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Como a lógica perversa de Biden dá sobrevida à guerra de Putin: Coluna

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Como a lógica perversa de Biden dá sobrevida à guerra de Putin: Coluna

"O repúdio à guerra na Ucrânia não devia estar diretamente ligado a uma defesa da democracia, por mais contraintuitivo que possa parecer"

Como a lógica perversa de Biden dá sobrevida à guerra de Putin: Coluna
guillermo-parra-bernal

Atualizado há cerca de 1 mês

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Bogotá, 11 de abril –  Um avatar de nome A L E S S I O, provavelmente de origem italiana, ilustrou magistralmente no Twitter alguns dos absurdos da guerra que a Rússia declarou à Ucrânia – e a desconexão dos líderes ocidentais com seus efeitos.

“Sem o gás da Rússia, 570 mil italianos perderão seus empregos, disse o governo. ‘Você quer seu ar-condicionado no verão ou a democracia na Ucrânia?’, disse o primeiro-ministro Mario Draghi. Como nós italianos gostamos de dizer, ‘pimenta no olho dos outros é refresco’”, em uma tradução livre.

O tuíte reflete bem o sentimento popular em relação às promessas e os discursos dos líderes ocidentais aos povos potencialmente afetados ou diretamente ameaçados pela fúria russa. Uma coisa é um sistema chamado democracia; outra é livre determinação.

Nos grupos de discussão sobre mercados globais e geopolítica dos quais participo, faço questão de condenar a invasão russa. Ao mesmo tempo, também faço questão de concordar com meus oponentes que a posição dos Estados Unidos de pintar a guerra na Ucrânia como uma batalha entre democracia e autocracia é errática e, no mínimo, irresponsável.

Repito: o repúdio à guerra na Ucrânia não devia estar diretamente ligado a uma defesa da democracia, por mais contraintuitivo que isso possa parecer.

Quando o presidente americano Joe Biden defendeu essa posição pela primeira vez, lá em fevereiro, lembrei que o experimento ucraniano com a democracia não foi o mais bem-sucedido, em grande parte, pelas promessas não cumpridas dos EUA e da Europa Ocidental e, também, pela corrupção dos governos que administraram o país desde a queda da União Soviética, no começo dos anos 1990.

Também pensei que essa visão ainda refletia o pensamento antiquado do Departamento de Estado americano, de que as pessoas em países pobres desejam, mais do que liberdades pessoais, estabilidade institucional e eficiência, o direito de escolher seus governantes a cada quatro ou cinco anos.

Nada mais ingênuo. Nem o iconoclasta Donald Trump – que todo mundo achou que destruiria a tradição diplomática americana – conseguiu pôr fim à múmia ideológica que se alastra desde a “Aliança Para o Progresso” do democrata John F. Kennedy.

Essa visão bidimensional americana do mundo faz um dano imensurável aos mercados financeiros, porque enfraquece o consenso global contra agressores puros como o presidente russo Vladimir Putin, e perpetua ruídos e temores entre investidores e empresas. E pode desacreditar, no longo prazo, a campanha dos EUA contra eventuais desmandos do presidente Xi Jinping na China.

Ou seja, Biden e seus aliados deviam explicar que a luta na Ucrânia é pelo direito dos povos do mundo de determinar seu próprio destino e estarem livres da agressão nua – e não para impor um sistema que não entendem ou não desejam.

Biden já pediu pelo menos uma vez mudança de regime na Rússia desde a guerra. Pode isso?

No mundo, há mais estados disfuncionais e autocracias, assim como nações pobres, do que democracias e países ricos. Muitas dessas nações dominam vastas quantidades de recursos naturais ou possuem algum valor econômico estratégico.

Dito isso, autocracia e ditadura podem não ser situações ótimas na escolha social, mas elas podem albergar cinquenta tons de cinza, dos bons aos ruins.

Putin é diferente dos autocratas que transformaram Cingapura em uma potência tecnológica e financeira, ou dos monarcas cultos da Jordânia. O mundo tem hoje menos ditadores sangrentos como Idi Amin ou Nicolae Ceaușescu, cujos regimes assassinaram milhares de pessoas na Uganda e na Romênia, respectivamente.

Estou de visita a Bogotá, na Colômbia. Em poucas semanas, o país terá de eleger seu próximo presidente entre um radical esquerdista e um líder conservador. No geral, meus interlocutores não se importariam com o ganhador, na medida que ele fortalecesse as instituições.

Os colombianos almejam um presidente assessorado por gente competente e que seja justo. Nenhum deles parece relacionar a democracia com esses valores. No entanto, aquele papo da democracia só ganha peso quando o passado do candidato de esquerda – um ex-guerrilheiro que tolera o confronto institucional – é abordado.

Isso reforça meu argumento inicial: para mim, a estratégia de Biden dá sobrevida à guerra de Putin ao renunciar ao pragmatismo, em vez de tentar convencer o mundo de que a agressão desmedida de uma potência nuclear como a Rússia não pode ser tolerada. Ah! E sem pedir mudança de regime no país agressor…

Pelo bem da estabilidade geopolítica e dos mercados, os EUA e seus aliados deveriam entender que a luta pela democracia não devia ser o elemento principal de suas políticas externas.

A heterogeneidade do mundo pós-Covid, a multipolaridade que China e Rússia estão abrindo e o fracasso de muitos experimentos democráticos instigados pelos EUA nas décadas passadas, como o ucraniano, limitam a chance de sucesso do discurso de Biden e debilitam o apoio global às sanções contra a Rússia e – eventualmente, contra uma invasão de Taiwan por parte da China.

DISCLAIMER: Guillermo Parra-Bernal é colunista e membro do Conselho Editorial da Mover. Sua coluna não necessariamente reflete a posição da Mover

Texto: Guillermo Parra-Bernal
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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