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Parra-Bernal: Não se iluda com o risco e continue de olho nos Treasuries yields

Postado por: TC Mover em 03/03/2021 às 16:29
treasuries

São Paulo, 3 de março – Assustadoras e irritantes, as reviravoltas da semana passada no mercado de títulos de dívida pública nos Estados Unidos abriram mais uma interrogação sobre o poder de fogo e a sustentabilidade dos programas de estímulo da maior economia do planeta desde a eclosão da pandemia. Tratamos aqui da volatilidade extrema de um mercado que, diferentemente das ações, tende a mostrar movimentos de preços mais sutis.

São mais de US$21 trilhões em Treasuries que circulam ao redor do mundo. Esse mercado é o alicerce das finanças globais: por um lado, mostra a dinâmica de financiamento do governo americano e, de outro, nos permite inferir o custo do dinheiro mais relevante no panorama global no longo prazo. Pelas conversas que mantivemos com gestores de fundos globais e traders nos últimos dias, as fontes de perturbação para os mercados são a resiliência do dólar, a maior seletividade no risco, especialmente no que diz respeito a investimentos em mercados emergentes, e o viés dócil de política monetária dos maiores bancos centrais.

Ao que parece, chegou a hora de um ajuste de contas: pode estar acabando o período que permitiu um dos ciclos mais desmedidos de endividamento global. As preocupações com a sustentabilidade dos passivos soberanos e corporativos parecem determinar o atual desempenho relativo das taxas de câmbio e dos mercados locais, com os impactos mais significativos observados nos países com métricas de crédito mais vulneráveis, como é o caso do Brasil.

O aumento nos rendimentos dos Treasuries americanos, assim como o dos Bunds alemães e o dos Guilds britânicos, pode degenerar em círculo vicioso, já que a queda estrutural nas taxas de juros ajustadas pela inflação entre os países não compensa mais a tendência de menor crescimento econômico mundo afora. Os países emergentes mais dependentes da globalização, aqueles que vendem commodities ou bens intermediários para sobreviver, podem estar mais ameaçados. Não estamos sugerindo aqui que crises de dívida em países como o Brasil sejam iminentes, mas sim que as médias históricas para os prêmios de risco se tornam irrelevantes na hora de decidir entrar ou sair de um país.

Disso extraímos algumas coisas importantes para o Brasil. Embora os mercados tenham se comportado de forma complacente com altos níveis de dívida da última década, ao ponto de engolir juros negativos num estoque de US$15 trilhões em títulos, a pandemia do coronavírus destacou tendências preocupantes nas três variáveis que determinam a sustentabilidade do mercado de dívida: níveis elevados e crescentes dos estoques de títulos, o crescimento econômico medíocre ao redor do mundo e a impossibilidade de as taxas de juros caírem ainda mais. O Brasil sofre desses três males, e isso não parece ser compreendido pelo presidente Jair Bolsonaro e seus aliados no Congresso.

Uma vez que os juros subam, não aceitamos ranger de dentes nem chororô. O momento de ajustar a nossa dívida pública, de tornar nossa taxa de juros compatível com a nossa realidade e de assentar as bases para o crescimento econômico futuro é agora. Nesta quarta-feira o Senado vota a Proposta de Emenda à Constituição Emergencial, PEC Emergencial, um teste da nossa resiliência e desejo de ajustar nossas finanças públicas no pós-pandemia. Nossa realidade não vai conseguir se descolar da realidade dos Treasuries yields, por mais que aprovemos reformas. Por isso é preciso aprová-las, para proteger o país do cataclismo que está por vir mundo afora.

Arte: Vinícius Martins / TC Mover

DISCLAIMER: As informações disponibilizadas na coluna são meramente opiniões do COLUNISTA na data em que foram expressas e não declarações de fatos ou recomendações para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários, ou ainda, qualquer recomendação de investimento.


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