ainda, qualquer recomendação de investimento.


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