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O que o debate desta terça nos EUA pode mexer com a eleição presidencial?

Postado por: TC Mover em 29/09/2020 às 17:12

No início dos anos 1960, o primeiro debate televisionado entre candidatos à Presidência dos Estados Unidos colocou frente a frente duas das principais lideranças da história política americana.


O candidato democrata John F. Kennedy tirou dois dias de folga na campanha, preparando-se para o debate, deixou a barba crescer para cortá-la na véspera, ajudando a melhorar seu visual.


Já o republicano Richard Nixon machucara o joelho dias antes, pegou uma gripe e saiu no mesmo dia do debate do hospital. E, apesar do aspecto abatido, recusou-se a usar maquiagem. O resultado foi que, apesar de se sair melhor nas respostas, Nixon foi considerado perdedor pelo público, conforme mostraram as pesquisas. Estava aberto o caminho para a vitória de Kennedy.


A história desse primeiro debate mostra a importância desse evento para a eleição americana e como pequenos detalhes podem mudar o jogo político. Declarações infelizes ou a simples aparência do candidato ou sua atitude podem mexer com a opinião dos eleitores. Foi assim, em uma declaração infeliz, que o democrata Jimmy Carter derrotou o republicano Gerald Ford e, depois, foi vencido pelo republicano Ronald Reagan.


É com essa cautela que os mercados internacionais aguardam o primeiro debate da campanha presidencial americana deste ano, marcado para esta noite, às 22h00, horário de Brasília. O estilo belicoso do presidente e candidato à reeleição Donald Trump promete um confronto animado com o democrata Joe Biden, chamado por Trump jocosamente de “Sleepy Joe”, ou “João Mole”. Mas o formato do debate, no qual os candidatos respondem a perguntas do público, pode reduzir um pouco a agressividade.


Reação dos mercados com a eleição presidencial

Uma reeleição de Trump agradaria os mercados, que foram beneficiados por sua política de redução de impostos sobre empresas e pessoas de alta renda e pela redução da regulação de diversos setores. A posição mais liberal de Trump, suas críticas abertas à política de juros do Federal Reserve e sua visão mais cautelosa com os gastos públicos também conta a favor junto aos investidores.


Já a posição do Biden, é vista com maior receio pelos analistas, uma vez que poderia rever algumas das medidas tomadas por Trump, como a redução dos impostos sobre empresas e pessoas. Mais intervencionista, Biden poderia tentar quebrar o monopólio das empresas de tecnologia ou limitar a atuação das empresas de seguro saúde privadas, afirma Thiago Salomão, da corretora XP Investimentos.


O democrata, assim como seu partido, seria mais favorável ainda a aumentar os gastos públicos para sustentar programas sociais, como seus partidários vem defendendo na Câmara dos Representantes, com uma proposta de um novo pacote de ajuda de US$2,2 trilhões. Empresas farmacêuticas e de energias não renováveis estariam mais sujeitas também a aumentos de impostos.


China, o ponto em comum de Trump e Biden

Uma coisa, porém, os dois candidatos devem ter em comum: a posição contra a China. O país asiático é visto tanto por democratas quanto por republicanos como uma ameaça nos campos geopolítico e econômico a ser combatida. Hoje, a China já domina boa parte do comércio mundial e da produção de bens, e avança para o domínio da tecnologia, que ameaçaria a supremacia americana e até a segurança do país. Assim, a tendência é que o clima de tensão continue, com algumas variações de estilo entre Trump e Biden apenas.


Esses desdobramentos vão depender, porém, da composição do Congresso, que também terá eleições agora. Se mantida a maioria republicana no Senado e democrata na Câmara, ambos os candidatos teriam espaço menor para radicalizar em suas propostas. Nesse ponto, a indicação de Trump da juíza conservadora Amy Coney Barret para a Suprema Corte pode influenciar as disputas regionais, aumentando o engajamento dos conservadores na votação pelo Parlamento. Mas a decisão pode também incentivar os democratas a tentarem reverter a indicação elegendo seus candidatos, para evitar uma maioria conservadora na Corte.


O calcanhar de Aquiles de cada candidato no debate

Trump chega ao debate em uma situação mais delicada. Além do desgaste provocado pela pandemia de coronavírus e seu impacto na economia, com a taxa de desemprego subindo de 3% para mais de 8%, o presidente enfrenta críticas à forma como lidou com a doença. Essas críticas aumentaram com o lançamento do livro do jornalista Bob Woodward, no qual Trump admite que menosprezou propositalmente o coronavírus para não alarmar a população.


Trump também está às voltas com acusações de não pagar imposto nos últimos anos, segundo denúncia do The New York Times. O presidente americano se recusou a entregar suas declarações de renda, o que aumenta a credibilidade da notícia. Trump também deverá ser questionado sobre a forma como tratou os protestos contra a violência policial contra negros, defendendo maior repressão e chegando a usar as forças de segurança para desocupar o entorno da Casa Branca para posar defronte a uma igreja com uma bíblia.


Já Biden também foi alvo das denúncias envolvendo seu filho, Hunter, em negócios feitos por uma empresa de gás da qual era representante com o governo da Ucrânia quando o candidato democrata era vice de Barack Obama. O assunto, porém, pode ser evitado por Trump, que foi acusado de pressionar o presidente da Ucrânia para investigar possíveis tentativas de corrupção do filho do oponente. A Câmara dos Representantes chegou a iniciar uma investigação contra o presidente Trump sobre esse caso.


Impactos do debate no mercado

O impacto dos debates pode ocorrer já nos mercados asiáticos, com bancos e analistas dando sua interpretação de quem se saiu melhor e definindo a tendência dos mercados, usando inclusive algumas das pesquisas de opinião feitas durante o evento. Porém, essa interpretação pode mudar ao longo do dia, já que os eleitores vão analisar o desempenho de cada participante e definir uma posição que será captada pelas pesquisas de opinião. Para a Goldman Sachs, o debate pode ser um divisor de águas para os mercados, que vão passar a conhecer melhor as propostas dos candidatos e pesar os riscos de cada um.


Para os analistas da XP, no caso de uma vitória tanto de Biden quanto de Trump com a manutenção do Congresso dividido, os mercados tenderiam a reagir bem, com o S&P500 subindo para 3.550 pontos e o Ibovespa para 115 mil pontos até o fim de 2020. Também haveria pouco impacto no dólar em relação ao real, que ficaria em torno de R$5,20 até o fim do ano.


Já se Biden vencer e ganhar também maioria no Senado, junto com a Câmara, os mercados devem sofrer, com o S&P500 recuando até 2.900 pontos, o Ibovespa, para 90 mil a 93 mil pontos e o dólar tenderia a ficar um pouco mais alto, R$5,36. Mas os efeitos no Brasil seriam compensados pelas medidas de estímulo do Federal Reserve.


A corretora avalia, porém, que a vitória democrata no Senado americano só aconteceria se Biden ganhar a eleição com ampla vantagem, já que há forte correlação entre as votações presidencial e parlamentar nos cenários de disputa mais acirrada.


A XP cita as projeções do site FiveThirtyEight, segundo as quais a probabilidade de Biden ganhar a maioria dos delegados é de 76%, enquanto a de Trump é de 23%. A chance de empate é menor que 1%. A previsão, segundo a corretora, é feita com base em pesquisas de intenção de votos nacionais e nos Estados, além de dados demográficos e históricos de eleições nos Estados.


Texto: Angelo Pavini
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Letícia Matsuura
Arte: Nathália Reiter


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