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Lua de fel no Chile após as eleições: Coluna

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Lua de fel no Chile após as eleições: Coluna

O fim rápido do encanto com o recém-eleito presidente do Chile acende alertas para as eleições na Colômbia e no Brasil, em outubro

Lua de fel no Chile após as eleições: Coluna
guillermo-parra-bernal

Atualizado há 14 dias

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São Paulo, 6 de maio – Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça: a história de amor entre o eleitorado do Chile e o presidente esquerdista Gabriel Boric durou pouco menos de 60 dias.

O alerta é para quem acha que a esquerda barulhenta tem tudo para vencer as eleições presidenciais na Colômbia e no Brasil neste ano e governar facilmente e sem problemas esses dois países pelos próximos quatro anos.

No caso do Chile, errou feio quem apostava que o idílio que se consumaria entre o professor idealista de 36 anos e o coletivo cansado da narrativa neoliberal seria um divisor de águas para o mundo pós-pandêmico.

Infelizmente, para esses incautos, o que parecia uma doce lua de mel está se transformando rapidamente em uma dantesca lua de fel.

Antes de poder tirar o véu ou despir o salto branco, Boric viu a aprovação de seu governo nas pesquisas cair rapidamente. De acordo com os dados do Instituto Cadem, divulgada nesta semana, seis em cada dez chilenos acreditam que o país está indo ladeira abaixo. Mais da metade, exatamente 54%, desaprovam o trabalho de Boric como primeiro mandatário – recorde para um neófito.

O colapso nas pesquisas chega exatamente no momento em que a disparada nos preços dos alimentos e dos combustíveis puxa a inflação anual no Chile para o maior nível em 14 anos.

Somado a isso, a desaceleração econômica e o intenso debate sobre as mudanças na Constituição deixaram exposta a falta de experiência política de Boric e sua equipe. É claro que o presidente do Chile, cuja liderança disparou durante os protestos que dois anos atrás deram forma à reforma constitucional que hoje domina a cena política chilena, não conta com o apoio necessário nem para cumprir suas mais básicas promessas de campanha.

Segundo empresários e parlamentares chilenos que falaram comigo nesses dias, o que mais irritou a população foi o tom das mensagens do governo à medida que a crise atingiu o Chile. As constantes gafes, as inverdades e a bagunça na coordenação e na comunicação evidenciaram a carência de uma estratégia de gestão de crise na equipe de Boric.

Isso é um alerta para os apoiadores do candidato radical de esquerda Gustavo Petro, que hoje lidera as pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial colombiana, a ser realizada em 29 de maio.

Petro é um ex-guerrilheiro e ex-senador cuja plataforma de poder consiste em desmontar o estado liberal colombiano, acabar parcialmente com a exploração de óleo e gás – principal fonte das receitas fiscais do país – e desestimular o empreendedorismo tecnológico – que ele vê como simples rentismo.

Seus partidários, como os seguidores de Boric na campanha do Chile, acham suas propostas uma maravilha – sem sequer se perguntar se são viáveis. O problema é que, no caso de Petro, seu programa seria facilmente desmontado na Corte Constitucional por vícios de forma e conteúdo; pior ainda, a maioria de suas iniciativas não passariam no Congresso Nacional. Quando é questionado sobre isso, sua normal grosseria vira agressividade.

Enquanto isso, no Brasil, as pesquisas mostram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderando as intenções de votos na eleição, em parte por evitar até agora o confronto e o messianismo. Mas, desde o mês passado, Lula destoou dessa imagem na qual projetou mensagem de pacificação e de diálogo com opositores – e decidiu causar.

Além de provocar os militares – um setor ainda resistente ao seu nome e possível vitória em outubro, – ele defendeu o aborto como questão de saúde pública, dando destaque a um assunto da chamada pauta de costumes do seu principal rival, o presidente Jair Bolsonaro. Tiro no pé.

Depois chegou a sugerir que cidadãos pressionassem parlamentares e suas famílias em suas casas para votações-chave no Congresso. A sugestão foi vista como uma forma aberta de assédio.

A virada de tom deixou o eleitorado, o mercado financeiro e o empresariado brasileiros ainda mais apreensivos quanto ao Lula que vai concorrer – se pragmático ou ardiloso.

As falas não foram boas para quem irá precisar de aliados na tentativa de superar complexas negociações para aliviar regras de arrocho fiscal, aumentar os pacotes de ajuda social ou impedir a venda das estatais.

Como Boric no Chile, vitórias de Petro na Colômbia e Lula no Brasil viriam acompanhadas de mandatos claros para reduzir a desigualdade social e econômica e mudar a dinâmica do jogo político nesses países. No entanto, seriam os eleitores de classe média que ditariam o grau de paciência com os presidentes-eleitos.

A classe média que ajudou a eleger Boric no Chile se arrependeu rapidamente da sua escolha. Dá para ver porquê. No Brasil, algo similar tinha acontecido com parte do eleitorado de Bolsonaro durante a crise da pandemia do coronavírus. No Peru, é possível que o presidente Pedro Castillo, que assumiu o poder no ano passado, seja derrubado ao longo dos próximos meses: há um cansaço generalizado com seu discurso, soluções e políticas populistas.

Não duvido que aconteça algo similar com Petro caso ganhe na Colômbia. Já com Lula, a coisa é diferente: ele conhece o jogo político e já foi presidente duas vezes. Mas isso não o protege dos seus próprios equívocos nem dos seus cálculos errados.

A história de Boric é a crônica de um suicídio político anunciado: aventuras políticas baseadas no berro raramente dão certo na América Latina.

Boric ainda tem chances de evitar um divórcio com o eleitorado chileno: afastar-se das cortinas de fumaça e do populismo, corrigir o rumo e governar de forma eficiente, sem ideologias. Não mudar o rumo será uma tragédia para o Chile e para uma região em meio a um ciclo eleitoral muito complexo e com tendências autodestrutivas seculares.

Texto: Guillermo Parra-Bernal
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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