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Especial: O que acontece quando a inflação não atinge a meta?

Postado por: TC Mover em 09/09/2021 às 21:02
A meta de inflação será cumprida?

São Paulo, 9 de setembro – O Índice de Preços ao Consumidor Amplo, IPCA, considerado a inflação oficial do país, subiu mais que o esperado em agosto, puxado pelos combustíveis e energia elétrica, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Outros fatores que impulsionaram os preços foram os alimentos, o vestuário e os bens ligados à indústria.

Em meio à alta mensal de 0,87%, o índice acumulou elevação de 9,68% nos últimos 12 meses, bem acima do teto da meta de inflação, estipulado em 5,25%. Mas o que acontece quando a inflação termina o ano acima da meta?

Banco Central diante da meta da inflação

Primeiro é importante entender alguns tópicos. O IPCA acompanha os preços dos principais produtos e serviços consumidos pelas famílias com renda entre um e 40 salários-mínimos. Sendo assim, o IBGE considera nove grupos para compor o índice: alimentos e bebidas, transporte, habitação, artigos de residência, vestuário, saúde e cuidados pessoais, despesas pessoais, educação e comunicação.

A meta da inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional, CMN. Este ano, o alvo é de 3,75%, mas há um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Para 2022, a meta é de 3,50%. O Banco Central não controla totalmente os preços praticados no país, mas pode usar mecanismos indiretos para aquecer ou desestimular o consumo e, consequentemente, cumprir o estipulado. Um deles é a taxa básica de juros, chamada Selic.

Conforme o Banco Central, quando a inflação rompe o intervalo de tolerância, o presidente da autarquia precisa justificar em uma Carta Aberta ao ministro da Economia os motivos para o descumprimento. Deve também informar o que está sendo feito para retornar ao horizonte da meta. Segundo a economista e professora do Insper, Juliana Inhasz, caso ele não dê explicações oficiais, pode responder por crime de responsabilidade.

Qual é a possibilidade de não romper a meta em 2021?

“Neste ano, absolutamente zero”, disse incisivo o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez. “Quando o Banco Central diz que vai fazer o que for necessário para cumprir a meta de inflação, a autoridade já está se referindo a 2022”.

“Hoje, a inflação é alta por fatores que muitas vezes não estão no nosso controle”, afirmou Inhasz ao citar a taxa de câmbio elevada, encarecendo a importação, que faz parte da cadeira produtiva brasileira. Há também o aumento do preço do petróleo, levando ao alto custo do transporte, a crise hídrica, afetando o custo de produção, e as commodities agrícolas, deixando os alimentos mais caros. Para Sanchez, o câmbio não deve subir muito além neste ano, projetando o dólar para R$5,35.

Segundo Inhasz, a exportação também impacta na inflação, porque o consumo local compete com a crescente demanda externa, na esteira da desvalorização do real. Além disso, a professora explicou que a oferta está prejudicada. “Muito produtor brasileiro quebrou durante a pandemia, o que fez com que a produção encolhesse”. E, para completar, há um elemento adicional: o risco político, que deixa os investidores mais cautelosos.

Inflação perto dos dois dígitos

A Ativa Investimentos prevê a inflação em 7,50% no final deste ano. Sanchez vê desaceleração no final do ano. Devido à pandemia, houve mudança no consumo dos brasileiros. “As famílias não puderam consumir serviços de maneira habitual, como viagem, refeição fora de casa”, disse Sanchez. E, então, mudaram o consumo, “substituir eletrodoméstico, adquirir um televisor”, contribuindo para o avanço nos preços de bens, explicou.

Juliana Inhasz considera que a alta dos preços caminhem no final do ano mais perto dos dois dígitos que para o teto da meta. “Muito provavelmente a gente vai ver ainda mais pressões daqui pra frente”, afirmou.

Para 2022, o economista-chefe da Ativa Investimentos acredita que o Banco Central possa cumprir a meta, projetando inflação em 3,50%. “Consequentemente, nós temos que subir bastante o juro para quitar o compromisso”.

E o que os juros têm a ver com a inflação?

Como dito anteriormente, uma das formas de o Banco Central tentar puxar a inflação para dentro da meta é por meio da chamada taxa Selic. Determinada em reunião do Copom, o comitê decisório do Banco Central, a taxa básica de juros pode encarecer ou baratear os empréstimos, desestimulando ou aquecendo o mercado de crédito, afetando o poder de compra e o consumo, que, consequentemente, impacta nos preços aplicados.

Sendo assim, uma taxa Selic mais alta sugere mais dificuldade em conseguir crédito. Nas últimas quatro reuniões decisórias, o Banco Central endureceu o tom, mostrando preocupação com a inflação, e passando a taxa de juros de 2,00% para 5,25% ao ano. Étore Sanchez acredita que até o final do ano suba para 8,50%, patamar que deve ser mantido em 2022.

De acordo com ele, há na ação do Banco Central “uma defasagem de impacto”, levando um tempo para refletir nos preços, sendo um processo. Com o aumento dos juros, os créditos ficam mais caros, os brasileiros repensam o consumo e, então, devido à demanda, os preços caem. “Tem uma transição ao longo da cadeia, e inicia-se ao redor de nove meses, mas vai ter pico de 12 a 18 meses”, disse. Para ele, as decisões do Banco Central feitas recentemente são para controlar as expectativas sobre o ano que vem.

Investidor estrangeiro vê com cautela risco político

“Hoje essa política do Banco Central está muito mais focada em tentar fazer com que o dinheiro não fuja do Brasil do que, na verdade, de conter uma inflação direta do consumidor brasileiro”, apontou Inhasz. Segundo ela, a renda dos brasileiros é baixa, contando com quase 15 milhões de desempregados e recolocação com salários inferiores. “No momento atual, essa política tem sido muito pouco efetiva”, disse, mas ressaltando que a situação econômica brasileira poderia estar pior sem os mecanismos monetários adotados.

A professora do Insper explicou que a alta dos juros, além de sinalização para a população de que não é o melhor momento para o consumo, tenta mostrar ao mercado externo que o Brasil, apesar de arriscado, possui prêmio alto. “Os riscos inerentes à economia brasileira são muito elevados e o investidor entende isso. (…) Existe uma possibilidade de uma crise política maior ainda. (…) O setor externo olha também nossa dificuldade de fazer reformas”.

Investimentos e proteção contra a inflação

Com a alta dos juros na tentativa de controle da inflação, a renda fixa voltou a ter atratividade e retorno. Já iniciada, “a gente vai continuar observando uma migração para a renda fixa, (…) que é o ativo de menor risco da economia e está tendo seu retorno aumentado”, afirmou Sanchez. Enquanto isso, na renda variável há mudança na composição, conforme o economista-chefe. Ao encontro disso, as carteiras recomendadas para setembro de diversos bancos de investimentos e corretoras foram direcionadas a ações “de qualidade”, de olho na volatilidade da bolsa.

“Quem tiver a possibilidade de fazer um investimento para proteger as suas finanças do avanço inflacionário, tem sempre a possibilidade de fazer um investimento em renda fixa”, aconselhou Sanchez.

A professora Juliana Inhasz lembra que o investimento deve ser de acordo com o perfil da pessoa. “É um momento de muita volatilidade. Quem entende do mercado vai perceber que existem sim oportunidades, mas elas precisam ser tratadas com muita cautela, porque caso contrário a gente acaba prejudicando o patrimônio”, alertou.

Como minimizar o impacto da inflação no bolso?

Inhasz e Sanchez aconselharam pesquisar e buscar alternativas mais baratas de consumo. No caso do alimento, exemplifica Sanchez, pode tentar substituir a carne vermelha por outro alimento que também contenha proteína, como frango ou ovo. Inhasz também vê como opção marcas mais baratas.

Ela aponta que a digitalização dos comércios facilitou a pesquisa de preços na pandemia. Também citou os atacados e atacarejos como oportunidades de economia. “Muitos comerciantes lidam com essa realidade de vender em grandes volumes para fazer preços menores. Então, sendo possível, junta com mais duas, três famílias, compra em quantidades maiores, especialmente para alimentação, que pesa no bolso brasileiro”.

A professora do Insper pede atenção especial para as finanças. “Acho importante as pessoas entenderem o que é prioridade neste momento. (…) Porque hoje o pior cenário é o de endividamento”.

Texto: Letícia Matsuura
Edição: Angelo Pavini
Arte: Vinícius Martins / Mover


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