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Especial: “Grosseiramente barata”, Vale flerta com capitalização maior que Petrobras e Itaú juntos

Postado por: TC Mover em 07/04/2021 às 10:59

São Paulo, 7 de abril – Um acidente fatal submeteu a segunda maior produtora de minério de ferro do mundo à pior crise da sua história dois anos atrás. Fiel ao ditado de que na desgraça ressurgem os mais fortes, hoje a Vale está a ponto de valer mais que a maior estatal e o maior banco comercial brasileiros somados. É competência ou simplesmente sorte?

Sem sinal de correção a curto prazo

A ação ordinária da Vale atingiu ontem recorde histórico intradiário em R$104,46. Isto reforça sua liderança entre as maiores companhias do país em valor de mercado. A capitalização de mercado da empresa chegou aos R$550 bilhões. Esse montante está apenas 5% abaixo do valor de mercado somado da petroleira Petrobras e do banco Itaú Unibanco. O mais interessante, disseram gestores, analistas e contribuidores do TC, é que o valor de mercado da Vale não mostra sinais de correção no curto prazo.

Diferentes linhas de análise apontam para a continuidade da renovação de recordes de fechamento e, consequentemente, de capitalização. Por um lado, o preço do minério de ferro, principal produto da companhia, se mantém acima dos US$150 dólares a tonelada por dois meses seguidos, fenômeno não visto há mais de dez anos atrás. O câmbio fraco também favorece a mineradora. Afinal, a Vale tem boa parte dos seus custos denominados em reais e sua receita completamente dolarizada.

Até agora, pode parecer sorte. Mas, depois do acidente na mina de Brumadinho, que deixou mais de 300 mortes e levou a um acordo de reparações ambientais e civis de quase R$40 bilhões, analistas destacam os avanços na governança e nas finanças da empresa. A rapidez com a qual a Vale se adaptou às restrições de produção de minério nos sistemas Minas e Sul, onde Brumadinho e outras minas com problemas de segurança estavam localizadas, assim como a rápida ação de controle de oferta do mineral na esteira da pandemia do coronavírus, ajudaram a empresa a reduzir seus riscos. Isto aumentou sua rentabilidade de forma brutal.

Vale na liderança mundial

A Vale está “grosseiramente barata”, disse Leonardo Correa, analista do BTG Pactual. “A empresa foi bem-sucedida em atender às principais preocupações dos acionistas nos últimos meses, em proporcionar estabilidade operacional e crescimento, os dividendos estão bem encaminhados (…) e, no quesito Ambiente, Sociedade e Governança [ESG], a companhia quer gradualmente tornar-se uma referência na indústria nos próximos anos”, apontou.

O alinhamento dos astros que hoje ajuda a Vale a virar a maior empresa brasileira e lentamente a retomar sua liderança no mercado mundial de minério não acompanha nem a Petrobras nem o Itaú. Por um lado, o temor de ingerência do governo na política de preços dos combustíveis tem destruído quase R$56 bilhões em valor de mercado da estatal. Já o maior banco comercial da América Latina luta com maior concorrência pelas fintechs. Além disso, a rentabilidade está em queda e há temor de uma explosão da inadimplência durante o pós-pandemia.

Vale nas carteiras

Enquanto as ações ordinárias da Vale acumulam altas de 176%, nos últimos 12 meses, as preferenciais da Petrobras e do Itaú ganharam 56% e 34%, respectivamente. Apesar do desempenho desfavorável das duas companhias, analistas diferem no apelo dos papéis. Enquanto 5 de 10 analistas recomendam venda ou manutenção da Petrobras PN, 8 de 15 fazem o mesmo com Itaú Unibanco PN, e na Vale, 8 de 9 avaliam a compra. Entre as 18 carteiras recomendadas para abril monitoradas pela TC Mover, a Vale ON é a ação mais presente, aparecendo em 15 delas, o Itaú está em 6 e a Petrobras conta com 4 menções.

Sob o ponto de vista técnico, depois do pivô de alta após as mínimas da pandemia, a Vale ON vem respeitando perfeitamente a média móvel de 9 semanas como suporte, e espera-se a continuidade desta tendência até que os preços percam este suporte disse Sérgio Sanita, contribuidor do TC especializado em análise técnica.

Vale descontada ante pares internacionais

Comparada aos pares internacionais, notadamente as mineradoras australianas a companhia opera em um desconto de 40%. Segundo Correa, do BTG Pactual, é “exagerado” mesmo considerando o abismo da diferença entre os prêmios de risco aplicados pelo mercado às companhias dos dois países. Analisando o fluxo de negociação para os últimos 90 dias, as compras do investidor estrangeiro, em especial dos clientes da Merrill Lynch, mostram uma tendência interessante: saldo positivo dessas compras, de mais de R$12 bilhões nos últimos doze meses, não é sequer a metade do que a tesouraria da empresa sinalizou recomprar ao longo do próximo ano.

Parte do otimismo pelo desempenho futuro da Vale reside no cenário econômico para o pós-pandemia. Outra parte pelo atual rali das commodities e parte também pela gestão financeira da empresa. Daniel Sasson, analista do Itaú BBA, disse que, no primeiro trimestre, o desempenho financeiro da Vale deve continuar sólido, apesar da menor diluição de custo fixo e o frete ligeiramente mais caro. No negócio de metais básicos, os preços mais altos do níquel e do cobre devem compensar os volumes mais baixos.

Governança?

Do ponto de vista dos fundamentos, a demanda por minério deve continuar pressionada para cima. Isto devido aos esforços dos governos por tirar seus países da crise econômica alimentada pela pandemia do coronavírus. Mais dinheiro está sendo injetado em grandes projetos de infraestrutura nos Estados Unidos e a China. O objetivo é estimular a criação de empregos. Assim, projetos de infraestrutura, notadamente de construção civil demandam metais básicos e minério, acelerando a demanda pelos produtos da Vale.

Correa disse que o anúncio da Vale de recompra de até 270 milhões de ações ordinárias da companhia é apenas um aperitivo. Com isso, o melhor do retorno de caixa aos acionistas ainda está por vir. A retomada de pagamentos semestrais de dividendos, que podem atingir até US$14 bilhões, podem ajudar. Outro segmento importante e com perspectiva de futuro da companhia é o níquel, material escasso no planeta e muito demandado para a produção de carros elétricos. Os preços do níquel sobem 92% nos últimos cinco anos a aproximadamente US$16,6 mil por tonelada. O valor ainda está longe das máximas de 2007 em US$47 mil.

Sobre governança, as políticas da Vale explanadas em seu release de resultados parecem ter reagido à tragédia de Brumadinho, de acordo com analistas e contribuidores do TC. A empresa pretende neste ano que suas operações sigam os critérios do GISTM, que dá a diretriz global para a gestão de operações e resíduos de mineração. Acertado o acordo de reparação de Brumadinho com governos estadual e federal, Defensoria e Ministério Público, agora a diretoria fala em segurança, transformação cultural e sustentabilidade.

Covid-19 e Brumadinho

A piora da pandemia da Covid-19 e a demora no acordo por Brumadinho tiraram a Vale do topo das companhias mais valiosas da América Latina no meio do ano passado. Recentemente, graças à alta do minério e a volta dos dividendos, a mineradora retomou o posto, que ficou por um tempo nas mãos da MercadoLibre. Agora, prestes a superar o valor combinado da segunda e a terceira maiores companhias do Brasil, a Vale não aparenta o menor cansaço no caminho ao topo.

Texto: Felipe Corleta
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Letícia Matsuura
Arte: Vinícius Martins / TC Mover


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