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Guillermo Parra- Bernal: Ídolo, Maradona encarava vaias e críticas como poucos

Postado por: TC Mover em 25/11/2020 às 15:14

São Paulo, 25 de novembro = Era 2 de junho de 1985. A fria Bogotá recebia, em uma tarde de domingo, as seleções colombiana e argentina para um jogo das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1986. O estádio Nemesio Camacho “El Campín” acolhia quase 60 mil torcedores para o jogo – o primeiro que marcaria o caminho vitorioso da seleção albiceleste até a Cidade do México, onde conquistaria sua segunda taça Fifa 12 meses depois. 

Eu tinha dez anos e fui com meu pai e um amigo da escola assistir o jogo. Não estava interessado na seleção colombiana, que na época usava uma camiseta laranja com listras amarela, azul e vermelha. O que eu queria era ver meu ídolo, Diego Armando Maradona, conduzindo um time desacreditado pela imprensa argentina da época. Quando saiu o time colombiano, confete e tambores tocavam, uma chuva de papeizinhos deixou a grama do El Campín completamente branca. Depois de anunciada a escalação dos colombianos pelo alto-falante do estádio, a multidão começou a vaiar, impaciente porque o time argentino não saía do vestiário. Melhor teria sido se não tivesse saído …

Quando os caras saíram, comandados por Maradona e o goleiro Ubaldo Matildo Fillol, o estádio explodiu de raiva: xingamentos, gritos, ataques. Parte da arquibancada jogou pilhas, radinhos, camisas, sapatos … e uma laranja. Eu estava perto do campo e foi quando entendi que Maradona tinha áurea, soberba e fidalguia capazes de calar 60 mil almas. O ídolo pisou a grama do estádio bogotano, naquela tarde fria, e se dirigiu até a laranja. Então, a olhou com cuidado, a manuseou, começou a fazer embaixadinhas com ela e depois a abriu com os dedos. Olhou para cima – acho que me viu – e a mordeu. Depois jogou os restos no canto do campo e se dirigiu ao centro do gramado. O estádio emudeceu. 

No final, três gols da Argentina, dois de Pedro Pablo Pasculli e um de Jorge Luis Burruchaga, deram a vitória ao time do soberbo Diego. A Colômbia fez um gol, do veterano zagueiro Miguel Augusto Prince. Maradona saiu, sorridente. Os gandulas foram cumprimentá-lo. “Pelusa” foi o mais simpático, pelo que me lembro. Com a vitória nas mãos, ele simplesmente desapareceu. 

A imagem que levei e sempre levarei do Diego é a do homem que, contra tudo e contra todos, desafiou times poderosos, governantes pedantes, jornalistas ressentidos e até seus próprios demônios. O homem que fez do futebol uma milonga pouco dançante e muito vibrante, faleceu hoje, 25 de novembro de 2020, aos 60 anos. Depois de uma vida cheia de brilho e ofuscada pelos escândalos, Maradona descansa em paz. Deixa duas filhas, um filho, e bilhões de admiradores de seu estilo temerário e elegante com a bola. 

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