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Especial: Quem perde menos com a crise hídrica no setor elétrico?

Postado por: TC Mover em 03/09/2021 às 22:13
Crise hídrica e empresas elétricas

São Paulo, 3 de setembro   – A pior crise hídrica do Brasil em 91 anos deve continuar afetando os preços das companhias do setor elétrico, prejudicando as de geração hidrelétrica, especialmente as com alto nível de contratação. Por outro lado, pode se traduzir em oportunidades para as ações de transmissoras e geradoras diversificadas, de acordo com analistas e contribuidores do TC.

A falta de água prejudica receitas de geradores hídricos e pressiona a inflação, com o aumento de custos aos consumidores. Contudo, as elétricas com uma diversificação maior de ativos podem se beneficiar do cenário de elevação dos preços de energia associado à própria seca, enquanto transmissoras também ganham com a maior inflação. O setor elétrico é subdividido em geração, transmissão e distribuição.

Crise hídrica afeta principalmente geradoras hidroelétricas

As geradoras com grande exposição à hidreletricidade e altos níveis de contratação são as mais afetadas, ao passo que as distribuidoras podem sofrer com o menor consumo de energia e maiores níveis de furto de eletricidade em função das altas tarifas. Entre os fatores que mais mexeram no ano com o Índice de Energia Elétrica, o índice referência para o setor na B3, estão também a proposta de tributação de dividendos, que afeta o setor, tradicionalmente pagador de proventos, os juros em alta e a privatização da Eletrobras.

As empresas de transmissão com alta exposição à correção de preços pelo IGP-M, Índice Geral de Preços do Mercado, são as mais bem posicionadas para o cenário de crise hídrica, disse Vitor Sousa, analista da Genial Investimentos. Taesa e Alupar possuem volume maior de contratos de transmissão, quase 60% e 38%, respectivamente, atrelados ao IGP-M. Enquanto isso, os mais recentes são indexados ao IPCA, a inflação oficial do Banco Central. “São as duas companhias mais beneficiadas”, completou Sousa.

“O ciclo de alta nos juros impacta muito as companhias de capital intensivo, caso das elétricas, que veem suas dívidas ficarem mais caras conforme a Selic sobe, embora o impacto seja diferente em cada sub-setor” disse Christian Lupinacci, trader da Armor Capital e contribuidor do TC. As elétricas com maior endividamento geral no IEE da B3 são Energisa, AES Brasil, Engie, Equatorial e Alupar, segundo dados da Refinitiv.

Cesp é a grande prejudicada, estimam especialistas

O Itaú BBA alterou as premissas da casa para a avaliação das empresas geradoras, aumentando o custo de capital em 1% pela alta dos juros. O banco citou o cenário desafiador da crise hídrica, que deverá gerar pressões sobre as empresas do setor inclusive em 2022. A equipe liderada pelo analista Marcelo Sá, rebaixou os papéis da Cesp para neutro. Além disso, cortou o preço-alvo de R$38,00 para R$24,50, em função da exposição da companhia à energia hidrelétrica. O banco listou como maiores potenciais de alta no setor os papéis da Energisa, Neoenergia, Alupar e Eletrobras, ao passo que os papéis de Taesa e Eneva têm preços atuais acima dos alvos da casa.

Carolina Carneiro, analista do Credit Suisse, destaca em relatório que existe um grande risco potencial para geradoras no cenário de crise hídrica, em especial para a Cesp. Segundo ela, algumas medidas já foram tomadas pelo governo para combate ao esvaziamento dos reservatórios. A Ômega Geração, por outro lado, é mais diversificada, com usinas eólicas e solares. Assim, a companhia pode se beneficiar da alta nos preços de energia.

Sousa, da Genial, elencou Cesp, AES Brasil e Engie como as mais prejudicadas pelo cenário, principalmente a Cesp. A empresa possui apenas hidrelétricas e elevado nível de contratação, o que pode obrigá-la a comprar energia a preços elevados no mercado à vista para cumprir compromissos comerciais. Já a Eneva pode se aproveitar da situação, uma vez que opera usinas termelétricas, acrescentou Sousa. A antiga empresa de Eike Batista possui 9% da capacidade de energia térmica do Brasil, e ainda conta com cerca de um quarto de sua capacidade descontratada, o que abre espaço para vendas energia no mercado à vista por preços altos.

A crise hídrica na lupa

Os primeiros sinais da crise hídrica vieram em dezembro de 2020. No entanto, as preocupações aumentaram principalmente a partir de maio deste ano, quando os governos federal e estadual do Paraná declararam estados de emergência. O agravamento do cenário segurou uma tendência de valorização no Índice de Energia Elétrica, IEE, verificada a partir do início de março, quando o plano de desestatização da Eletrobras teve avanços.

Os analistas do Itaú BBA apontaram para a deterioração nas perspectivas de chuvas e projetaram preços altos de energia para até o fim do próximo ano, devido à piora no déficit energético do país. Já os do Credit Suisse vêem que o ponto-chave para o setor elétrico é a questão hidrológica para 2022. Com a continuidade da seca, a projeção é que o próximo ano terá que contar com 80% do volume médio histórico em chuvas para evitar apagões.

As oportunidades na crise hídrica

Lupinacci, da Armor Capital, ainda vê a crise hídrica abrir oportunidades em outros setores além do elétrico. “A venda descoberta de uma cesta diversificada de ações de empresas que consomem muita energia, aliada à compra de outras que não dependem tanto disso pode ser uma operação interessante” afirmou. “No setor em si, gosto dos cases de Engie, Taesa e Equatorial, o contrário de CESP e CPFL”.

“As companhias do setor elétrico tem mostrado recorrência de crescimento, redução de custos e qualidade na entrega ao cliente” disse Edmundo Assis, trader e membro do TC. Ele vê os impactos da alta dos juros mais concentrados no longo prazo dessas companhias, e beneficiando também as transmissoras em detrimento das distribuidoras, já que a renda fixa impõe competitividade à estratégia de dividendos em companhias do setor, mas menos nas transmissoras, que tem seu retorno garantido em contratos de longo prazo corrigidos pela inflação.

“É um momento difícil para operar o setor com viés de curto prazo no momento, tendo que se realizar pesquisas muito aprofundadas sobre as empresas quanto à sua natureza de atuação, os projetos novos”, pondera Assis. Ele reforça que sua visão é de que setor elétrico é adequado para investimentos de longo prazo, em uma janela de no mínimo cinco anos, prazo para o qual não vê maiores riscos.

Gráficos da Copel Energia sugerem alta, diz analista

O analista técnico Márcio Gomes disse que os gráficos sugerem alta para as units da Copel Energia, com alvo entre R$36,00 e R$38,00. Isto o que representa um potencial de alta entre 6,63% e 12,55% em relação ao fechamento desta sexta-feira em R$33,76. Ele ainda destacou o papel como positivo no longo prazo, em função da expectativa de dividendos de 15% ao ano.

O Índice de Energia Elétrica recua 3,46% no ano, contra queda de 1,75% do Ibovespa. Os papéis da Light têm o pior desempenho, em queda de mais de 41% no período. São seguidos pelos de Omega Geração, Energisa e CESP, em quedas entre 12% e 14%. As ações de Taesa, Equatorial, Cemig e Eletrobras apresentam os melhores desempenhos em 2021.

Texto: Gabriel Brondi
Colaboração: Felipe Corleta e Luciano Costa
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Letícia Matsuura
Arte: Vinícius Martins / Mover


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