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Sequência “dourada” de ofertas em 2021 depende de juros e ajuste fiscal

Postado por: TC Mover em 09/12/2020 às 17:44

São Paulo, 9 de dezembro – A resiliência que as ofertas de ações mostraram em 2020 vai ser difícil de superar no ano que vem, em parte pelo receio dos investidores quanto à saúde fiscal do país no pós-pandemia do coronavírus e pelo temor de uma correção para cima na taxa de juros.

Para gestores, banqueiros de investimento e analistas, o produto financeiro mais resiliente no Brasil tem sido as ofertas iniciais e subsequentes – em grande parte, por conta da enxurrada de dinheiro vindo das pessoas físicas, que migraram da renda fixa para a renda variável de forma acelerada com a eclosão da pandemia. 

Com a crise emanada da Covid-19, o Banco Central estendeu o ciclo de cortes mais agressivo já visto na taxa básica de juros Selic, criando a sensação entre os brasileiros de que seu dinheiro não estava rendendo na poupança e na renda fixa.

Ofertas iniciais e subsequentes movimentam R$112 bilhões em 2020

No ano, até hoje, são mais de R$112 bilhões movimentados na B3 em ofertas iniciais e subsequentes, apesar do impacto da pandemia do coronavírus, os riscos associados ao caos fiscal e o exterior volátil, mostram dados da B3. 

Em termos de valores movimentados, esse ano superou 2007 em IPOs, como as ofertas iniciais são conhecidas, e só perdeu de 2010 se contabilizadas as iniciais e as subsequentes juntas. Um detalhe: nesse ano aconteceu uma oferta primária subsequente da Petrobras, código PETR4, que ainda é considerada a maior do mundo, o que distorce os dados.

Para o líder de uma das maiores equipes em estruturação de ofertas públicas, “2020 marca uma sequência dourada para IPOs e follow-ons, em termos de qualidade, volume, abrangência e amplitude”. Follow-ons, como são conhecidas as ofertas subsequentes entre os investidores, levantaram mais de R$70 bilhões, enquanto os IPOs captaram R$43 bilhões até hoje. 

“Agora, se me pergunta o que vai acontecer não ano que vem, não sei. O momentum do mercado vai depender muito da volta do estrangeiro, que por sua vez depende na situação fiscal e se haverá normalização nos juros”, disse.

Mercados podem influenciar na demanda de ofertas públicas em 2021

A visão predominante entre gestores, membros da comunidade TC e banqueiros é de que as ofertas serão muito mais dependentes do humor dos mercados do que neste ano, quando a pandemia e os remédios de política implementados para mitigar seus efeitos geraram uma enxurrada de liquidez global sem precedentes, disse Alvaro Bandeira, economista-chefe do banco Modalmais. 

Para ele, a demanda por papéis novos ou por mais ações de empresas já listadas vai ser seletiva, cautelosa com o cenário financeiro no exterior, temerosa dos sinais dúbios da política e da condução do orçamento no Brasil e do comportamento do Congresso quanto à votação de pautas de ajuste fiscal e reformas. 

Para Bruno Madruga, sócio da Monte Bravo Investimentos, uma Selic levemente mais alta pode até ajudar a trazer investidores internacionais de volta e afastar riscos de uma aceleração na inflação.

Cancelamentos de IPOs vieram com incertezas e fraqueza do mercado

Mesmo com um número elevado de IPOs concluídos, 26 no total, houve também um montante considerável de ofertas adiadas ou canceladas ao longo do ano, coincidindo com momentos de fraqueza do mercado ou momentos de incerteza criados mais por ruídos locais do que globais, disseram banqueiros. 

Para um deles, as principais candidatas a realizar ofertas são aquelas companhias que não puderam concretizá-los neste ano, especialmente entre o segundo e terceiro trimestre do próximo ano. Desde 2002, os IPOs no Brasil apresentaram em média um ganho de 13% em dólares durante os dois primeiros anos após a listagem, segundo relatório do banco Morgan Stanley.

Com a menor presença dos estrangeiros, tradicionalmente os maiores compradores de novas ações no mercado brasileiro, os investidores locais, sejam institucionais ou de varejo, tem ido à busca desses retornos. 

Fundos locais e pessoas físicas têm representado, na média, 56% das ordens firmes nas ofertas neste ano, comparado com 42% em 2018 e 29% dez anos atrás, de acordo com dados da B3. A participação dos investidores locais no IPO da Rede D’Or São Luiz, código RDOR3, o maior do ano e o terceiro maior da história, que concluiu ontem, foi significativa e bem acima do esperado, disseram fontes com conhecimento direto do assunto.

Empresas visam captação de capital no primeiro trimestre

Algumas empresas querem aproveitar que 2020 está finalizando em bom tom e acelerar os planos de captação para o primeiro trimestre. A janela seguinte, que finaliza em fevereiro, pode ter Iguá Saneamento, código IGSN3, a unidade de mineração da CSN, código CSNA3, e a Dasa/Ímpar, código DASA3, um dos maiores grupos hospitalares do país, disseram banqueiros. 

Em uma segunda etapa, as incorporadoras Kallas, Nortis, Construtora Inter e Patrimar poderiam procurar listar seus negócios, assim como as varejistas Havan, Le Biscuit e o ecossistema de startups Mosaico Ventures. 

“As empresas estão precisando se recuperar e precisam de dinheiro”, diz Bandeira, “Como as empresas podem deixar os IPO e follow-ons nas prateleiras, estão esperando o melhor momento para sair em 2021”, aponta.

Junto com tudo isso, as ofertas subsequentes também podem incluir o plano da Petrobras de se desfazer de uma fatia de R$9 bilhões em ações da BR Distribuidora, código BRDT3, e de uma fatia de quase 37% na Braskem, código BRKM5

A Caixa Econômica, por exemplo, também pretende fazer um IPO da Caixa Seguridade, e o BNDES pode fazer novas vendas em bloco de suas posições em Petrobras, Suzano, código SUZB3, Klabin, código KLBN11, e JBS, código JBSS3, por exemplo, disse um banqueiro de investimento. No entanto, o perfil das ofertas pode mudar. Passado o momento de retomada do mercado, é normal que empresas menores busquem avançar na fila, disse.

Controle dos gastos públicos podem alavancar confiança em ofertas

O sucesso dessas transações, de acordo com Madruga, da Monte Bravo, vai depender do movimento de alta da Selic e a sinalização antecipada que o Banco Central fará. “Mesmo que suba um pouco, para 2,50% a 3,50%, o Brasil ainda ficaria com a menor taxa básica em comparação aos seus pares. Isso atrai mais risco e traz mais pessoa física ao mercado porque acabou o rentismo”, disse. 

As indicações de que o governo normalizará os gastos públicos no pós-pandemia e não se curvará as demandas da sociedade por transformar as despesas temporárias para combater a pandemia em permanentes, “será fundamental para alavancar a confiança no mercado de capitais local” e, subsequentemente, nas ofertas, disse um banqueiro. 

Texto: Guillermo Parra-Bernal e Leandro Tavares
Edição: Gustavo Boldrini e Letícia Matsuura
Imagem: TC Mover

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