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Especial: Obcecado por ESG, setor de proteínas busca consolidação e olha para a China

Postado por: TC Mover em 01/04/2021 às 14:46
Setor de proteínas

São Paulo, 1 de abril – Quatro anos depois da Operação Carne Fraca, que revelou um milionário esquema de suborno montado por frigoríficos para não sofrerem fiscalização sanitária, o setor de proteínas levanta a bandeira da sustentabilidade como uma verdadeira obsessão, e uma forma de redenção.


Greve dos caminhoneiros e coronavírus trouxeram desafios para o setor de proteínas

A operação, deflagrada pela Polícia Federal em março de 2017, jogou por terra anos de trabalho dos frigoríficos brasileiros para conquistar o mundo. Após reverterem a suspensão das encomendas dos frigoríficos suspeitos e mudarem a percepção sobre os processos sanitários do setor, os produtores nacionais de proteínas esperam que 2021 seja um ano de consolidação, na esteira da crescente demanda por carne na China e da forte geração de caixa que abre caminho para mais dividendos e até aquisições.

O ciclo virtuoso do setor de proteínas, que se estende desde que as empresas anunciaram medidas para melhorar os controles de qualidade, teve uma interrupção temporária com a greve dos caminhoneiros de maio de 2018.

O advento do coronavírus, que também trouxe desafios extras ao setor, permitiu que a indústria mostrasse a efetividade da governança e qualidade reforçadas, disse a analista Thayná Vieira, da Toro Investimentos.

Qual o resultado? A ação da Marfrig (MRFG3) mais do que dobra de valor, enquanto a BRF (BRFS3) acumula alta de quase 70,00% nos últimos 12 meses. No mesmo período, a JBS (JBSS3) valorizou 48,00% e a Minerva (BEEF3) ,quase 35%.

Crise após operação policial amadureceu setor de proteínas, segundo presidente da ABPA

“A crise injusta gerada à imagem de nosso setor produtivo trouxe crescimento e amadurecimento na visão setorial em relação à gestão de imagem e comunicação do que fazemos bem e corretamente”, disse Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, ABPA, em entrevista.

“Reforçamos nossos cuidados na gestão de conformidade do setor produtivo, fortalecendo a transparência setorial”. Para ele, o sucesso do setor de proteínas é marcado por um esforço para clarificar mitos e equívocos em relação ao setor produtivo e pelo foco em desenvolver os alicerces sustentáveis na cadeia produtiva.

Gestoras globais pressionam empresas a adotar práticas de ESG

A pressão das grandes gestoras globais para que as empresas brasileiras de commodities adotem, de forma célere, práticas de Ambiente, Sociedade e Governança, o chamado ESG, em acordo com os melhores padrões internacionais têm sido fundamentais para essa melhora na imagem do setor, de acordo com Thiago Duarte, analista do BTG Pactual.

A Marfrig é o único frigorífico brasileiro com um inventário completo de gases de efeito-estufa. A empresa também projeta cenários relacionados à mudança climática. De acordo com o site CapitalReset, a JBS teria sinalizado à FAIRR, uma rede de investidores que analisa o setor de proteínas, que pretende fazer a mesma coisa nos próximos dois anos.

Esses avanços contínuos, somados à forte valorização do dólar ante o real, possibilitaram às exportadoras brasileiras de proteínas gerarem tanto caixa no ano passado que as aquisições, os novos investimentos e o pagamento de maiores dividendos se tornaram rotineiros.

A JBS, por exemplo, anunciou uma remuneração a acionistas “sem precedentes” de R$2,5 bilhões, enquanto Marfrig e Minerva anunciaram o primeiro pagamento de dividendos em dez e quatro anos, respectivamente.

setor de proteínas

Atre: TC Mover


Para trader, escrutínio de investidores sobre ESG deve crescer nos próximos anos

Se focar no ESG está por trás desse desempenho, não se sabe ainda. O que é claro, de acordo com o contribuidor do TC e trader Israel Massa, é que o escrutínio dos investidores a respeito dessas questões só vai crescer nos próximos anos.

O CapitalReset disse que os frigoríficos brasileiros avançaram significativamente na terceira edição do ranking da FAIRR. Entretanto, alertou que as empresas de proteínas ainda precisam crescer em questões básicas de sustentabilidade. O papel do governo na área de meio-ambiente também pode dificultar a atração de capital no setor, disse o site, citando a FAIRR.

JBS (JBSS3) não vê relação direta entre operação e avanço de agenda sustentável

Contudo, algumas das empresas negam que haja uma relação direta entre a eclosão da Operação Carne Fraca e os avanços na agenda sustentável do setor. A JBS, por meio de sua assessoria de imprensa, disse que a operação não teve nenhum impacto sobre a qualidade dos seus produtos.

A companhia destaca que possui uma “política de compra responsável de matéria-prima e que estabelece critérios socioambientais para a seleção dos seus fornecedores”. Também aponta ser a única empresa do setor no Brasil a possuir câmeras de monitoramento do bem-estar animal em 100% de suas unidades.

Na teleconferência de resultados do quarto trimestre da JBS, o diretor-presidente Gilberto Tomazoni definiu a agenda sustentável como “o coração” da companhia. A JBS, disse ele, “passou a ver o mundo com olhar sustentável”, destacando o recente lançamento da meta de zerar sua emissão de carbono até 2040, por meio do programa “Net Zero 2040”. A companhia tornou-se a primeira gigante global do setor de proteínas a estabelecer uma meta neste sentido.

Marfrig (MRFG3) e Minerva (BEEF3) têm sustentabilidade como pilar importante

Já a Marfrig, que inicialmente estipulou zerar os gases estufa até 2050, abriu espaço para a possibilidade de alcançar a meta entre 2035 e 2040. A empresa deve oficializar sua meta de Net Zero até o começo de 2022. O objetivo é identificar a totalidade de seus fornecedores na Amazônia até 2025, e no Cerrado até 2030. Atualmente, essa taxa de identificação é de, respectivamente, 62,00% e 47,00%, disse o diretor de sustentabilidade, Paulo Pianez.

A Minerva, maior exportadora de carne bovina brasileira para o mercado sul-americano, também coloca a sustentabilidade como um “pilar relevante”. Taciano Custódio, que comanda a área, disse à TC Mover que a companhia foi pioneira no monitoramento de 100% das compras em todo território nacional, e destacou parcerias no Brasil, Colômbia e Uruguai para reduzir as emissões de carbono na criação de gado.

“Estamos muito bem posicionados para capturar a maior demanda e atender a diferentes mercados internacionais” cuidando da sustentabilidade, afirmou.

Procurada pela TC Mover, a BRF não atendeu à solicitação de entrevista. Mesmo assim, o mercado não parece tão agitado com o desempenho futuro das ações do setor de proteínas. Para muitos analistas e gestores, a inflação nos insumos, como soja e milho, traz um risco para a rentabilidade do setor.

Demanda externa aquecida deve catalisar papéis do setor de proteínas

De qualquer forma, contribuidores do TC apontam para a demanda aquecida como catalisador dos papéis. Entre janeiro e fevereiro de 2021, a China importou 1,6 milhão de toneladas de carne, uma alta de 27,60% na base anual.

“No mercado externo, apesar da queda na comercialização de carne bovina entre janeiro e fevereiro, provocada pelo aumento nos preços da arroba do boi gordo e pela manutenção dos preços da carne no atacado, acreditamos que, após um primeiro semestre mais difícil, o consumo mundial continuará aquecido, principalmente considerando a demanda asiática”, diz Vieira, da Toro.

A ABPA espera um ano positivo para o setor de proteínas, citando os impactos da Peste Suína Africana sobre o rebanho asiático, de acordo com Santin. “Não apenas a organização, mas diversos analistas internacionais apontam para a sustentação desta demanda por proteína animal na região”, afirmou, apontando um déficit de 12 milhões de toneladas de carne na China.

Desempenho das ações das empresas do setor de proteínas





Perto das 14h45, o papel da JBS (JBSS3) caía 0,26%, cotado a R$30,20. Já a ação da Marfrig (MRFG3) subia 1,93%, a R$17,95. O ativo da Minerva (BEEF3) recuava 0,10%, a R$10,19, e o da BRF (BRFS3) tinha queda de 2,34%, a R$24,63. No mesmo horário, o Ibovespa diminuía 0,97%, aos 115,5 mil pontos.

Para acompanhar o desempenho das ações das companhias do setor de proteínas e de outras empresas, basta acessar o TC Matrix, ferramenta gratuita do TC.

Texto: Gustavo Boldrini
Colaboração: Leandro Tavares
Edição: Guillermo Parra-Bernal, Karine Sena e João Pedro Malar
Arte: Vinícius Martins / TC Mover


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