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Sena: De poemas, sutilezas e balanços no Brasil – o caso da Enjoei

Postado por: TC Mover em 01/04/2021 às 17:11

São Paulo, 1 de abril – Não é uma mentira. Desde ontem o investidor de renda variável comenta sobre a curiosa comunicação que acompanhou os resultados trimestrais da Enjoei. “Uma Valsa ao Movimento” se assemelhou mais a uma provocação, e menos a um comunicado de imprensa ou uma palinódia – forma sutil de retratação, na qual o escritor se desdiz de coisas anteriormente afirmadas.

Decidimos escrever sobre a curiosa mensagem do brechó online, que se tornou uma empresa aberta no final do ano passado, por dois motivos. Primeiro, porque a peça apresentada não é um poema e sim um lamento, um fado. Segundo, porque a atitude do investidor ante a precária peça literária não foi a de analisá-la da ótica da comunicação pouco convencional da empresa, e sim da raridade do feito.

Fica difícil saber se o texto foi divertido para o investidor, ainda mais quando a Enjoei viu seu prejuízo líquido aumentar de R$12,8 milhões a R$18,8 milhões no quarto trimestre. Podemos, sem medo de errar, dizer que o texto descolado dividiu as opiniões dos investidores.

A pesquisa feita pela XP com investidores institucionais, que estão mais acostumados com planilhas, números e gráficos, mostrou que seria necessário ajustar a comunicação da Enjoei para que não se tenha a impressão “de menor seriedade em relação ao negócio”.

Achamos essa crítica meio exagerada. Um investidor que segue as melhores práticas lê primeiro o demonstrativo de resultados e as notas explicativas e deixa o comunicado de resultados, ou press release, mais para frente.

No comunicado de imprensa, a empresa fala mais diretamente e sem muita burocracia com os seus investidores, me conta o diretor educacional do TC, Felipe Pontes, doutor em contabilidade. “O press release é mais uma peça de marketing do que qualquer outra coisa”, reforça. Aqui na TC Mover, acostumamos ver primeiro os demonstrativos antes de nos adentrarmos no comunicado.

Nem só de ações de bancos e exportadoras de commodities vive a nossa bolsa. A onda de ofertas iniciais de empresas de tecnologia dos últimos 12 meses na B3 nos transporta de um mundo de minério, lojas e agências a outro, onde a comunicação menos formal deve se tornar a norma – não a exceção. Seria ruim se isso prejudicasse a transparência, a governança e o direito do investidor de entender os racionais e as decisões da gestão e do conselho dessas empresas. Não nos parece que isso seja o caso da Enjoei.

Por um lado, o nível de informações fornecidas pela Enjoei, assim como sua qualidade, é indiscutível. Na pesquisa da XP, os investidores entrevistados admitem que a transparência da Enjoei não inveja em nada a de empresas estabelecidas no segmento de tecnologia, como a MercadoLibre ou a Magazine Luiza.

“Nesse sentido, o texto acabou desviando a atenção do que realmente importa: os números”, disse o texto da XP. No entanto, “Uma Valsa ao Movimento” é um lembrete de que as novas empresas que estão abrindo seus capitais não sentem a necessidade de serem tradicionais, mas sim de assumir uma linguagem que todo mundo vai entender.

Mas, elas não podem cometer o erro de confundir investidor e cliente. O contato informal está no DNA da Enjoei, mas não no dos fundos sediados em Leblon ou na Faria Lima. Se a estratégia tem sido bem-sucedida em atrair e engajar o público mais jovem, pode não ser boa com os caras de camisa Oxford e calças caqui da Rua Leopoldo Couto.

Ontem, o papel ordinário da Enjoei (ENJU3) chegou a cair aproximadamente 7,00% na abertura do mercado. Finalizou o dia em queda de 3,50%. Hoje, as ações se recuperaram e tiveram alta de 1,24%, cotadas a R$10,63.

Para quem se interessa por entender a cultura das empresas, sugerimos visitar o site da Enjoei e observar como a comunicação da empresa é cativante. “Uma Valsa” é parte de um corpo de comunicação envolvente, cativante que tem atraído mais de 600 mil compradores e vendedores a experimentar um “enjôo” e ganhar um troco na plataforma.

Como em “Uma Valsa”, a experiência de tráfego é divertida, descomplicada e até fútil. O primeiro balanço na história da bolsa que contém um lamento poético deverá marcar o início de um ciclo de comunicação diferente entre as empresas de tecnologia e os Faria Limers. Aceita o desafio de tolerar as mudanças?

Arte: Vinícius Martins / TC Mover

DISCLAIMER: As informações disponibilizadas na coluna são meramente opiniões da COLUNISTA na data em que foram expressas e não declarações de fatos ou recomendações para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários, ou ainda, qualquer recomendação de investimento.


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