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A festa das compras dos gringos na B3 acabou - e agora?: Coluna

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A festa das compras dos gringos na B3 acabou - e agora?: Coluna

Desde o início do mês de abril, o gringo já acumula vendas líquidas de R$7,7 bilhões na bolsa de valores de São Paulo, a B3

A festa das compras dos gringos na B3 acabou - e agora?: Coluna
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Atualizado há 18 dias

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São Paulo, 3 de maio – Você se lembra daquela bonança de dólares do primeiro trimestre, que levou o câmbio para abaixo dos R$4,60 e o Ibovespa acima dos 120 mil pontos? Apesar da taxa básica Selic se encontrar no seu maior patamar em cinco anos e das commodities ainda negociarem perto da estratosfera, a festa dos estrangeiros na B3 parece ter chegado ao fim.

Segundo a B3, entre janeiro e março os investidores não-residentes, carinhosamente conhecidos no nosso mercado como “gringos”, aplicaram R$65,3 bilhões líquidas em ações no Brasil, um recorde histórico trimestral. Desde o início de abril, mês que lembraremos como o pior desde a eclosão da pandemia do coronavírus, pouco mais de dois anos atrás, o gringo já acumula vendas líquidas de R$7,7 bilhões na bolsa paulista.

No mês passado, o Vanguard Total World Stock Index, fundo de índice que tenta replicar todos os mercados acionários do mundo, perdeu 8,10% – segunda maior queda mensal desde a crise financeira de 2008. Já o dólar futuro disparou 6%, sugerindo que quase todo mundo no Brasil saiu à procura da proteção oferecida pela moeda americana.

Entre janeiro e março, em 62 pregões, o estrangeiro fechou com saldo comprador positivo em 57. Desde a virada do trimestre, são 14 dias de gringo vendedor em 19 pregões.

Em outras palavras, o fluxo secou. Agora, por que você deveria se importar?

Porque, sem o capital dos estrangeiros, é provável que a crise de liquidez com a qual as ações de menor capitalização sofreram até aqui no ano, se estenda para virtualmente todos os ativos negociados na B3. Expliquei isso em uma coluna publicada em 14 de abril. Meu questionamento principal na ocasião era se os fundos locais, sofrendo com a pior onda de resgates em oito anos, ou se as pessoas físicas teriam estômago ou espaço no caixa para entrar na compra desses papéis de menor capitalização.

Se isso já parecia difícil, imagine se seriam capazes de, adicionalmente, compensar a saída dos gringos.

Em abril, a resposta foi clara: desde o começo do mês passado até ontem, o Ibovespa cedeu 12%. De 92 ações que compõem o índice, apenas 10 sobem no período e 20 delas caem mais de 20%. O VXEWZ, índice de volatilidade das ações brasileiras negociadas em Nova Iorque disparou 50%. O Índice de Consumo da B3 cedeu 16% e o Financeiro, 14%.

Na verdade, e vamos ser sinceros aqui, fica o gosto de que o gringo estava em modo oportunista lá no primeiro trimestre: ou seja, fez a festa e comprou ações porque as avaliações estavam muito baratas e as commodities subindo. Agora, a coisa azedou de vez – o gringo não quer nem saber do Brasil, porque o caos no mundo lá fora piorou substancialmente.

Mesmo que a taxa Selic alta continue oferecendo um retorno real atrativo em comparação com outros países, ela deve parar de subir em breve. Ou seja, o diferencial de juros com, por exemplo, os Treasuries americanos, deve parar de aumentar. O Federal Reserve deve acelerar as altas na taxa-alvo Fed Funds para um ritmo de 0,50 ponto percentual a partir desta quarta-feira. Esse ritmo deve se manter, pelo menos, nas duas próximas reuniões em junho e julho.

Mesmo que estejam em preços elevados, beneficiando a balança comercial brasileira e atraindo fluxo para os ativos locais, as commodities pararam de subir. A desaceleração econômica na China decorrente do mais recente surto de coronavírus parece ser o principal motivo de curto prazo, mas a alta nos juros americanos também esfria as expectativas futuras de demanda por mercadorias.

Esta semana, os bancos centrais de três economias desenvolvidas devem elevar os juros: a Austrália, os Estados Unidos e a Inglaterra. O BC do Brasil já está no fim do seu ciclo de aperto: com a Selic no patamar atual, o custo de capital para as empresas no Brasil ficou asfixiante.

Com tudo isso acontecendo, e a eleição presidencial mais polarizada dos últimos 20 anos cada vez mais próxima, por que o gringo continuaria a dançar o samba abraçado ao Ibovespa?

Se você está posicionado em ações brasileiras e não pretende sofrer nos próximos dias, ou semanas, aperte os cintos, compre proteção e acompanhe os dados de fluxo diariamente disponibilizados pela B3. O fluxo acabou.

Toda festa tem seu fim, e este ano até a Páscoa já passou e ninguém vai reviver os mortos.

DISCLAIMER: Felipe Corleta é colunista e editor da Mover. As opiniões dele não necessariamente refletem a posição da Mover

Texto: Felipe Corleta
Edição: Guillermo Parra-Bernal
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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