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nicolas-meireles-nogueira

Atualizado há 9 meses

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São Paulo, 19 de abril – A Turquia baniu o uso do Bitcoin e de outras criptomoedas para pagamentos em 16 de abril, sob a justificativa de proteger a segurança financeira dos seus cidadãos.

Porém, fica difícil acreditar na narrativa oficial do governo sobre o banimento: na realidade, a Turquia está tentando forçar o uso da lira pela população, que está, por sua vez, com dificuldade em lidar com a inflação crescente e a desvalorização dessa moeda.

 

O que está acontecendo na Turquia?

Nas décadas passadas, a Turquia era conhecida como um exemplo na intermediação e na diplomacia das questões que atingem as nações vizinhas. O país fica na divisa entre a Europa e o Oriente Médio, além de compartilhar o Mar Mediterrâneo com o norte da África.

A economia turca, assim como acontece com os demais países em desenvolvimento, experimentou oscilações significativas nas últimas décadas. Desde 1961, o país teve dez anos em que o seu Produto Interno Bruto, ou PIB, cresceu mais do que 8%. Entretanto, em outras sete oportunidades, o PIB ficou negativo, incluindo o ano passado, de acordo com dados do Banco Mundial.

Apesar disso, a reputação de ser um país conciliador começou a mudar em 2010, após os eventos conhecidos como a “Primavera Árabe”. Nela, uma onda de protestos culminou na derrubada dos líderes da Tunísia, da Líbia e do Egito. As marcas dessa crise humanitária e política são vistas até hoje, com o crescimento do grupo extremista Estado Islâmico e da guerra civil na Síria.

Nessa linha, a Turquia não saiu ilesa: Recep Tayyip Erdoğan, que governa o país desde 2014, foi chamado de ditador pelo primeiro-ministro da Itália, Mario Draghi, em abril de 2021. Os últimos anos de governo do líder turco têm sido tensos, com destaque para os problemas na esfera econômica e geopolítica.

Erdoğan já demitiu quatro presidentes do Banco Central durante o seu mandato. A última vez que isso aconteceu foi em março de 2021, de maneira repentina, o que causou um colapso de 15% no preço da lira turca e, certamente, contribuiu para o aumento do interesse da população do país nas criptomoedas.

Nesse sentido, a inflação variou entre 7% e 16% na era Erdoğan, segundo o Banco Mundial. No ano passado, a média foi de 12%; além disso, a inflação mensal anualizada está acima dos 15% no início de 2021, segundo o banco BBVA.

A lira turca, por sua vez, fechou 2020 com uma desvalorização de 24% em relação ao dólar; esse foi o segundo pior resultado do mundo, atrás apenas do Real, que perdeu 25,3% no mesmo período, segundo o G1.

Todos esses problemas culminaram na adoção crescente do Bitcoin e de outras criptomoedas pela população turca, principalmente no ano passado.

 

Solução? O Bitcoin

Uma pesquisa realizada pela Statista em 2020 revelou algo surpreendente: 16% dos turcos entrevistados afirmaram utilizar as criptomoedas. Por conta disso, a Turquia fica atrás apenas da Nigéria, do Vietnã e das Filipinas no ranking dos países nos quais os cidadãos mais utilizam as moedas digitais.

Todos esses países têm algo em comum: eles são economias em desenvolvimento. No caso, o destaque fica para a Nigéria, que passa por problemas semelhantes aos da Turquia, sob o ponto de vista da inflação e da desvalorização cambial.

Inclusive, na Nigéria, o Bitcoin está sendo usado para financiar protestos da população contra a SARS, que é um grupo especial da polícia que é acusado de agir com truculência nas suas operações.

Outro caso importante a ser citado é o da Argentina, que é conhecida por não conseguir controlar, historicamente, a inflação e a desvalorização do seu peso. Logo, as buscas pelo termo “bitcoin” dispararam recentemente no país vizinho, conforme reporta o Portal do Bitcoin.

A razão é simples: o peso argentino perdeu 40% do valor nos últimos 12 meses, enquanto a inflação girou em torno de 36% no ano passado.

Na Venezuela, por sua vez, a população desesperada encontra no Bitcoin uma solução para contornar a inflação galopantes e a destruição do valor do bolívar. O país é o terceiro que mais utiliza criptomoedas no ranking de adoção da Chainalysis publicado em agosto de 2020.

Entretanto, os venezuelanos utilizam mercados pessoa a pessoa, ou P2P, ao invés das exchanges tradicionais, para evitar as restrições impostas pela ditadura de Nicolás Maduro.
Assim, há diversos motivos que levam as pessoas a procurar o Bitcoin e outras criptos nos países mais pobres, sendo que os principais deles são os seguintes:

• Investir em ativos dolarizados para contornar a desvalorização da moeda local
• Proteger o patrimônio contra a inflação crescente
• Fazer e receber remessas internacionais por fora do sistema bancário convencional
• Evitar a vigilância governamental sobre os próprios ativos
• Financiar protestos contra o governo

 

O banimento das criptomoedas

A Turquia não está sozinha no seu cerco ao Bitcoin; além dela, a Venezuela impõe restrições severas ao comércio das criptos, além de obrigar os mineradores a contribuírem para um “pool estatal” de mineração.

Na Argentina, o Banco Central intimou as instituições financeiras, em abril, a reportarem as informações de clientes que negociam criptomoedas. Antes, em 2019, a instituição proibiu a utilização de cartões de crédito na compra desses ativos.

Por outro lado, apesar das restrições, é praticamente impossível contornar a adoção do Bitcoin e dos seus pares. Logo, o número de endereços de criptomoedas só cresce, de acordo com os dados da glassnode.

Mesmo quando os países restringem o uso das moedas digitais, ainda é possível negociá-las de maneira direta, nos mercados p2p, sem a intermediação de corretoras. Naturalmente, os governos tentam dificultar o processo, mas eles ainda não foram capazes de impedir, completamente, as criptomoedas.

De todo modo, a proibição e o banimento dos criptoativos servem apenas para atestar a incompetência dos países em administrar as suas próprias moedas. Frequentemente, o mal-uso das ferramentas estatais ocasiona a desvalorização das moedas oficiais e o aumento da inflação.

O Bitcoin foi concebido em 2009, como uma resposta à crise econômica iniciada nos Estados Unidos no ano anterior. Esse timing não foi por acaso, pois reflete o completo esgotamento das pessoas em relação à corrupção e à incompetência da gestão pública e das instituições financeiras privadas.

Finalmente, aqueles que não estão satisfeitos com o modelo econômico atual só têm a ganhar com o crescimento das criptomoedas. Elas vieram para ficar e, certamente, têm um futuro mais promissor do que os governos que tentam censurá-las.

Arte: Vinícius Martins / TC Mover

DISCLAIMER: As informações disponibilizadas na coluna são meramente opiniões do COLUNISTA na data em que foram expressas e não declarações de fatos ou recomendações para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários, ou ainda, qualquer recomendação de investimento.


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