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‘Atrás da Curva’ na luta contra a inflação: Coluna

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‘Atrás da Curva’ na luta contra a inflação: Coluna

Especialistas têm dito que banco centrais pelo mundo cochilaram na luta contra a inflação; contudo, toda história tem dois lados

‘Atrás da Curva’ na luta contra a inflação: Coluna
guillermo-parra-bernal

Atualizado há 16 dias

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São Paulo, 9 de maio – O termo “atrás da curva” está na moda. Caso não acredite, faça uma busca no Google com as palavras “Federal Reserve atrás da curva” ou “bancos centrais atrás da curva”. Você também pode tentar a frase “Fed behind the curve”. Os resultados são bem peculiares, não somente pelo consenso entre especialistas de que os bancos centrais estão muito atrasados – leia-se: estão “atrás da curva” – na luta contra a inflação, mas, também, pela variedade de argumentos apresentados.

No geral, a queixa é que os BCs demoraram demais para elevar os juros e reduzir a liquidez imperante nos mercados quando a onda inflacionária global mais agressiva em décadas piorou. Agora, apontam esses especialistas, o remédio dos juros altos vai ser muito mais amargo, pois tem o potencial de jogar a economia mundial em recessão.

Resumidamente, o que esses especialistas apontam, em geral, é que é hora de rasgar as roupas e ranger os dentes – tudo por culpa dos paquidérmicos BCs.

Lembremos que, quando estourou a crise da Covid-19, recaiu nos mesmos bancos centrais a culpa pela suposta demora em socorrer famílias e empresas, fornecer liquidez emergencial ao sistema financeiro ou tentar evitar o inevitável.

Que banqueiro central no mundo imaginaria que a eclosão de uma infecção respiratória grave supostamente originada em uma praça de comidas exóticas no centro da China derrubaria a economia mundial e desataria uma reorganização das cadeias industriais e logísticas globais?

Esse é meu ponto: há limites na capacidade dos BCs de agir no mundo real. Seus membros são depositários convenientes de culpas e narrativas espúrias.

Vamos para a nossa busca. Um artigo do site www.centralbanking.com destaca os comentários de um professor emérito do London School of Economics, Charles Goodhart, culpando os BCs de não projetarem de maneira correta as estimativas de inflação para este ano e de julgarem que as expectativas inflacionárias para os anos subsequentes estavam bem ancoradas.

Os resultados seguintes incluem notas das agências Bloomberg News e Reuters News, uma análise do The Financial Times, notas de bancos e de casas de research independentes – todas, de uma forma ou de outra, determinam que o Fed, o Banco Central Europeu, o Banco do Japão, o Banco da Inglaterra, o Banco Central do Povo da China e até o Banco Central do Brasil cochilaram na luta contra a inflação.

Contudo, toda história tem dois lados.

O presidente do Fed, Jerome Powell, frequentemente gosta de explicar o racional e a atuação do banco central americano. Ele costuma dizer que o Fed “depende de dados”, o que significa que a política monetária nunca entra em um curso predefinido e, muito pelo contrário, tende a mudar em resposta a dados e informações recebidas, colhidas e analisadas.

O recado é claro. Podemos também deduzir que, geralmente, errar nos prognósticos deveria ser visto como parte do jogo, especialmente em uma conjuntura tão volátil como a atual – com guerra na Ucrânia, pandemia do coronavírus, geopolítica complexa, gargalos de oferta e mercado de trabalho muito apertado.

Por outro lado, acredito que a orientação futura dos BCs possibilitou que as taxas de juros do mercado aumentassem substancialmente antes da primeira alta de juros do Fed, em março. O mesmo ocorreu em outros lugares onde ela foi usada – inclusive por aqui.

Se o trabalho de projetar a inflação não foi exato, a orientação da política monetária, em teoria, ajudou o investidor a se preparar para o momento atual. Repito: isso se aplica para o caso dos Estados Unidos – e para o caso do Brasil.

Desde que Powell e outros diretores do Fed começaram a ponderar uma política monetária mais restritiva, lá desde o ano passado, os aumentos de juros nos EUA começaram a ser precificados na curva de rendimentos da dívida pública americana.

“Visto dessa maneira, quão atrás da curva poderíamos estar se, usando a orientação futura, visualizamos os aumentos das taxas efetivamente a partir de setembro passado?”, disse o diretor do Fed, Christopher Waller, em discurso na sexta-feira em um seminário na Universidade de Stanford.

Sabe o nome do seminário em que Waller e outro de seus colegas, James Bullard, participaram? “Como a Política Monetária Ficou Atrás da Curva e Como Trazê-la de Volta”. Incrível.

Se os BCs, proeminentemente o Fed, tivessem feito um trabalho porco na execução de suas políticas monetárias, a diferença entre os rendimentos reais e nominais dos títulos públicos com vencimentos mais longos teria crescido bastante. No entanto, nada até agora mostra que a inflação esperada, medida pelo chamado breakeven, está acima das médias históricas nesses títulos.

Dessa forma, o salto recente nos breakevens pode não necessariamente ser o resultado de uma piora nas expectativas inflacionárias, e, sim, a consequência de uma leitura errada das ações dos BCs por parte de alguns participantes de mercado.

O motivo para a agressividade adicional do Fed, dos BCs brasileiro e chileno e do Banco da Inglaterra em dias recentes é, possivelmente, o temor de uma piora mais persistente no curto e médio prazo – e não de perspectivas péssimas, demoradas e mais teimosas no longo prazo.

Qual o risco disso? Que uma recessão bem séria aconteça.

Se o Fed e outros BCs ignorarem os sinais do mercado de dívida e elevarem os juros rapidamente para níveis inéditos, o mais provável é que ocorra uma recessão bem grave. Se aprendemos algo com a Crise Financeira de 2008, que precedeu à Grande Recessão, é que erros relacionados à velocidade para aumentar os juros são fáceis de serem reparados.

Texto: Guillermo Parra-Bernal
Edição: Gabriela Guedes
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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