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Especial: Controlador da Lojas Marisa nega que rede está à venda

Postado por: TC Mover em 31/05/2021 às 10:46
Rede Lojas Marisa nega venda

São Paulo, 31 de maio – Décio Goldfarb, patriarca da família que controla a Lojas Marisa, negou que a varejista de moda esteja à venda ou negociando algum tipo de combinação de negócios com uma rival, em meio a insistentes rumores de uma fusão.


Três fontes afirmaram que Arezzo estaria interessada em compra

“Dou 110% de certeza de que não tem nenhuma negociação, com ninguém”, disse Goldfarb a um interlocutor após a TC Mover procurá-lo para comentar as informações. Três fontes ligadas direta ou indiretamente com o negócio disseram que a Arezzo, que está construindo uma plataforma de moda completa, estaria interessada em comprar a Marisa.

Vista por muitos investidores como o próximo alvo para uma aquisição no mercado de moda, a Lojas Marisa vem passando por um processo de reestruturação desde 2018, depois de embarcar numa tentativa frustrada de acelerar seu crescimento, que envolveu inclusive uma mudança de seu público-alvo. As iniciativas para reerguer a empresa, porém, ainda não apresentaram os resultados desejados, de acordo com analistas e gestores consultados pela Mover.


Lojas Marisa seria alvo barato e acessível, diz analista

O nome da Lojas Marisa piscou no radar do mercado pelo fato de estar numa posição fragilizada. Para analistas como Leandro Siqueira, da Edufinance, seria um alvo mais barato e acessível para a Arezzo do que, por exemplo, a Cia Hering. A Arezzo fracassou na tentativa de levar a Hering no mês passado, perdendo o ativo em disputa para o Grupo Soma, que ofereceu 40% a mais pela empresa, avaliando-a em R$5,1 bilhões.

A aquisição da Marisa “faria muito sentido para a Arezzo porque aumentaria o mercado potencial dela,” disse Siqueira. O desconto profundo ao qual a Marisa negocia relativa aos pares deixaria Arezzo em uma posição ainda mais vantajosa, disse ele: uma compra da Marisa seria paga em 10,8 anos de geração de caixa operacional, ante 19,6 anos das Lojas Renner, 20,2 da Arezzo, 22,3 da Hering e 29,6 anos das Lojas Americanas, de acordo com dados extraídos da Refinitiv, com base no chamado múltiplo EV/EBITDA.

O esperado movimento da Arezzo, de partir para uma grande aquisição para expandir seu mercado endereçável, ocorre em um momento em que o setor de moda experimenta uma onda de consolidação. Empresas que se saíram melhor na crise da Covid-19, por terem uma operação digital mais maciça, como a Arezzo e a Soma, negociam a compra de operações e marcas que têm languidescido com o fechamento dos comércios. Outras, como as Lojas Renner, correm atrás para não perder fatia de mercado.


My Shoes não consta nos balanços da Lojas Marisa e da Arezzo

De acordo com duas fontes diretamente ligadas à família, a última vez em que os Goldfarb estiveram em contato com Alexandre Birman, diretor-presidente e maior acionista da Arezzo, foi na dissolução da parceria que envolveu a marca My Shoes. A rede de lojas de shoppings era comandada por Renata Goldfarb e veio a ser descontinuada no ano passado, após brutal queda no faturamento causada pela pandemia de Covid-19.

A My Shoes nunca constou nos balanços da Lojas Marisa, nem de Arezzo, e era um investimento próprio realizado por Renata Goldfarb. Ela, que foi diretora de marketing da Schutz, uma das marcas do conglomerado da Arezzo, recebeu o apoio de Birman até 2016. A parceria entre os empresários durou sete anos.


Rumor da compra valorizou ações das empresas de moda

A ação ordinária da Marisa (AMAR3) registra significativa valorização desde quarta-feira, 26. Sua performance é de alta de 11,80% na semana, refletindo em grande parte o rumor de uma compra, disseram traders. O papel fechou nesta sexta-feira cotado a R$7,37, representando alta de 4,24%. Já nesta segunda-feira, perto da abertura, a ação era cotada a R$7,39, subindo 0,27%.

Enquanto isso, Arezzo (ARZZ3) avançava 0,22%, a R$89,23, após disparar 4,90% a R$89,03 na sexta-feira. A Arezzo também negou que estivesse interessada na aquisição da Lojas Marisa.


Busca por clientes em shoppings foi erro de estratégia, segundo analistas

Após sua listagem em 2007, a Marisa teve seis anos de crescimento constante, na esteira da melhor condição financeira entre o público de renda mais baixa – foco de mercado da empresa. Após atingir sua máxima cotação histórica em fevereiro de 2013, a empresa tentou reposicionar a marca, aumentando o ticket médio de seus produtos para conquistar um público de renda maior e se aproximar das concorrentes C&A e Riachuelo.

Na procura por clientes em segmentos que não dominava, a Lojas Marisa também buscou aumentar sua presença em shopping centers. Contudo, a estratégia se mostrou errada, disseram analistas. Para piorar, a recessão de 2015-2017, a pior na história do Brasil, pegou a empresa em uma situação de fragilidade ao não conseguir repassar a alta de custos. Então, viu o custo de seu endividamento disparar com os juros mais altos.

No final de 2017, a rede de moda decidiu passar por uma reestruturação, voltando às suas origens e ajustando as operações. Isto resultou no fechamento de diversas lojas que não mostravam serem financeiramente sustentáveis. Ela também foi entrando nas vendas pela internet, adotando uma estratégia de omnicanalidade, assim como seus concorrentes. Os resultados começaram a aparecer em 2019, fechando o ano com as maiores vendas em quatro anos.


Pandemia atrasou recuperação da Lojas Marisa

Mas aí veio a pandemia. Ela atrasou o esforço de retomada. Para Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail, a demora na retomada da Lojas Marisa se deve às características do segmento de varejo de roupas, além dos efeitos da crise da Covid-19.

“Supermercados e eletrodomésticos são mercados de ciclo curto. Mas a moda não é. Quando você tem que fazer mudanças, os ciclos na moda tendem a ser muito longos, porque você só enxerga as mudanças nos ciclos de coleções. Até as mudanças entrarem no ciclo, até chegar na loja, até o cliente perceber, vai um tempo”, disse ele.


Após Cia Hering, não há varejista de moda de grande porta para compra, disse Alexandre Birman

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, veiculada em 18 de maio, Alexandre Birman disse que, depois da aquisição da Cia Hering, não há no mercado varejistas de moda de grande porte disponíveis para compra.

“De pequeno porte, tem várias. Temos opções interessantes, algumas de baixíssimo risco e endividamento, com possibilidade de crescimento de longo prazo. Outras com trabalho um pouco maior de reconstrução”, disse.

“Pode ser que a gente venha com aquisição de menor porte, mais digital. Pode ser uma empresa de moda feminina ou uma marca que já fez muito sucesso, mas precisa de reposicionamento”, afirmou Alexandre Birman. Ele prometeu na entrevista que a agenda normal de fusões e aquisições da Arezzo, motor principal de crescimento da empresa, vai continuar “sem acelerar e sem frear”.

Texto: Machado da Costa e Ivan Ryngelblum
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Letícia Matsuura
Arte: TC Mover


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