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Especial: Revolta dos Sardinhas coloca reguladores e vendidos contra a parede

Postado por: TC Mover em 05/02/2021 às 13:52
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São Paulo, 5 de fevereiro – Revolta dos Sardinhas, Meme Stocks, Mob Stocks. Seja qual for o nome da onda criada pelo grupo WallStreetBets na rede social Reddit para puxar os preços de ações com fundamentos fracos e colocar investidores com fortes posições a descoberto contra a parede, ela deve levar a uma revisão das normas de alavancagem de corretoras e investidores.

A Revolta dos Sardinhas levou fundos mais agressivos a reduzirem posições e até a desistirem de suas estratégias de posicionamento em ações com futuro dúbio, como a BlockBuster, a Nokia ou a GameStop. O fenômeno, que parece estar perdendo força com a decisão de plataformas e corretoras de limitar a negociação nesses papéis, também deve ampliar a discussão sobre o impacto de posições vendidas em outros ativos.

Fundos hedge tiveram perdas bilionárias

O impacto mais imediato foram as perdas bilionárias de alguns fundos hedge que estavam exageradamente vendidos em ações sem liquidez, e que tiveram de pagar preços muito mais altos para comprar as ações e cobrir posições, trazendo lucros extraordinários para os sardinhas, membros do WallStreetBets. Dessa forma a Citron Research, de Andrew Left, anunciou que iria descontinuar o “short selling” após 20 anos.

A Melvin Capital viu-se forçada a recuar, fechando a posição curta que tinha na GameStop. Os sardinhas alegam que os fundos, ao apostarem na baixa de determinada ação, reduzem seu valor e prejudicam a empresa e seus acionistas.

Short seller é parte fundamental do mercado de capitais, diz gestor

No entanto, Fernando Fontoura, gestor de renda variável da Persevera Investimentos, acredita que o chamado short seller, prática realizada pelos sardinhas, é parte fundamental do mercado de capitais. “Seu fim não faria o mercado mais saudável”, diz. A Enron é o exemplo mais notável da utilidade do “short selling”.

Mais recentemente, os reguladores alemães elogiaram o papel dos “short sellers” na Wirecard, que entrou em insolvência depois de ter sido detectado um buraco de 1,9 bilhão de euro nas contas. Segundo o gestor, a posição vendida tem papel fundamental na definição do preço justo de um ativo quando há um erro de avaliação ou uma situação anormal de mercado que impede os investidores de venderem suas posições.

“O problema não é a posição vendida, mas a alavancagem excessiva, tanto na compra, quanto na venda”, explica Fontoura. Outro impacto são as perdas de muitos investidores que entraram nas bolhas provocadas pelos sardinhas nesses papéis pela necessidade de cobertura desses fundos.

“Somente quem entrou nos primeiros dias saiu ganhando, a maioria comprou as ações quando já tinham subido”, diz Ricardo Campos, da Reach Capital. “Todas as bolhas estouram, e o fato de a Comissão de Valores Mobiliários americana não ter tomado grandes atitudes mostra que já se sabia que os preços têm de voltar para seus fundamentos”.

Novidade com Revolta das Sardinhas foi organização por rede social

A novidade do movimento de “short squeeze” foi ele ter sido montado por rede social, provocando uma bolha bilionária, que pode ainda não ter sido estancada, diz Marcelo Faria, gestor de renda variável da Porto Seguro Investimentos. Ele ressalta também que é preciso cuidado com esses movimentos, lembrando que, em 2007, se estimava que o subprime representava apenas 2% do mercado.

Já no Brasil, o potencial de “short squeezes” como da GameStop é muito pequeno, acredita Fontoura. Há diferenças estruturais que dificultam essa situação, a mais óbvia é que aqui há limite de posições vendidas em relação ao capital listado, da empresa, de 20%. Além disso, um único investidor não pode ter mais de 5% das ações em circulação de uma empresa vendidas, o que já reduz bastante o potencial de um “short squeeze” como visto durante o episódio da Revolta dos Sardinhas.

No caso da GameStop, a posição vendida dos fundos equivalia a 100% dos papéis em circulação. A alavancagem aqui também é muito menor, pois as contas margem, limites dados para os clientes operarem sem recursos, exigem depósitos de garantias muito maiores. “Tanto o fator de o short ser menor pelos limites quando a alavancagem ser limitada reduzem a possibilidade desse tipo de evento”, diz Fontoura.

Sardinhas
Arte: Vinícius Martins/TC Mover

Investidores tentaram realizar “short squeeze” com IRB Brasil

Fontoura cita a tentativa de um grupo de investidores de repetir a ação dos sardinhas aqui com a IRB Brasil, código IRBR3, o “short squeeze”, que fez o papel subir 17,8% em um dia, mas depois passou a cair. “A IRB Brasil não é um papel tão vendido como a GameStop e tem fundamentos muito diferentes”, diz. Mas o movimento prova que a internet tem uma capacidade de articulação que não pode ser desprezada, observou.

Outra dificuldade para um “short squeeze” coordenado é a estrutura do mercado brasileiro, com apenas uma bolsa, enquanto lá fora há várias. “Se a B3 vir alguma formação artificial de preço, ela coloca imediatamente em leilão, que é a forma de venda mais justa”, diz Fontoura.

 

Ele acredita que os movimentos dos sardinhas nos Estados Unidos foram muito restritos em termos de tamanho e intensidade para provocar grandes riscos. Mas surgiu um sinal amarelo quando a plataforma Robinhood foi obrigada a levantar capital rapidamente para atender as exigências da DTC, responsável pela liquidação das operações, a exemplo de muitas outras corretoras, depois de ter limitado as operações pois estava emprestando um valor muito alto para seus clientes.

 

“Muitas pessoas acharam que foi um movimento [limitar operações] contra os pequenos investidores, para defender os grandes, os tubarões, mas foi para equilibrar o risco da própria corretora e do mercado”, diz Fontoura.

Ação dos sardinhas pode gerar mudanças em regras para investidores iniciantes

O gestor acredita também que o resultado dessa onda causada pelos sardinhas será um aumento das exigências de capital dos reguladores sobre corretoras e, por consequência, sobre os investidores. A ampliação de garantias e cortes de limites de crédito podem levar a uma desalavancagem dos grandes fundos hedge nos próximos meses, com impacto nos mercados. Os reguladores podem também mudar algumas regras para evitar que investidores iniciantes acabem perdendo suas economias nessas bolhas, acrescenta Faria, da Porto.

Texto: Angelo Pavini e Barbara Leite

Edição: Guillermo Parra-Bernal e João Pedro Malar
Arte: Vinícius Martins/TC

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