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Especial: General Luna, indicado para comandar Petrobras (PETR4), pode surpreender céticos

Postado por: TC Mover em 22/02/2021 às 15:40
Luna

São Paulo, 22 de fevereiro – Joaquim Silva e Luna, o general que foi nomeado na sexta-feira para comandar a Petrobras, códigos PETR3 e PETR4, pelos próximos dois anos, é pau para toda obra, mas não é pau mandado.


Luna assume Petrobras após demissão de Castello Branco

Segundo fontes próximas a Luna, o engenheiro militar que trabalhou em dezenas de projetos Brasil afora durante 45 anos de carreira no Exército é parcimonioso, perseverante e bom negociador. Gestor que abomina o desperdício, Luna chega na Petrobras em meio à crise causada pela decisão do presidente Jair Bolsonaro de demitir Roberto Castello Branco por elevar os preços dos combustíveis, a despeito das consequências políticas.

Assim, a percepção de que o general Luna chega na Petrobras para obedecer a Bolsonaro é errónea, segundo conselheiros da estatal, ex-ministros e altos funcionários de governos passados. Durante a carreira, que incluiu uma passagem como ministro da Defesa na administração de Michel Temer, Luna sempre mostrou autonomia, conquistada mediante o paciente uso da negociação, especialmente em situações críticas onde muitos políticos desabavam.

Atuação do general em greve dos caminhoneiros é elogiada

Um alto funcionário do governo Bolsonaro disse à TC Mover que Luna desfruta da “mais alta confiança do presidente”, por conta do seu papel na greve dos caminhoneiros de maio de 2018, que, de alguma forma, ajudou a selar a vitória de Bolsonaro na eleição presidencial daquele ano.

No entanto, na contramão dos assessores de Temer, que reagiram tarde à greve e aconselhavam reprimir o movimento, Luna, então ministro da Defesa, recomendou manter o diálogo com a categoria, evitar a violência e usar as Forças Armadas para reabastecer as regiões mais afastadas do país.

Assim, o plano de Luna foi executado em meio a um cenário caótico: aeroportos fechados, postos de gasolina sem combustível e mercados com prateleiras vazias. Contudo, a estratégia deu certo e, em 26 de maio, menos de uma semana depois de a greve estourar, as primeiras estradas foram desbloqueadas e os aeroportos começaram a ser reabastecidos. Então, em menos de 15 dias, a maior paralisação rodoviária da história do país terminava. “Ele deu um show, foi cirúrgico”, disse o então secretário-executivo de um dos ministérios envolvidos na negociação.

Reajuste de combustíveis será desafio para Luna

Contudo, essa não foi a primeira vez que Luna precisou desbloquear uma rodovia. Em 1996, quando era comandante do 6° Batalhão de Engenharia e Construção, ele viabilizou o asfaltamento de um trecho de 120 quilômetros da Rodovia BR-174, em Roraima. Assim, o percurso atravessa a Terra Indígena Waimiri-Atroari.

Por consequência, a obra só aconteceu depois que Luna negociou com um indigenista da Funai, representantes do Ibama e três caciques, líderes da tribo local, que ameaçavam um bloqueio. Para dois conselheiros da Petrobras, consultados pela TC Mover, Luna vai precisar desbloquear um par de coisas na estatal, se sua nomeação for referendada pelo conselho.

Desse modo, o primeiro desafio será o de reajustar os combustíveis de forma mais demorada, mesmo com os ciclos de alta do dólar ou do petróleo. O segundo será a continuação da política de desinvestimentos da estatal, que tem acelerado a redução de dívida, a geração de caixa e o restabelecimento dos dividendos.

Ações da Petrobras foram rebaixadas após anúncio de Bolsonaro

Analistas de pelo menos seis corretoras rebaixaram a recomendação das ações da Petrobras entre ontem e hoje. O rebaixamento reflete cautela extra com a política de preços de combustíveis e a governança da estatal após a demissão de Castello Branco e a nomeação inesperada de Luna. Para Thiago Duarte, analista do BTG Pactual, “a falta de clareza para onde a Petrobras está indo agora é considerável”.

Já para Regis Cardoso, do Credit Suisse, impedir o ajuste nos combustíveis em meio à reflação do petróleo é uma preocupação, mas pode nem ser a maior. Nesse sentido, Gabriel Francisco, da XP, acha que as ações da Petrobras sofrerão “uma penalização no mercado semelhante ao que foi observado nos períodos de instabilidade no Brasil, e não deverão refletir o seu valor intrínseco ou o elevado perfil de geração de caixa da companhia enquanto o ambiente de incertezas persistir”.

General tentará restabelecer elo entre estatal e governo

Apesar do ceticismo quanto à sua nomeação, Luna chega à maior estatal brasileira para tentar restabelecer um elo, que estava quebrado há meses, mas ainda imperceptível para muita gente, entre a alta cúpula do governo e a da Petrobras. Na última sexta-feira, Bolsonaro anunciou a demissão de Roberto Castello Branco, que estava no cargo desde janeiro de 2019.

Então, Castello Branco, que segundo fontes se recusou a renunciar ao cargo antes de ser demitido, foi dispensado depois de se manifestar publicamente pouco preocupado com as reivindicações dos caminhoneiros e a possibilidade de uma nova greve.

O episódio Bolsonaro-Castello Branco revela o estilo de governo do presidente, que subestima os riscos reputacionais. Entretanto, também mostra que entende que uma greve de caminhoneiros poderia ser fatal para seu mandato e uma eventual reeleição, de acordo com o analista político do TC, Leopoldo Vieira. Assim, na terça-feira, o governo deve protocolar o pedido de saída de Castello Branco e a inclusão de Luna no conselho. Para Luna se tornar presidente da estatal, precisa passar pelo crivo de vários comitês antes de ser ratificado pelo colegiado.

Luna realizou programas de cortes em Itaipu como diretor-geral

O ex-presidente da República Michel Temer, de quem Luna foi ministro da Defesa, disse à Coluna do Estadão no final de semana que “o Brasil e os acionistas vão se surpreender positivamente” com o general na presidência da Petrobrás. Igualmente, em conversas reservadas, o ex-presidente costuma dizer que se surpreendeu com o “perfil de administrador austero” do militar.

Nesse sentido, caso a indicação seja confirmada, essa vai ser a primeira vez que um militar comanda a Petrobras desde junho de 1988, quando o coronel da reserva da Força Aérea Brasileira Ozires Silva deixou a presidência da companhia. Luna, de 71 anos, tem pós-graduação em Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, em curso realizado na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, e doutorado em Ciências Militares, na mesma instituição.

Além disso, Luna está há dois anos à frente da Itaipu Binacional, como diretor-geral da usina hidrelétrica, onde tem se tornado célebre por um programa de severos cortes de despesas acima dos R$600 milhões.

De acordo com um dos conselheiros da Petrobras que falaram à TC Mover, “Luna não parece ser o tipo de executivo que obedece cegamente. Ele não me parece ser um pau mandado. Sabemos que o custo da governança é o temor da vigilância, mas ele não me parece o tipo de pessoa que tenha a intenção de enfraquecer o nosso modelo de governança e conformidade”.

Entretanto, por ser dia de vencimento de opções na bolsa, o movimento nas ações da Petrobras deve ter sido potencializado. Caberá a Luna mitigar o medo do mercado quanto à governança da Petrobras e explicar que, quando se trata de estatais, qualquer autonomia é relativa.

Desempenho das ações da Petrobras (PETR3 e PETR4)

Luna - Petrobras

Com a repercussão da nomeação de Luna, a ação ordinária da Petrobras, código PETR3, caía 19,34%, a R$21,86 por volta das 15h40. Além disso, a ação preferencial, código PETR4, derretia 18,84%, a R$28,17. Assim, os recibos de ações da Petrobras negociados em Nova Iorque, ADRs, com o código PRB, também derretem, caindo 20,30%, a US$8,01. No mesmo horário, o Ibovespa tinha queda de 3,83%, aos 113,8 mil pontos.

Para acompanhar o desempenho das ações da Petrobras e de outras empresas, basta acessar o TC Matrix, ferramenta gratuita do TC.

Texto: Vinícius Custódio
Edição: Guillermo Parra-Bernal e João Pedro Malar
Arte: TC Mover


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