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Vovó do front running; caso levou ex-executivo do Credit Suisse a pagar multa de R$500 mil

Postado por: TC Mover em 23/09/2020 às 16:17
Uma vovó começando a investir no mercado aos 92 anos e já se dando bem no day trade, ganhando quase meio milhão de reais em menos de um ano, com uma taxa de sucesso de mais de 70%. Impressionante, não?

Uma vovó começando a investir no mercado aos 92 anos e já se dando bem no day trade, ganhando quase meio milhão de reais em menos de um ano, com uma taxa de sucesso de mais de 70%. Impressionante, não?

Mas o que seria um exemplo de talento da terceira idade mostrou-se uma situação bem mais peculiar e acabou com a condenação de um executivo de mercado a pagar R$500 mil de multa para a Comissão de Valores Mobiliários. O caso julgado ontem teve ainda outro executivo e uma gestora multados em R$250 mil cada.

Segundo a CVM, a senhora era a avó de Luiz Mori, um ex-executivo do Credit Suisse nos Estados Unidos, que, no período compreendido entre junho de 2012 e abril de 2014, teria comandado um esquema de front running, que se valia de informações sobre vultosas ordens de compra prestes a serem realizadas por clientes do banco suíço, às quais ele tinha acesso direto, e por clientes da Deutsche, sobre as quais era alertado por outro executivo do banco alemão. Uma vez de posse da informação, segundo a CVM, Luiz Mori, por meio de contas abertas em nome de terceiros, entre eles a própria avó, adquiria as ações no mercado antes do movimento do grande player por um preço mais baixo.

Como funcionava o esquema de front running

Quando a pressão compradora ocasionava uma alta no preço, Luiz Mori alienava a ação, completando a operação de day trade com lucro. Posteriormente, a maior parte dos recursos cuja destinação pôde ser identificada pela CVM era transferida das contas da idosa para contas de Luiz Mori ou utilizados para quitar despesas suas, com montantes menores sendo repassados para familiares seus e para colaboradores no esquema.

Segundo informado pela acusação da CVM, a avó de Mori, identificada no processo apenas pelas iniciais M.H., realizou no mercado à vista de ações operações de day trade com compras e vendas de ativos nos volumes totais de R$105.070.110,00 e R$105.520.851,00, respectivamente, resultando em lucro de R$450.741,00. Para demonstrar que as operações analisadas consubstanciavam front running, a CVM destacou, em primeiro lugar, o elevado índice de acertos da investidora M.H., que teve lucro em: (i) 311 das 432 operações, representando um índice de acerto de 71,99%; (ii) 81,16% dos dias em que operou; e (iii) em 92 dos 118 ativos negociados (77,97%).

Ganhos atípicos chamaram a atenção

Outra atipicidade apontada pela acusação da CVM foi a obtenção por M.H. de maior lucro médio em suas transações com ativos de menor liquidez do que os ativos que compunham, à época, o índice Bovespa, o que, ao ver da acusação, seria mais um indicativo de front running, pois as grandes ordens tenderiam a ter um impacto mais relevante nos ativos menos líquidos, ao passo que a estratégia de day trade geralmente é implementada com ativos líquidos, na medida em que é fundamental que o investidor consiga entrar e sair do mercado nos momentos adequados.

A CVM identificou também que as operações de M.H. eram feitas na corretora XP de um computador em Nova Iorque, onde Mori residia, e eram realizadas no horário em que ele não estava trabalhando no Credit Suisse. Outros negócios foram feitos depois em nome de Rafael Spinardi, também multado pela CVM em R$250 mil, e pela empresa Catarsis.

Segundo a CVM, quando as operações de day trade deixaram de ser feitas por meio das contas de M.H., parte dos recursos obtidos foi transferida para a conta de Rafael Spinardi, que passou a realizar operações com características de execução e resultados muito semelhantes aos de M.H..

O padrão foi mantido depois, quando as operações de day trade passaram a ocorrer em nome da Catarsis, empresa de responsabilidade limitada cujas quotas eram detidas por Rafael Spinardi. Outro executivo, funcionário do Deutsche Bank, foi inocentado pois não ficou provado que ele teria entrado em contato com Mori como alegou a acusação da CVM.

Spinardi e Mori negaram as acusações. E atribuíram a responsabilidade dos negócios feitos por M.H. um ao outro. No fim, porém, a CVM acabou por condenar Mori e Spinardi e a Catarsis. Eles ainda poderão recorrer ao Conselho de Recursos do Sistema Financeiro.

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