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maria-luiza

Atualizado há cerca de 1 mês

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São Paulo, 07 de dezembro – Com o foco da Amazon na expansão em outros países e o atraso formal e em qualidade de serviço da Shopee, o reinado do Mercado Livre no e-commerce do Brasil não tem, por ora, uma data para acabar, segundo analistas ouvidos pela Mover.

Logística e capilaridade são as palavras-chave para compreender o domínio da companhia argentina no segmento brasileiro: o Mercado Livre conta com mais de 12 milhões de vendedores, ou sellers, cadastrados em seu marketplace no Brasil.

Sua infraestrutura física no país ultrapassa 1,2 milhão de m², distribuídos em oito centros de distribuição e 17 centros de transferência de produtos, além de 80 centros de armazenamento de última milha.

Com isso, o Mercado Livre consegue realizar mais de 94% das suas entregas sem depender dos serviços dos Correios – de quem dependia até 2018 – e, em 2.100 cidades do país, entregar produtos em até um dia, alcançando 75% do total.

Outro foco

De acordo com o serviço de consulta de cadeia de suprimentos, logística e distribuição MWPVL International, a Amazon tem cerca de 308,77 mil m² de infraestrutura instalada no Brasil em centros de distribuição, ou CDs, mas sem planos para novas instalações.

A situação é diferente em países como a Alemanha, onde a companhia fundada por Jeff Bezos tem 2,49 milhões de m² de infraestrutura em uso e pretende ativar mais 74,5 mil m², ou na Espanha, com quase 755,7 mil m² instalados e 179,1 mil m² a serem ativados. Na Índia, a empresa tem 1,1 milhão de m² sendo usados e pretende ativar mais 95,6 mil m².

“Mesmo se tratando da Amazon, expandir agressivamente em mais de 10 países é um desafio enorme. Via de regra, ela está mais focada onde tem mais metro quadrado instalado, e o Brasil não está nem perto do topo da lista. É um player para temer, porque tem dinheiro e capacidade de execução, mas, por enquanto, a Amazon não demonstra grande interesse em conquistar o Brasil”, diz Luís Eduardo Bomentre, sócio da Encore Asset Management.

Procurada pela Mover, contudo, a Amazon negou não estar priorizando sua operação no Brasil.

“Empregamos direta e indiretamente, em 12 centros de distribuição, mais de 6.300 pessoas que receberão o reforço de mais 5.500 associados (…) Nosso quadro de associados sem dúvida vem crescendo ano após ano. Para dimensionar isso, há dois anos, a Amazon no Brasil operava em um único centro de distribuição, alocado em São Paulo, e recentemente inauguramos o nosso décimo segundo centro. Eles estão distribuídos nos principais estados do país como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará, entre outros”, disse a empresa em nota.

Atraso

Outra oponente com grande potencial para balançar a argentina é a chinesa Shopee, do gigante asiático Sea Group, dono de um dos games mais jogados do mundo, o Free Fire, e que faz frente com a Alibaba, inclusive ultrapassando-a em alguns mercados do sudeste asiático.

Uma peculiaridade a favor da Shopee, segundo Bomentre, é a diferenciação no estilo de compra realizada na sua plataforma.

“O consumidor se comporta de maneira muito semelhante no Mercado Livre e na Amazon, fazendo compras objetivas. Há a intenção de comprar um item, ele busca e adquire. Na chinesa, o usuário realiza a chamada compra por descoberta, passeando dentro aplicativo sem um objetivo específico, até que ele efetua uma compra”, explica.

Além disso, a Shopee utiliza bem os novos formatos, como o live commerce ou o social commerce, habilidades que nem Mercado Livre nem Amazon possuem, segundo Bomentre.

Por sua vez, o Mercado Livre disse à Mover que já utiliza o formato live commerce. As transmissões ao vivo, que foram lançadas recentemente, no início de novembro, acontecem pelo aplicativo da empresa.

A Shopee, contudo, ainda queima caixa com seu marketplace, marcado pela venda sem nota fiscal de produtos de má qualidade ou falsificados, com tempo de entrega superior a uma semana, de acordo com o sócio da Encore Asset Management.

“Nesse momento de ganhar participação de mercado brasileiro, a Shopee queima mais caixa do que gera, subsidiando compras com descontos e gratuidade no frete. Em algum momento a empresa precisará tirar um resultado positivo da operação e, para isso, será necessário aumentar seu ticket médio”, disse Bomentre.

Segundo o analista, esse ticket hoje gira em torno de R$20,00 a R$30,00, uma base tão baixa que o Mercado Livre sequer atua, já que seu ticket médio ultrapassa os R$200,00.

O nível de serviço da Shopee só vai aumentar, para Bomentre, com a criação da sua malha logística própria. “Isso pede por formalização, por registro fiscal para o trânsito dos produtos. O uso dos Correios em parte protege a Shopee desse processo regulatório, mas congela a qualidade do nível de serviço no patamar baixo atual”, completa.

Também procurada pela Mover, a Shopee não respondeu ao pedido de comentário sobre a venda de itens falsificados em seu marketplace ou seus planos de expansão no Brasil.

Em regulação, ainda que existam obstáculos, o Mercado Livre tem vantagem em relação à chinesa, e a maior arma antifraude da argentina é o Mercado Pago, que dá crédito, parcelamento e adiantamento de recebíveis ao vendedor.

“Para oferecer tudo isso, Mercado Livre tirou inúmeras licenças com o Banco Central, em um processo de pelo menos 15 anos. A Shopee pode oferecer isso um dia, mas a Meli está na frente e não está parada. Enquanto a chinesa ainda nem correu atrás de licenças para ser uma instituição de pagamento no Brasil, por exemplo, o Mercado Pago lança uma carteira digital que permite que o seu usuário compre criptomoedas”, diz Luís Bomentre.

Aline Cardoso, head da EQI Research, reforça: “As concorrentes mencionadas têm dinheiro em caixa para investir no Brasil e na América Latina, mas a trajetória de Meli também nos mostra o tempo necessário para construir uma operação logística que abranja quase todo o território nacional de um país continental”.

Concorrentes nacionais

Do lado das concorrentes brasileiras, números mostram que, apesar do desenvolvimento nos últimos anos, não existe infraestrutura que faça frente à malha logística do Mercado Livre no país.

A Magazine Luiza tem 26 centros de distribuição e 211 centros de transferência de produtos, que atendem seu e-commerce e os 120 mil vendedores cadastrados no marketplace da Magalu.

Segundo a empresa, sua malha própria faz mais de 80% das entregas do e-commerce e coleta 65% dos pedidos do marketplace. Para tampar os gargalos, há a Agência Magalu, um modelo que usa as lojas físicas como pontos de entrega para os pedidos do marketplace, mas que só é usado por 2,5% dos 120 mil vendedores da plataforma.

A Via tem 26 centros de distribuição e um crescimento expressivo na quantidade de vendedores cadastrados no marketplace, que saíram de 10 mil no início do ano e para 100 mil em setembro – número ainda inferior ao Mercado Livre.

Existem catalisadores da operação do Mercado Livre para além da logística, como o seu perfil de venda de supérfluos e a não exigência de um CNPJ para o cadastro do vendedor, diferente do que acontece nas plataformas da Magazine Luiza e da Via, diz Vitor Aguiar, analista do TC Matrix.

O pioneirismo e a capacidade de ter construído um efeito de rede enorme, com a demanda crescendo à medida que a quantidade de usuários cresce, são elencados por Aline Cardoso, head da EQI Research, como outros motivos para o domínio do Mercado Livre.

“Depois de atingir determinado tamanho e relevância, o custo para adesão de clientes cai, já que todos querem fazer parte dessa rede. O vendedor sabe que venderá seu item e o comprador, que alguém oferecerá o que ele procura – movimento que ainda não se vê em outro marketplace no Brasil”, completa Cardoso.

Dinamismo

Listadas no Brasil, Magazine Luiza e Via têm papéis expostos à maior volatilidade do país em comparação com os Estados Unidos, ao passo que a listagem na América do Norte traz ao Mercado Livre mais facilidade de captação, de acordo com Vitor Aguiar, e portanto mais velocidade para alocar os recursos conquistados – principalmente nas economias onde atua, cujas moedas são mais fracas que o dólar, explica.

Em meados de novembro, a Mercado Libre captou US$1,55 bilhão ofertando um milhão de ações nos Estados Unidos, com a possibilidade de emitir mais 150 mil ações caso haja interesse. O recurso será utilizado em “propósitos corporativos gerais”, segundo documento publicado pela companhia.

Ainda, a estrutura “asset light” da empresa, mais enxuta, ajuda sua capacidade de ser dinâmica e a torna menos exposta ao cenário macroeconômico.

“Em momentos de maior volatilidade, empresas onde a divisão física tem maior peso, como é o caso de Magazine Luiza e Via, sofrem mais com os impactos da inflação e altas do dólar, que impulsionam os custos da operação. Os resultados do terceiro trimestre de 2021 mostraram isso”, Aguiar.

Outra evidência do dinamismo do Mercado Livre é o esforço em inovar ou até mesmo “surfar em ondas”.

Na semana passada, o Mercado Pago, braço financeiro da empresa argentina, anunciou um serviço de compra e venda de Bitcoin e Ethereum por meio de sua plataforma a partir deste mês.

“É um movimento dinâmico e de hedge, para se adiantar e entender como o cliente do Mercado Pago se comporta frente às criptomoedas, que são uma tendência mundial. Esse tipo de movimentação também é componente importante da liderança do Mercado Livre nos mercados onde atua”, completa Aguiar.

A ação da Mercado Libre negociada em Nova York acumula queda de 33% no ano, em linha com o mau desempenho dos papéis do setor com a inflação e a alta dos juros nos países emergentes.

Texto: Maria Luiza Dourado
Edição: Gustavo Boldrini e Gustavo Bonato
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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