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Comida faz IPCA de setembro ter a maior alta desde 2003; inflação deve seguir alta

Postado por: TC Mover em 09/10/2020 às 15:51
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, apresentou em setembro alta de 0,64%, a maior para o mês desde 2003, quando subiu 0,78%. A inflação calculada pelo IBGE ficou acima da projeção do mercado, de 0,54%, e bem maior que o 0,24% de agosto.

São Paulo, 9 de outubro de 2020 – O Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, apresentou em setembro alta de 0,64%, a maior para o mês desde 2003, quando subiu 0,78%. A inflação calculada pelo IBGE ficou acima da projeção do mercado, de 0,54%, e bem maior que o 0,24% de agosto. 

No acumulado em 12 meses, a alta de setembro foi de 3,14% ante 2,44% acumulados até agosto. A estimativa do mercado era de um acumulado de 3,03%. No ano, a inflação oficial acumulada até agora é de 1,34%. 

Apesar da aceleração, analistas destacam que a alta recente dos preços está concentrada em alguns produtos apenas, alimentos especialmente. A pressão deve continuar em outubro e dezembro, mas a expectativa é de que a alta da inflação não ameace a política de juros baixos do Banco Central. 

A inflação do IPCA em 12 meses está abaixo da meta de inflação do BC, de 4,0% neste ano, dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo, e as projeções para o ano que vem também estão abaixo da meta de 3,5%. 

Alimentação e bebidas tiveram maior variação no IPCA

O destaque entre as variações no IPCA de setembro está no grupo de Alimentação e bebidas, cuja aceleração foi de 2,28% ante 0,78% do mês imediatamente anterior. O grupo também foi o maior impacto no indicador, de 0,46 ponto percentual. Além dele, outros seis grupos tiveram alta. Os destaques são: Artigos de residência, Transportes e Habitação, que subiram 1,00%, 0,70% e 0,37%, respectivamente.

Quanto às quedas, o destaque ficou para Saúde e cuidados pessoais, que caiu 0,64%, uma queda de 0,09 ponto percentual. As demais quedas ficaram entre o recuo dos grupos de Educação e Comunicação, que caíram 0,09% e 0,15%, respectivamente.

Pressão do dólar e das commodities

A forte alta nos preços de alimentos tem sido influenciada pelas altas sucessivas nos preços internacionais do milho e da soja, destaca a equipe econômica da Genial Investimentos, liderada por José Márcio Camargo. 

O preço do milho na BM&F para liquidação em janeiro de 2021 subiu 36% desde o final de julho. A soja em grão apresenta alta de cerca de 18% no mesmo período. “A alta do dólar e a forte demanda chinesa têm elevado os preços domésticos de maneira significativa nos últimos dois meses”, diz a Genial em relatório. “Esses dois itens acabam elevando o preço dos alimentos industrializados uma vez que servem de insumo para a indústria alimentícia”.

Em setembro, o destaque de alta foi no sub-grupo de Alimentos Semi-elaborados, como cereais, leguminosas e oleaginosas e carnes, que sobem 28,5% nos últimos 12 meses. Os destaques foram a alta mensal em setembro de 18% no preço do arroz e de 27,5% no óleo de soja, que juntos tiveram impacto de 0,16 ponto percentual no IPCA cheio.

Tudo sob controle, por enquanto

Na medida em que o aumento de preços de alimentação não resultar em repasses de preços para outros grupos, como serviços e núcleos, essa alta recente no índice cheio não deve ser motivo de preocupação para o Banco Central, avalia a Genial. 

A política monetária reage a aumentos generalizados, de forma que se a inflação de alimentos resultar em pequeno efeito secundário nos grupos mais correlacionados com atividade econômica, tais como serviços e núcleos, não deve haver reação do BC.

Por enquanto, devido ao alto grau de ociosidade na economia, diz a Genial, o forte aumento de preços de alimentos parece refletir apenas mudança de preços relativos. Portanto, a alta recente no IPCA cheio não implica em mudança na trajetória corrente de política monetária. “Esperamos que a pressão de alimentos se mantenha em outubro, portanto, reavaliamos nossa projeção de IPCA para 2,4% em 2020”, diz a corretora.

Pressão deve continuar

o Itaú acredita que as próximas leituras de curto prazo do IPCA devem seguir pressionadas e projeta variação de 0,63% em outubro, 0,25% em novembro e 0,72% em dezembro. Por conta desses aumentos, o banco revisou a projeção de inflação de 2,5% para 3,0% em 2020, incorporando a aceleração adicional no preço de alimentos até o fim do ano. 

Os indicadores de inflação ao produtor de itens agropecuários não sinalizam alívio relevante, dados os preços de commodities agrícolas em reais ainda pressionados, com destaque para grãos e proteína, diz o banco, que estima um aumento de 15,0% na alimentação no domicílio em 2020.

Também deve haver o impacto de alta das mensalidades escolares, que vinham em queda, em dezembro. Já para o ano que vem, o banco manteve a projeção de IPCA subindo 2,8%. Os riscos para as projeções, segundo o Itaú, é um aumento do déficit fiscal e perda de credibilidade nas políticas fiscais e monetárias, com impacto nas expectativas de inflação. 

Pobre sofre mais com alta dos alimentos e INPC sobe 0,87%

O impacto da alta dos alimentos em setembro foi maior para as famílias de menor renda, como mostra o INPC, que subiu 0,87%, mais que o dobro dos 0,36% de agosto. O INPC tem o mesmo cálculo do IPCA, mas leva em conta o custo de vida de famílias com renta até cinco salários mínimos. Já o IPCA considera famílias com renda até 40 mínimos. Em 12 meses, o INPC acumula alta de 3,89%, também bem acima da do IPCA e dos 2,94% do 12 meses encerrados em agosto. No ano, o INPC sobe 2,04%. 

Prévia do IGP-M e IPC-Fipe também saíram hoje

Além do IPCA, na manhã desta quinta-feira também tivemos acesso aos dados do IPC-Fipe, que calcula a inflação na cidade de São Paulo, e o IGP-M, que é muito usado na correção de valores de aluguéis e que traz forte peso dos preços no atacado. (Entenda como são calculados os índices de inflação)

No Índice de Preços ao Consumidor – Fipe, o dado semanal trouxe uma alta de 1,06%, ligeiramente desacelerado em relação ao último levantamento, onde havia subido 1,07%. O indicador reflete o custo de vida de famílias residentes em São Paulo com renda entre 1 a 10 salários mínimos.

Já a prévia do Índice Geral de Preços – Mercado, calculada do dia 21 ao dia 30 de setembro, subiu 1,97%, desacelerando em relação à alta de 4,41% do primeiro decêndio de setembro. Em 12 meses, o índice subiu 19,45%, puxado pelos preços no atacado.

Poupança cresce, mas perde para a inflação

A rentabilidade dos investimentos também sofre com os impactos da alta da inflação. Segundo nota divulgada pela Economatica, a poupança registra valorização nominal de 2,67% nos 12 meses fechados em setembro deste ano, mas se descontarmos a inflação medida pelo IPCA, a aplicação na verdade está perdendo 0,46% no mesmo período. 

Esse é o chamado ganho real, que calcula o rendimento obtido em um investimento, chamado de ganho nominal, e desconta a inflação do período. Com isso, se o ganho real ficar abaixo da inflação, significa que em vez de ganhar, o investidor está perdendo o poder de compra. Já os investidores que aplicam em títulos corrigidos pela inflação, caso dos papéis Tesouro IPCA vendidos no Tesouro Direto, vão ter uma correção maior de seus valores.

O que é e como funciona o IPCA

O IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo, é considerado o índice oficial de inflação do Brasil porque é usado pelo Banco Central em suas metas. Ele mede a variação de preços para o consumidor final e é calculado pelo IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Sua base é a cesta de consumo de famílias que recebem entre 1 e 40 salários mínimos e moram nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém, além do Distrito Federal e da cidade de Goiânia.

O IBGE faz o cálculo do IPCA todos os meses e o período de coleta de dados acontece entre o primeiro e o último dia de cada mês. A pesquisa é realizada em domicílios, estabelecimentos comerciais, concessionárias de serviços públicos e prestadores de serviços.

Usado pelo Banco Central como o principal termômetro da inflação no país, o IPCA tem impacto direto nas decisões de políticas monetárias e medidas econômicas do Brasil. A Selic, taxa básica de juros, é a principal ferramenta de controle da inflação.

Para calcular o IPCA, são consideradas várias categorias de bens e serviços importantes para o dia a dia da população. A união dessas categorias é chamada de ‘cesta de produtos’ e inclui: alimentação, habitação, vestuário, transporte, saúde, despesas pessoais, educação e comunicação. Cada um dos itens tem um peso distinto no cálculo de acordo com sua importância para as famílias.

Texto: Ana Carolina Amaral

Edição: Angelo Pavini

Arte: Nathália Reiter/TC Mover

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