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Leite: Federal Reserve pode não estar errado sobre inflação nos EUA

Postado por: TC Mover em 19/05/2021 às 11:00

A polêmica tese que Jerome Powell e alguns dos seus colegas no comitê de política monetária do Federal Reserve não se cansam de defender pode não estar equivocada: que a alta mais intensa na inflação americana em mais de uma década é passageira.


Investidores apostam em aumento dos juros básicos pelo Federal Reserve

Jerome Powell, que preside o Federal Reserve, e alguns dos diretores do comitê conhecido como FOMC têm insistido que a inflação recente, a maior em 12 anos, não chegou ao ponto de forçar a autarquia a mudar sua orientação de que a taxa básica de juros deve ficar onde está até 2023, pelo menos. Mas, os investidores não estão convencidos: além de apostar em um elevação de taxas no segundo semestre de 2022, eles têm puxado os rendimentos dos títulos de dívida do Tesouro americano de dez anos desde 0,31% em março passado, no início da pandemia do coronavírus, para 1,643% hoje.

De acordo com dados divulgados pela Universidade de Michigan na semana passada, os consumidores americanos esperam aumento de 4,6% na inflação ao longo dos próximos 12 meses, a maior leitura em mais de uma década. Se a inflação superar o crescimento da renda, o risco de uma desaceleração da atividade aumenta, já que o gasto das famílias representa dois terços do Produto Interno Bruto e os preços em alta obrigariam o Federal Reserve a elevar os juros básicos.

Hoje, por volta das 15h00, o FOMC divulga a ata da sua mais recente reunião de política monetária, e é provável que nela seja reiterada a visão de que o pico nos preços ao consumidor seja passageiro. Apesar da visão cética, ou até pessimista, do mercado, há quem ache que os chamados yields dos títulos do Tesouro americano voltem para a casa de 1% porque as pressões deflacionárias de anos recentes – o boom da automação, o envelhecimento da população e a menor produtividade global – persistem.

Por exemplo, uma das mais prestigiadas casas de pesquisa global, a Alpine Macro, concorda com Powell & Cia. Em relatório recente, Harvinder Kalirai, estrategista de câmbio e renda fixa da Alpine, sugere que, em vez do mercado se focar nos dados da inflação ao consumidor e no núcleo, que acelerou em abril para 0,80%, ante 0,20% esperados, seria mais útil examinar outras medidas da inflação subjacente.

Segundo Harvinder Kalirai, a inflação média aparada, que retira ganhos e quedas extremos de preços, aumentou, mas não no mesmo grau que o núcleo do indicador, conhecido como CPI. A mediana do CPI quase não mostra nenhuma aceleração. Por conta disso, a Alpine Macro acredita que o aumento da inflação é em grande parte devido a fatores temporários. Entre eles são citados gargalos da cadeia de fornecimentos, normalização de preços por setores afetados pela pandemia e efeitos de base de comparação baixos.

O economista Alberto Cavallo, que leciona na Universidade de Harvard, tuitou que o CPI pode não estar subindo tanto como números recentes sugerem. O índice dá peso demasiado ao setor de transporte, que aumenta o número geral, disse ele. O indicador segue uma cesta de coisas que os americanos normalmente compram – mas que hoje está fora da realidade, disse Cavallo. Como resultado, o índice exagera as altas em mais de meio ponto percentual na base anual, estima ele. Na relação a 2020, o CPI subiu 4,20% em abril contra os 3,60% previstos pelo mercado.

José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, também vê a inflação americana mais alta como pontual e avalia que serão necessários ao menos mais dois ou três meses com dados de inflação mais forte para se ver mudança de postura no Federal Reserve. “Em todo caso, é muito importante ficarmos atentos a dois eventos até o final de agosto: a reunião do FOMC de 16 de junho … e o simpósio anual de Jackson Hole, que acontecerá em agosto”, destaca.

Os temores da inflação nos EUA têm deixado os mercados voláteis. Quando se acentuam as preocupações, os yields dos Treasuries aceleram, impactando juros no mundo todo e puxando o dólar. As bolsas sofrem, principalmente os papéis de crescimento, caso das tecnológicas, com maiores necessidades de caixa e avaliações atrelados às taxas.


Estoques de varejo revela estresse na economia americana

Os dados do varejo americano também contribuem para o cenário de alerta. O total das vendas no varejo, inclusos serviços de alimentação, superou o valor total dos estoques no varejo pela primeira vez desse 1992, o que revela estresse nas dinâmicas de oferta e demanda na maior economia do mundo.


Vendas do Varejo EUA - Federal Reserve


Imagem: Vinícius Martins / TC Mover

DISCLAIMER: As informações disponibilizadas na coluna são meramente opiniões do COLUNISTA na data em que foram expressas e não declarações de fatos ou recomendações para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários, ou ainda, qualquer recomendação de investimento.


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