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Especial: Apesar de incertezas, chuva de IPOs pode exceder R$24 bilhões em abril

Postado por: TC Mover em 13/04/2021 às 11:14

São Paulo, 12 de abril – Após um março morno, o calendário de ofertas públicas iniciais, IPOs, na B3 ganha impulso em abril. Em parte, o movimento ocorre pela onda de listagens de grupos hospitalares e de saúde. Outra parte, pela convicção, mesmo frágil, de que os impasses relacionados ao Orçamento da União e à vacinação contra a Covid-19 serão superados em breve.

 

Insegurança fiscal

A insegurança quanto à indefinição de se o veto do presidente Jair Bolsonaro ao Orçamento da União para 2021 irritará sua base de apoio no Congresso tem puxado os juros e mantido o câmbio sob pressão. Como resultado, a bolsa tem operado de lado. A queda na popularidade do mandatário e a piora da crise da pandemia da Covid-19, grande parte por culpa da gestão do próprio Bolsonaro, assombram gestores e investidores que, a partir desta semana, têm a chance de embarcar ou não nessas ofertas.

 

Chuva de IPOs

Na quarta-feira será a vez da CM Hospitalar, antiga Cremer e agora conhecida como Viveo. Em total serão 12 ofertas iniciais, ou IPOs, com potencial de levantar acima de R$24 bilhões no que resta deste mês, estima a TC Mover. Todos os processos estão na fila da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, incluindo a abertura de capital da Caixa Seguridade, a subsidiária de seguros e previdência da Caixa Econômica Federal, cuja precificação deve ser uma das últimas a ocorrer no mês.

Abril não teve início empolgante para as ofertas de ações: o destaque era da Dasa, grupo hospitalar que queria levantar perto de R$6 bilhões. Demanda oscilante e pressões de compradores para cortar a faixa de preço sugerida marcaram o chamado re-IPO da empresa, disseram fontes envolvidas com a transação. No final, a Dasa captou pouco menos de R$4 bilhões a um preço 60% menor do que o programado, forçando a família que controla a empresa a participar da operação. Outra companhia, a LG Informática, suspendeu seu IPO na semana passada.

“Não foi fácil com a Dasa. Mas, o que estamos dizendo aos investidores é que as teses de negócio desta safra de ofertas são menos permeáveis a problemas na política ou na economia”, disse um banqueiro de investimento que participa de algumas das ofertas do mês. Entre janeiro e março, antes do agravamento da pandemia e do tombo na popularidade de Bolsonaro, a B3 registrou o melhor período trimestral para IPOs na história, com mais de R$40 bilhões captados em listagens e ofertas subsequentes.

 

 

O caso Dasa

O caso da Dasa também pode influenciar o desempenho dos IPOs no setor de saúde. Em plena piora da pandemia, com o país registrando recorde mundial diário acima de 3 mil mortos, são mais de cinco as ofertas iniciais de ações agendadas para esse segmento. Estão nessa lista, além da CM Hospitalar, as redes de hospitais Mater Dei e Hospital Care, a Blau Farmacêutica e a Kora Saúde.

A concorrência por parte de empresas incumbentes pode atrapalhar os planos de listagem das debutantes no setor hospitalar e de saúde. O setor vive uma onda de fusões e expansão nunca antes vista: abril deve ser o mês mais movimentado para o setor de saúde na história da bolsa brasileira. Ontem a Hapvida, que neste mês aprovou a absorção da rival Notra Dame Intermédica para se tornar o maior grupo de saúde do país, anunciou oferta de ações subsequente com esforço restritos que pode levantar até R$2,68 bilhões – baseada no preço de fechamento do papel na sexta-feira.

A empresa de segurança Grupo GPS, a companhia de energia solar Rio Alto Energias, a produtora de sementes Boa Safra, a fornecedora de serviços para negócios digitais Infracommerce, a produtora de insumos para agricultura Vitti e o Banco Modal completam a lista para abril, junto da Caixa Seguridade, cujo IPO deve ser o mais volumoso, com expectativa de captação de até R$6,5 bilhões.

 

Os mesmos problemas

Embora a tendência do mês aponte para uma melhora em relação a março, os problemas e dilemas do Brasil continuam os mesmos, disseram gestores e analistas. Por exemplo, Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, disse que, no Brasil, “temos o risco político aumentando, o Orçamento que não está fechando, a piora da Covid-19, vacinas que não estão chegando como o esperado”. Enquanto não tivermos definição de Orçamento e vacina, “o ruído político distorce o curto prazo”, aponta. E isso, reitera, pode fazer com que os IPOs pisem no freio.

Cada oferta responde a uma necessidade específica do emissor. Por isso, banqueiros se recusam a falar de todas no uníssono. O caso da Caixa Seguridade, no entanto, é visto como o mais interessante e o mais sensível ao risco político. A oferta será 100% secundária, o que significa que todo o capital levantado não vai para a operação de seguros, mas para a Caixa Econômica.

 

Ingerência e IPOs

Essa singularidade pode acender um sinal de alerta, por causa das recentes interferências de Bolsonaro nas empresas estatais, como Banco do Brasil e Petrobras. De fato, no prospecto que acompanha o anúncio da oferta, a própria Caixa Seguridade deixa claro o risco de divergência entre os interesses da estatal e dos demais acionistas. “O acionista controlador tem, e continuará a ter após a conclusão da oferta, poderes para, dentre outros, eleger a maioria dos membros do conselho de administração (…) e decidir sobre quaisquer questões que sejam de competência dos acionistas”, disse.

A expectativa da Caixa Seguridade, cujo IPO está programado para 27 de abril, é atrair pelo menos 40% da base de investidores nas pessoas físicas. O presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães, encomendou essa tarefa aos bancos que assessoram a companhia no IPO, disse uma fonte à TC Mover. “A desconfiança quanto à ingerência do governo é grande, mas há espaço e preço para fazer esse negócio acontecer”, disse a fonte.

 

Adiamento de precificação de IPOs

Para outro banqueiro, que pediu anonimato para falar do assunto, as teses das empresas na lista de IPOs são de crescimento apesar do ruído político. “Há quatro anos o país cresce de forma medíocre, mas essas companhias mostram desempenho interessante e, o melhor, têm a capacidade de replicar essa performance à frente”. No entanto, Galdi ressalta que, em um momento de indefinição sobre o cenário, o que valerá é a necessidade da empresa que quiser abrir capital. “Se não tem pressa, leva mais adiante, mas se tem pressa, faz com desconto, já que o dinheiro é mais barato do que no banco”, afirma.

A Kalunga, a rede de papelaria e eletrônicos, é um exemplo que corrobora com a visão de Galdi. Em janeiro, a empresa havia informado a desistência de abrir capital. Nesta semana, porém, ela comunicou que vai retomar o IPO, e afirmou que o processo vai depender das condições do mercado de capitais. A Allied Tecnologia, revendedora de produtos da Apple e Samsung no Brasil, decidiu levar o seu IPO adiante. No final, a companhia acabou levantando R$180 milhões, apesar de dizer meses atrás que pretendia captar R$1,4 bilhão.

A LG Informática, provedora de soluções para recursos humanos, decidiu suspender a oferta por 60 dias após dois adiamentos seguidos nas duas últimas semanas. Além de Allied e LG Informática, a Blau e a CM também decidiram adiar seus IPOs. A Blau adiou a oferta para 15 de abril. Já a CM decidiu esperar precificar até 14 de abril.

Texto: Gustavo Boldrini
Edição: Leandro Tavares, Guillermo Parra-Bernal, Karine Sena e Letícia Matsuura
Arte: Vinícius Martins / TC Mover


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