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Medos da campanha tomam conta do mercado e dólar dispara; bolsa perde 3,6%, no patamar dos 91 mil pontos

Postado por: TC Mover em 27/03/2019 às 17:31

A rápida deterioração do cenário político local trouxe de volta à memória muitos dos temores que o investidor tinha em relação ao então candidato Jair Bolsonaro: que, apesar da equipe qualificada que montou para gerir a economia, ele podia não estar à altura das dificuldades. Que seu estilo irreverente ia bater de frente com os rituais do establishment político. Que, fora da agenda de costumes e do discurso agressivo contra a esquerda, não tinha muito a oferecer quanto a um programa para governar um país complexo como o Brasil. Esses medos estão se cristalizando aos poucos, ora pelo comportamento errático de Bolsonaro na condução da política e das relações com os poderes Legislativo e Judiciário, ora pela incapacidade dos seus assessores mais sensatos de controlar os impulsos do presidente – e os do seu círculo próximo, filhos e direitistas radicais. Os constantes ataques e provocações ao Legislativo deixam uma vítima no caminho: a reforma da Previdência, que cada vez tem menos apoiadores explícitos no Parlamento. A demora para começar a discussão do projeto deixou o investidor nervoso, que apertou sem parar o botão de venda nos ativos brasileiros ao longo da sessão desta quarta-feira.

 

A bolsa chegou a desacelerar perdas à tarde em meio às informações que circularam na comunidade TC de que logo será escolhido o relator na Comissão de Constituição e Justiça para a reforma da Previdência. Durou pouco. Em pronunciamento na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reiterou que não sente “apego ao cargo” e que não ficaria se outros Poderes, incluindo o Executivo, rejeitarem suas propostas para resolver a questão fiscal. “Vocês acham que vou brigar para ficar aqui?”, declarou. Assim, a bolsa teve sua sexta queda em sete pregões, liderada pelas ações das estatais. Sem Previdência, disseram contribuidores TC, não há como reacender o interesse do investidor na renda variável. O índice Bovespa fechou em baixa de 3,57% – maior queda desde 6 de fevereiro – a 91.903 pontos, menor patamar desde meados de janeiro. O dólar futuro tocou seu patamar mais alto ante o real desde a eleição em outubro, cotado a R$3,97, ressuscitando o temor de que o Banco Central tenha de intervir para acalmar os ânimos. A volatilidade implícita do câmbio subiu quase 10% hoje – uma amostra do nervosismo dos agentes. Claro, o ambiente no exterior pouco ajudou para apaziguar as preocupações do investidor na B3, que viu a desconfiança contra os emergentes crescer de novo na esteira dos problemas entre mercado e governo na Turquia. “Ambiente político, combinado com cenário externo mais ruim fez o mercado cair um pouco na real. Agora, se continuar saindo notícia ruim, o dólar pode bater R$4 tranquilamente,” disse Flávio Serrano, economista sênior da Haitong.

 

Os juros futuros, por sua vez, dispararam de novo, subindo em média 15 pontos-base nos prazos mais longos: de novo, sem nenhum sinal de aprovação da Previdência, o prêmio por risco tem que subir – e muito. A aprovação, ontem, da proposta de emenda constitucional para criar o Orçamento impositivo foi só um “beliscão”, disse o analista político Leandro Gabiatti, da Dominium. Parte da reação do mercado é porque a atitude que era vista como transitória – a de não dialogar com o status quo político – se tornou permanente e pouco previsível. “Estamos num jogo de ‘quem piscar perde’, só que nesse caso, a responsabilidade é do Executivo”, afirmou Gabiatti. Em entrevista à TV Bandeirantes, o presidente Jair Bolsonaro disse que “as pessoas fazem tempestade em copo d’água (…) Vou encontrar com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na volta de viagem a Israel”.

 

(Foto: B3/Divulgação)

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