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Entrevista exclusiva: Para Mercado Bitcoin, criptomoeda deve impulsionar diversificação de carteiras

Postado por: TC Mover em 08/12/2020 às 15:46

São Paulo, 8 de dezembro – Depois de alguns grandes tombos destruírem bilhões de dólares em valor, o Bitcoin atingiu seu valor mais alto em quase três anos no final do mês passado. A causa? Muitos fatos sugerem que o Bitcoin está se tornando um investimento com caraterísticas mais tradicionais. 

Para Fabrício Tota, diretor da Mercado Bitcoin, a maior plataforma de criptomoedas e ativos digitais da América Latina, a ascensão do Bitcoin se deve ao fato de as pessoas entenderem que esse ativo pode ser muito útil para diversificação de carteira.

Em outubro, a gigante de pagamentos global PayPal começou a permitir que seus clientes comprassem e vendessem Bitcoin e outras criptomoedas em suas contas. Square e outras empresas de tecnologia americana estão começando a deixar parte do seu caixa em Bitcoins. 

Grandes gestoras, como a Fidelity, que administra US$3,3 trilhões em ativos, estão lançando fundos de criptoativos. Para muitos investidores, o Bitcoin também os ajuda a se proteger do impacto inflacionário dos programas de estímulo econômico para combater à crise do coronavírus.

Em entrevista exclusiva à TC Mover, Tota chama de “louvável” a iniciativa de grandes investidores institucionais no Brasil de usar o Bitcoin como instrumento de diversificação e como proteção ao câmbio e à inflação. 

“O Bitcoin fez máxima histórica por que o câmbio contribuiu também, podendo alcançar quase US$20 mil ao final do ano. Estamos vendo forte alta nos últimos dois ou três meses diferente do que aconteceu em 2017, quando foi exagerado”, disse.

Para ele, o Bitcoin tem o mesmo risco de se investir em ações ou renda variável. “Como qualquer outro investimento há risco de volatilidade e segurança, mas eu prefiro ver pela ótica que há um bonde passando com ativo acessível, viável e seguro. 

Claro que não é para colocar todo o dinheiro, mas quando olho melhor o risco e não ter exposição a esse ativo, posso estar deixando esse bonde passar e perdendo a oportunidade”. Veja a continuação a entrevista completa com Tota.

Confira a entrevista exclusiva na íntegra

TC Mover: O rali atual é prova de que o Bitcoin se tornou um investimento convencional, como a renda fixa ou o ouro?

Fabrício Tota: Ainda não. Mas está no caminho. Vai se tornar um investimento muito viável para investidor comum ter em sua carteira para diversificação e poder alavancar os ganhos. Antes para ter acesso tinha que participar de um grupo ou uma lista que tinha o risco operacional. Mas hoje temos empresas com uma mega estrutura, inclusive com área de conformidade que não deve nada para players de mercado, um operacional que funciona 24 horas por dia há muito tempo. Os clientes podem enviar seus recursos a qualquer hora do dia. Essa possibilidade de ter acesso direto é uma porta de entrada madura que fica muito mais próxima de uma pessoa comum. Ele é democrático com essa classe de ativo, criado para resolver pagamento de ponta a ponta. Agora a pessoa física pode ter esse acesso por meio de qualquer valor, o institucional e family offices também pegaram carona.

TC Mover: Mas o que falta para se tornar um ativo convencional?

Tota: O tempo. Essa adesão está chegando e acontecendo. Não é como um fundo de renda fixa com demanda gigantesca. No caso do Bitcoin com oferta limitada a corrida pela ativo leva a valorização do preço. Na verdade, o tempo vai jogar a favor de quem já estava ou está entrando agora no ativo, são dois anos de alta absurda.

TC Mover: Esse status tirará um pouco da volatilidade do ativo?

Tota: Acho que não. Deve seguir muito volátil. A primeira transação foi há 12 anos, é algo super novo. Essa corrida recente foi muito forte, trouxe volatilidade para cima. A volatilidade deve acompanhar ao longo do tempo uma estratégia mais parecida com ações de longo prazo, até mesmo oportunidade de trade.

TC Mover: No TC sempre sustentamos o fato de que a pandemia levaria a um novo afrouxamento quantitativo que poderia impulsionar o Bitcoin – visto que ninguém gostaria de ter seu poder aquisitivo impactado pela plataforma. Mas, é somente isso que está por trás desse boom?

Tota: O afrouxamento é mais um fator. Se dependia muito da maturidade do ativo. Com o acesso de investidores institucionais você consegue herdar governança, não adianta nada ter esse afrouxamento e o dinheiro não chegar. O mercado é diferente do que era em 2017. Nós à época tínhamos apenas 20 pessoas, hoje são mais de 200 pessoas, divididas em quatro ou cinco empresas. O cenário como um todo é melhor, como nos Estados Unidos, Europa e Ásia, com pessoas e empresas negociando esse ativo. No Brasil, já tivemos conversas com a CVM e a Receita Federal.

TC Mover: Por que cada vez mais investidor institucional está entrando no ativo?

Tota: Ele está tendo uma visão do exterior, ou seja, uma ameaça de inflação que não seja tão impactante, por isso ele protege a carteira. Essa corrida pela proteção, pensando em desvalorização da moeda e ativo de risco como ações, os investidores veem nessa nova classe de ativo segurança para alocação, somado, claro, ao ecossistema maduro.

TC Mover: Por que são poucos os detentores do Bitcoin? Segundo Flipside Crypto, apenas 2% das contas anônimas que podem ser seguidas detêm mais de 95% da moeda virtual.

Tota: Você tem um número grande de endereço criado de Bitcoin, uma quantidade pequena vazio, sem mexer. Mas eu prefiro ver as análises de quanto tempo os endereços estão mantendo suas posições. Números de contas rodando estão aumentando, isso mostra que tem visão de longo prazo, utilizado muitas vezes para pagamento e remessa. Essa visão de ativo de proteção ou reserva de valor é muito mais factível. No passado, uma parcela significativa de 30% a 35% teria dados perdidos.

TC Mover: Como essa situação impacta na popularização do Bitcoin?

Tota: O impacto na verdade é preço na veia. Se tem oferta limitada de novos sistemas sendo gerados e tem quem não quer vender, o efeito é o mesmo que a curva de oferta e demanda, portanto, a solução é subir preço. Podemos criar uma espiral de preço para cima, é um contrassenso, mas na prática isso acaba chamando a atenção. O ativo traz oportunidades e risco.

TC Mover: Quando você acha que possamos ter grandes bancos e plataformas de investimento no Brasil criando produtos atrelados à criptomoeda?

Tota: Para isso são vários fatores. Hoje não é tão pouca gente, temos 2 milhões de clientes. Claro que nem todos são ativos, mas é um número significativo, equivalente a 1% da população brasileira. Para ter uma alocação significativa de 5% do seu portfólio depende de vários fatores. O investidor viu a queda dos juros e recorreu à Bolsa, mas hoje a Bolsa está no mesmo lugar de um ano atrás. Com uma nova classe de ativo mais palatável o investidor vai tomando mais coragem. Os primeiros que foram atrás disso tomaram risco, na ausência de regulação eles foram atrás de pareceres e advogados.

TC Mover: Mas o mercado não regulado significa ilegal?

Tota: O mercado não regulado não significa um mercado ilegal, de forma alguma, só não tem arcabouço regulatório tão extenso quanto o mercado de capitais. O regulador sabe e conhece muito bem, não tem preconceito e nem criminaliza o Bitcoin. No mercado financeiro temos o exemplo da JJ Invest, que estava ali, regulada, mas teve fraude.

TC Mover: Como você qualifica o comportamento dos grandes bancos em relação aos investimentos em Bitcoin no país?

Tota: Não é uma relação amistosa, em algum momento por desconhecimento e outros por ser um negócio pequeno em relação aos bancos, principalmente os grandes. Quando nos sentamos e conversamos sobre tudo que foi criado e o trato do dinheiro eles mudam. É algo que com alguns não foi bom, mas está mudando, vejo com bons olhos. Há um apetite de bancos de médio para grande porte pelo Bitcoin.

TC Mover: Atualmente há 26 milhões de lojistas e comerciantes que aceitam criptomoedas na rede PayPal. A capitalização de mercado das criptomoedas negocia perto dos US$500 bilhões. Mesmo assim os riscos de segurança parecem estar na cabeça do investidor. Como a MB está trabalhando para manter um alto nível de segurança para sua base de clientes?

Tota: Segurança é um pilar desde a fundação. É um ativo que circula e sai do ambiente da Mercado Bitcoin então ter um ambiente seguro é fundamental para o não vazamento. Isso não aconteceu de forma grave desde a fundação. A segurança do usuário é muito importante. Diariamente logins e senhas vazados. Uma loja virtual que uma pessoa faz compra, por exemplo, já teve seus dados vazados. O usuário manter o acesso seguro é importante. Só chamo a atenção para algo que poderia ser padrão. No caso do banco, qualquer um tem acesso pelo internet banking no celular. É grande a responsabilidade do cliente em cuidar do seu próprio dinheiro. 

Texto: Leandro Tavares
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Letícia Matsuura
Imagem: Vinícius Martins/TC

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