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Especial: Balanços robustos elevam desconto da Bolsa e escancaram peso do risco-país

Postado por: TC Mover em 18/08/2021 às 18:59
Balanços do segundo trimestre

São Paulo, 18 de agosto – A retomada da economia e uma redução mais acelerada no endividamento levaram as maiores companhias brasileiras listadas a reportarem balanços saudáveis no segundo trimestre, escancarando o peso dos riscos políticos e fiscais para a recente correção do Ibovespa.

O tombo de cerca de 7% do Ibovespa desde o início do terceiro trimestre, que ganhou tração após a temporada de balanços, reflete os temores sobre o rumo da política econômica, avalia Hugo Queiroz, analista-chefe do TC Matrix. O chamado risco-país, indicador usado para percepção de risco soberano com base no seguro contra calote dos títulos externos brasileiros de cinco anos, acumula alta de quase 28% no ano e de 10% desde o início de julho.

Sete em cada dez companhias cobertas pelo TC Matrix, casa de análise do TC, tiveram desempenho acima do esperado entre abril e junho, refletindo a recuperação e a reabertura dos negócios, assim como as vantagens competitivas e a nova estrutura de capital das empresas listadas em bolsa – agora desalavancadas. A alta nos custos de produção “teve algum impacto, mas esse risco já está reduzido nas companhias maiores”, disse.

Gestora vê tendência de rotação de setores no segundo semestre

Olhando para a frente, a tendência para o segundo semestre é de uma rotação de setores puxada pela mudança do ciclo econômico global, disse Aline Cardoso, gestora de renda variável da EQI Investimentos. Diferentemente do primeiro semestre, em que houve sucessivas altas nas estimativas do Produto Interno Bruto, PIB, e da inflação nos países ricos que favoreceram as commodities, deve haver uma desaceleração e redução de estímulos por parte do Federal Reserve até dezembro, ela pontuou.

“Por isso gosto de empresas que têm dinâmica própria, surfam tendências seculares e conseguem entregar crescimento independente da atividade econômica”, disse ela. Em relação ao trimestre anterior, Queiroz e outros analistas destacaram Petrobras, Vale e siderúrgicas, por conta do bom momento das commodities atreladas à economia chinesa. Cardoso também destacou a Vivara, que já está com vendas 19% acima dos níveis pré-pandemia, e a Mercado Libre, marketplace com maior crescimento no período.

Balanços de mineradoras e siderurgias foram marcados por desalavancagem e geração de caixa

A temporada de balanços do segundo trimestre do setor mineral e siderúrgico se resumiu em desalavancagem e forte geração de caixa. A Usiminas apresentou receita líquida e EBITDA ajustados recordes, além de se tornar credora líquida, com índice de alavancagem de 0,02 vez negativo.

A Vale registrou esse mesmo indicador em 0,01 vez, enquanto a CSN espera zerar a alavancagem ainda neste ano. Já a Petrobras registrou EBITDA recorde graças ao impacto da apreciação do real sobre a dívida e do petróleo alto, que resultaram em distribuição recorde de dividendos.

Frigoríficos beneficiam-se por demanda na Ásia

Os balanços do setor eram muito aguardados, diante das novas regulamentações na Argentina e da alta dos grãos. A maioria das empresas se beneficiou da forte demanda asiática por proteína bovina.

A JBS apresentou o melhor resultado trimestral da história, enquanto Marfrig e Minerva surpreenderam o mercado diante da falta de gado no Brasil. Contudo, a BRF não conseguiu repassar a inflação de custos no preço dos produtos, tendo reportado prejuízo de R$199,0 milhões.

Balanços mostram varejo revertendo prejuízos

A reabertura permitiu que o varejo revertesse prejuízos na base anual e visse altas anualizadas nas vendas de lojas físicas, principal gargalo um ano atrás. A Magazine Luiza sobrou na ponta positiva, apresentando crescimento consistente em quase todos os indicadores.

A Via reportou aceleração em indicadores como novos lojistas e vendas no marketplace, sua prioridade para reduzir a desvantagem para rivais, mas viu baixas anualizadas no EBITDA e margens. A Americanas, em seu primeiro balanço após a fusão entre Lojas Americanas e B2W, também registrou aceleração sólida nas vendas digitais e físicas, impulsionando lucro e receita, mas as despesas aumentaram devido ao momento de consolidação.

Bancos têm balanços em patamares pré-pandêmicos

Os lucros dos grandes bancos brasileiros voltaram praticamente aos patamares pré-pandêmicos, puxados pela retomada. O Itaú reduziu a projeção da despesa líquida com provisões para o ano e elevou o crescimento esperado da receita com empréstimos e tesouraria.

O Bradesco reportou menores despesas operacionais e de provisões, mas alertou para o impacto da Covid-19 na rentabilidade de sua unidade de seguros. Enquanto isso, o Santander Brasil atingiu melhor leitura de eficiência na história. Por fim, o Banco do Brasil elevou sua projeção de lucro líquido para o ano.

Demanda por cirurgias, consultas e exames contribui para balanços do setor de saúde

O setor busca recuperar vigor a partir da retomada gradual do fluxo de cirurgias, consultas e exames postergados no ano passado por causa da pandemia do coronavírus. A base de usuários de planos de saúde atingiu 24,87% do total da população.

Entre os balanços, destaque para a Rede D’Or que voltou a reportar lucro, obteve receita líquida recorde e viu a ocupação de leitos subir a 83%. A NotreDame Intermédica sentiu mais fortemente a pressão dos custos e o aumento da sinistralidade que resultaram em prejuízo, embora a receita líquida tenha crescido quase 23%. A Hapvida, em processo de fusão com a NotreDame, frustrou o consenso de lucro. Dasa apresentou aumento na receita líquida e EBITDA, mas computou prejuízo. Fleury voltou ao azul e viu a receita líquida subir acima de 100%.

Alta de lançamentos puxa resultados das incorporadoras

Como indicado pelas prévias operacionais, as principais incorporadoras da B3 reportaram fortes resultados, puxadas pelo alta dos lançamentos. Destaque para a Cyrela e EZTec, voltadas para públicos de mais alta renda, que expandiram suas margens mesmo com o aumento dos custos.

Para driblar a aceleração nos custos da construção, Tenda e MRV anunciaram reajustes em suas políticas de preço. Para o restante do ano, companhias dependentes do programa Casa Verde-Amarela, como Plano&Plano e Cury, devem sentir mais dificuldades, já que não conseguem repassar a alta de custos ao consumidor de renda menor.

Texto: Gustavo Boldrini, Maria Luiza Dourado, Iolanda Nascimento e Artur Horta
Edição: Guillermo Parra-Bernal, Karine Sena e Letícia Matsuura
Arte: Vinícius Martins / Mover


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