Mover

Siga o mestre no trade: a estratégia funciona com a regulação de insider trading no Brasil?

Postado por: TC Mover em 17/12/2020 às 17:35

Existe uma estratégia que alguns traders usam pelo mundo chamada de Siga o Mestre. Optei por começar o texto dando um breve contexto regulatório da Instrução CVM nº 358/2002, com definições de conceitos, para depois entrar na estratégia e na análise dos dados, avaliando se é possível ou não ganhar dinheiro seguindo o mestre.

A estratégia Siga o Mestre consiste basicamente em seguir as mesmas operações das pessoas que potencialmente têm acesso a informações privilegiadas (chamados de insiders) – por exemplo, diretores e conselheiros. 

Os insiders podem comprar e vender ações da empresa sem maiores problemas, bastando seguir os mandamentos da Instrução CVM nº 358/2002, tendo que informar à empresa que houve alguma transação com as ações da companhia e a companhia tem que divulgar esta informação ao mercado até o dia 10 do mês subsequente

Aqui no Brasil nós temos acesso ao relatório consolidado das operações dos insiders, geralmente com a divulgação cravada no dia 10 de cada mês. Então, após este contexto, vamos começar a pensar em estratégias de trading para ganhar dinheiro seguindo o mestre insider, ressaltando que não há de ilegal nas operações dos insiders, desde que eles cumpram a norma e que não há nada de ilegal para um trader seguir o insider, desde que não tenha acesso direto às informações privadas.

Sendo assim, lá vai a minha primeira pergunta para pensarmos: você acha que faz sentido usar uma estratégia para seguir as operações dos insiders?

Se alguém me perguntasse de bate-pronto o que eu acho sobre isso, considerando que eu não sou pesquisador da área (na verdade, pesquiso desde 2012 sobre o assunto) e que eu conheço a regulação, eu diria que a estratégia não faz nenhum sentido. 

Agora vamos à minha segunda pergunta: por que não faz sentido?

Simples: nós recebemos a informação com muito atraso. O atraso, pela regulação de hoje, pode (e normalmente leva) até 40 dias. A informação com esse atraso geralmente não é mais uma informação útil – vamos confirmar isso com dados mais para frente.

Mas nós temos uma esperança para termos alguma alteração sobre este e outros problemas regulatórios que existem hoje na Instrução CVM 358/2002. A CVM abriu uma consulta pública propondo alterações na regulação do insider trading. Eu e 20 outros órgãos e empresas relacionados ao mercado financeiro enviamos os nossos comentários que você pode ter acesso clicando aqui no site da CVM. Não é mais possível enviar comentários, mas é importante que o investidor sempre fique atento para participar dessas audiências.

Eu proponho algumas alterações que poderão melhorar ainda mais o ambiente do nosso mercado de capitais, com mais transparência e tempestividade das informações, mas também poderão ajudar os traders que gostam da ideia de seguir as operações dos insiders mais de perto. Sugiro que leiam as minhas considerações no site da CVM.

Voltando agora à possibilidade de alguém seguir as movimentações dos insiders (estratégia Siga o Mestre) para ganhar dinheiro na bolsa, em um texto do TC School nós até já falamos sobre isso, explicando o Lado B do Insider Trading. Sim, o insider trading tem um lado bom. Para saber mais, leia o nosso primeiro texto sobre o assunto.

No exemplo abaixo, apresentamos uma evidência com o ativo BRAP4, indicando que alguém que comprou ações no mesmo dia do dos insiders (12/05/2017), seguindo a estratégia Siga o Mestre, teria conseguido fazer um bom trade. Temos um texto completo falando sobre isso e não estamos dizendo que alguém tinha informação privilegiada.

Agora vamos entrar em mais detalhes dos dados de pesquisas científicas que avaliaram a possibilidade, de certa forma, de aplicar a estratégia Siga o Mestre.

Tonidael (2013) encontrou que usando as datas das operações do relatório da ICVM 358/2002, é possível obter retornos anormais tanto na compra quanto na venda das ações. O problema seria só termos acesso mais tempestivo às datas de negociações dos insiders e usarmos essa informação rapidamente antes que haja o ajuste dos preços à nova informação. 

Nas operações de compra ou de venda, houve retorno anormal de até 10,12%, sugerindo que de fato as negociações dos insiders continham, indiretamente, informações úteis para os investidores e o que os investidores mais ágeis poderiam ter usado a estratégia para ganhar dinheiro adicional.

Pordeus, Girão e Duarte (2019) fizeram um teste diferente do teste realizado por Tonidael (2013). Os autores focaram num caso conhecido e julgado de insider trading, com a JBS e a delação dos Irmãos Batista (JBSS3), para avaliar se seria possível antecipar os movimentos de alguma forma, antes de os fatos se tornarem públicos. 

Os resultados mostram que usando o relatório da ICVM 358/2002 da JBSS3 (você pode verificar isso no TC Matrix), como estratégia de Siga o Mestre, não foi possível obter retornos maiores do que Ibovespa, mas com um modelo matemático (PIN) que busca detectar insider trading, conseguiu-se uma estratégia de Siga o Mestre com desempenho melhor que o principal índice de ações do Brasil, conforme imagem abaixo. 

É importante destacar, que o modelo matemático entregou um desempenho melhor pouco antes do vazamento da delação dos Irmãos Batista – maio de 2017. Ou seja, captou o que pretendia captar e que só ficamos sabendo no mês seguinte, com a divulgação oficial do relatório da ICVM 358/2002.

Girão, Martins e Paulo (2014) também já haviam evidenciado, porém com modelos de valuation, que a informação dos insiders é importante para, inclusive, chegarmos no valor justo de uma ação – com modelos matemáticos e estatísticos.

Sendo assim, vamos para a última pergunta do texto para você pensar: e agora, você acha que é possível melhorar a transparência do mercado financeiro brasileiro e ainda usar estratégias baseadas na ideia do Siga o Mestre para ganhar dinheiro na bolsa?

Com os dados apresentados, parece ser possível. Restaria, então, que as empresas fossem mais transparentes na divulgação das operações dos insiders e isso pode vir com a reformulação da ICVM 358/2002, que regula as operações dos insiders no Brasil. 

Com isso, todos os participantes, que não querem fazer coisas erradas, ficarão felizes e teremos, inclusive, um mercado mais eficiente com informações sendo disseminadas nos preços mais rapidamente. Existem evidências sobre isso em outros países com mercados mais e menos desenvolvidos que o Brasil, como o que foi evidenciado por Aussenegg, Jelic e Ranzi (2018)

Será que um dia chegaremos num mercado informacionalmente mais eficiente? Eu acho que sim e pode não demorar muito. Vamos nessa que não custa sonhar! 

Aqui estão as referências que eu usei neste texto e também nas minhas sugestões enviadas à CVM, para quem quiser aprofundar:

AUSSENEGG, Wolfgang; JELIC, Ranko; RANZI, Robert. Corporate insider trading in Europe. Journal of International Financial Markets, Institutions and Money, v. 54, p. 27-42, 2018.

GIRÃO, Luiz Felipe de Araújo Pontes; MARTINS, Orleans Silva; PAULO, Edilson. Avaliação de empresas e probabilidade de negociação com informação privilegiada no mercado brasileiro de capitais. Revista de Administração (São Paulo), v. 49, n. 3, p. 462-475, 2014.

GIRÃO, Luiz Felipe de Araújo Pontes; MARTINS, Orleans Silva; PAULO, Edilson. O Lado B do Insider Trading: relevância, tempestividade e influência do cargo. Revista Brasileira de Gestão de Negócios, v. 17, n. 58, p. 1341-1356, 2015.

GROSSMAN, Sanford J.; STIGLITZ, Joseph E. On the impossibility of informationally efficient markets. The American Economic Review, v. 70, n. 3, p. 393-408, 1980.

NELSON, Mark W. Behavioral evidence on the effects of principles-and rules-based standards. Accounting Horizons, v. 17, n. 1, p. 91-104, 2003.

PAULO, Edilson; DE CARVALHO, Luiz Nelson Guedes; GIRÃO, Luiz Felipe de Araújo Pontes. Algumas questões sobre a normatização contábil baseada em princípios, regras e objetivos. Revista Evidenciação Contábil & Finanças, v. 2, n. 2, p. 24-39, 2014.

PORDEUS, GLAUCO GRACO NÓBREGA; GIRÃO, LUIZ FELIPE DE ARAUJO PONTES; DUARTE, FILIPE COELHO DE LIMA. A Probabilidade de Negociações Informadas vs Disclosures de Negociações dos Insiders: Análise do caso da JBSS3. 2019.

TONIDANDEL, Mauro César. Insider Trading: um estudo sobre a rentabilidade das operações com ações da própria empresa. 2013.

Mover Pro

Informação, análises e ideias de investimentos 24/7

Saiba Mais