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Atualizado há 5 meses

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São Paulo, 4 de junho – Até no novo mundo do streaming, as dinastias poderosas pesam tanto quanto uma execução impecável. Os recentes anúncios de fusão entre a Warner Media e a Discovery e da Amazon com a dona do legendário estúdio MGM mostram como as empresas que lutam pelo domínio do streaming precisam de uma biblioteca de conteúdo extensa e renomada para crescer mais rápido que as rivais. Na guerra por conteúdo, séries e filmes tradicionais se juntam às novas produções na luta por mais assinantes, mais receitas recorrentes e, especialmente, mais rentabilidade. Mas e a Netflix?

 

Netflix mantém estratégia de investir em novos conteúdos

A Netflix, a líder incontestável do mercado que é vista por muitos como a companhia que deu dimensão global ao negócio do streaming, se mantém fiel à sua estratégia de investir mais em novo conteúdo para suprir a falta de catálogos extensos.

Já a Amazon, que como a Netflix é relativamente nova no segmento, não renuncia à aposta em conteúdo novo, mas vê mais uma avenida de crescimento na compra de material antigo de grande sucesso da MGM – dona das sagas “James Bond” e “Rocky” e de clássicos de cinema como “O Silêncio dos Inocentes”.

 

Servços de streaming e a Netflix

Arte: TC Mover

 

Como manter o trono?

Na guerra pelo domínio de uma indústria que fatura mais de US$200 bilhões ao ano, “os vencedores devem ser gigantes que podem se dar ao luxo de investir bilhões de dólares em conteúdo e que possuem redes de distribuição globais”, disse Nat Schindler, analista de mídia e tecnologia do Bank of America Merrill Lynch em relatório. “Para nós, a Netflix continua sendo a vencedora clara em ambos os aspectos, mas a grande questão é: como ela vai manter o trono?”, completa.

A pergunta de Nat Schindler arremete num momento que a indústria do entretenimento global retoma os US$2,2 trilhões anuais de receita, mesmo patamar da pré-pandemia. Ao mesmo tempo que as combinações recentes entre empresas do setor se tornam inevitáveis, o investidor tampouco quer uma reprise da megafusão Time Warner-AOL. Esta fusão pulverizou US$200 bilhões em valor de mercado, parte pelo foco disperso da operação, parte pelo choque entre as culturas de ambas as companhias.

 

Conteúdo da Netflix tem sido praticamente orgânico

Anos à frente de seus concorrentes no segmento de streaming, a Netflix levou quase dez anos para gerar caixa com sua operação. Afinal, o gasto para produzir conteúdo chegava a ultrapassar o faturamento. No primeiro trimestre, a Netflix diminuiu sua produção de conteúdo para fortalecer seu caixa. Isto frustrou o consenso dos analistas em número de assinantes, disse Will Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, corretora que ajuda brasileiros a investirem nos EUA.

Diferentemente das rivais Amazon, Disney, Warner Media e Discovery, entre outras, o conteúdo da Netflix tem sido principalmente orgânico. A empresa criada pelo empresário Reed Hastings fez apenas uma única aquisição até agora, a da empresa de quadrinhos Millarworld, em 2017. Contudo, fãs da companhia, como os blogueiros do site What’s On Netflix, questionam se a estratégia é apropriada para o pós-pandemia.

 

Estratégia apropriada?

“Há muito tempo defendemos que a Netflix deveria obter mais catálogos e propriedade intelectual em seu portfólio, e uma aquisição conseguiria exatamente isso”, disseram os blogueiros recentemente. Os autores do blog, que oferece primícias e informações exclusivas sobre a estratégia da Netflix, especulam sobre vários potenciais alvos de aquisição que a empresa de streaming almejaria, entre eles o estúdio Paramount, que é propriedade da ViacomCBS.

Para analistas e gestores, ViacomCBS deve também procurar um parceiro de maior escala para crescer no streaming e sobreviver a onda de consolidação no setor. A Paramount detém os direitos da saga “Star Trek”, que é vista como “uma proposta de valor central na qual a Netflix poderia estar interessada”, disseram os blogueiros do What’s On Netflix, que ressaltam a parceria entre ambas as empresas assinada em 2019.

 

Assinaturas de streaming desaceleraram em 2021

A retenção e atração de novos clientes nas plataformas de streaming desaceleraram marcadamente nesse ano na comparação com 2020, quando a eclosão da pandemia do coronavírus forçou o mundo inteiro a ficar fechado em casa. No primeiro trimestre, as assinaturas líquidas da HBO Max, dominada pela Warner Media, foram bem à frente, enquanto o Netflix ficou abaixo e a Discovery – que está no meio de um processo de fusão com a Warner – frustrou o consenso de novas assinaturas.

As assinaturas líquidas no streaming cresceram 16% na base anual no período janeiro-março, por conta da moderação drástica no crescimento da Netflix, de acordo com analistas do Credit Suisse liderados por Douglas Mitchelson. Mesmo assim, segundo ele, o streaming sob demanda, em especial da Netflix, ainda cresce a um ritmo robusto de 48% anual, o que também favorece o segmento como um todo, que é liderado pela Disney+.

 

Disney, a queridinha dos investidores

Queridinha dos investidores, Disney+ já atingiu 100 milhões de assinantes com apenas 16 meses de existência. Construída na base de aquisições ao longo de décadas, sendo a mais recente do estúdio 21st Century Fox por US$71 bilhões, a Disney detém quiçá a mais venerada biblioteca de conteúdo da indústria. Os títulos como “Star Wars” e Marvel, o conteúdo da Pixar e da National Geographic e a programação esportiva da ESPN e da Fox Sports pesam. Entretanto, a maioria da sua proposta no streaming é voltada para crianças, limitando o alcance da plataforma.

Com a aquisição da plataforma de streaming Hulu em 2019, a Disney conseguiu adicionar um mais um elemento amplo na sua plataforma. Entretanto, o desafio de gerenciar a Disney+ e o Hulu, plataformas complementares com públicos diferentes, permeia a companhia, à medida que as concorrentes oferecem assinaturas únicas para os públicos infantil e adulto. “É inevitável que a Disney integre sua biblioteca de streaming, o que resolveria o problema de porque o consumidor americano ainda não ter assinado o Disney+”, disse o empreendedor Mike Raab ao portal de notícias americano OneZero.

 

Com fusão, Amazon diminui distância ante Netflix

No caso da Amazon-MGM, a fusão busca aumentar a aquisição e retenção de clientes para o produto de streaming Amazon Prime, adicionando nela mais de 4 mil filmes e 17 mil programas de televisão de propriedade da MGM no mundo inteiro. O sucesso da operação, assim como da Amazon em diminuir a distância ante a Netflix, dependerá na habilidade do novo estúdio de reciclar as franquias da MGM para atualizá-las e gerar novos produtos, e atrair mais produções novas fora dos Estados Unidos.

Para não ficar dependendo apenas do conteúdo “que irá bombar”, a Netflix caminha para outros segmentos, como o streaming de videojogos, disse Castro Alves. Apple, Microsoft, Sony e Google tentaram criar uma assinatura para streaming de jogos, oferecendo acesso ilimitado a uma biblioteca de títulos por uma taxa mensal fixa, “mas não deu certo”, disse ele. Parece que a Netflix “tem abordado executivos da indústria de jogos para se juntar na criação de uma assinatura para jogos”, apontou ele, citando matérias da imprensa.

A ação da Netflix (NFLX) opera em alta de 1,85%, a US$498,48, por volta das 14h15 de hoje. Já a Amazon (AMZN) subia 0,93%, a CBSViacom (VIAC) 2,00% e a Disney (DIS), 0,49%. A AT&T (T), dona da Warner Media, avançava 0,07%, acumulando alta de 1,63% no ano.

Texto: Bruna Bins
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Letícia Matsuura
Arte: Vinícius Martins / TC Mover


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