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Especial: Ameaças de Putin contra Ucrânia semeiam caos geopolítico e inflação global

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Especial: Ameaças de Putin contra Ucrânia semeiam caos geopolítico e inflação global

Quais são os impactos que as investidas do presidente russo, Vladimir Putin, podem trazer para a geopolítica e a macroeconomia global?

Especial: Ameaças de Putin contra Ucrânia semeiam caos geopolítico e inflação global
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Atualizado há 4 meses

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São Paulo, 28 de janeiro – Está cada vez mais difícil de duvidar da capacidade do presidente russo Vladimir Putin de bagunçar a geopolítica e os mercados globais.

Homem forte da Rússia há mais de duas décadas, Putin já foi acusado de orquestrar a manipulação da eleição presidencial americana de 2016 e até de semear o caos no mercado de petróleo em plena pandemia do coronavírus, menos de dois anos atrás.

E desde a parte final de 2021, Putin elegeu como alvo a vizinha Ucrânia, importante produtora de commodities minerais e agrícolas e dona de um corredor visto como estratégico para os interesses geopolíticos russos.

Nas últimas semanas, Putin deslocou mais de 100 mil soldados para a fronteira ucraniana, oficialmente sob o pretexto de realizar exercícios militares, mas também para intimidar o país vizinho, que se aproxima cada vez mais de tornar-se membro da aliança militar ocidental Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan.

Potências ocidentais observam alarmadas Putin cercar acintosamente a Ucrânia, sem que ninguém saiba quais são suas reais motivações: proteger-se da crescente influência ocidental no seu quintal, consolidar-se como um czar moderno ou surfar na onda de popularidade que guerras costumam trazer.

“A pergunta não é o que a Rússia possa fazer militarmente na Ucrânia, mas qual manobra trará a Putin os ganhos geopolíticos mais duradouros”, disse Michael Kofman, diretor do centro de estudos da Rússia no Kennan Institute. “Consequentemente, quase todos os cenários possíveis parecem caóticos”.

Os Estados Unidos e seus aliados na Europa e na Otan, que concentram 70% dos gastos militares do planeta, têm deixado claro que uma eventual invasão da Ucrânia, que seria a terceira em pouco mais de sete anos, custaria caro à Rússia – principalmente na forma de sanções econômicas ou financeiras.

A atual situação econômica e financeira da Rússia, que possui US$630 bilhões em reservas internacionais e uma dívida pública abaixo de 25% do Produto Interno Bruto, fortalece a posição mais agressiva de Putin.

“Não se sabe o que a Rússia vai fazer. Alguns descartam ações adicionais, outros esperam uma invasão completa. Há muita incerteza”, disse Oscar Ghizzi, analista da Quasar Asset Management, que administra, entre outros, dívidas de países emergentes.

Questão fundamental

A pergunta que fica é: como uma querela regional teria o poder de balançar profundamente com a ordem geopolítica e financeira mundial?

Para analistas e gestores consultados pela Mover, os impactos poderão ser sentidos de múltiplas formas – mesmo sem um ato de guerra formal ou direto por parte da Rússia.

“Como a tensão entre Rússia e Ucrânia já atingiu os mercados, já temos uma ideia do que está por vir caso a situação se deteriore”, disse Ghizzi.

Um primeiro impacto se refletiu nas violentas oscilações nos preços de petróleo e gás e de algumas commodities agrícolas neste mês de janeiro, quando os Estados Unidos alertaram para os riscos crescentes de uma ação russa na Ucrânia, aponta Ghizzi.

A campanha da Rússia para justificar uma invasão da Ucrânia tornou-se mais incisiva desde a segunda semana de janeiro.

A Rússia pode invadir o país vizinho daqui até a segunda semana de fevereiro, de acordo com Wendy Sherman, secretária adjunta de Estado dos EUA, em coletiva nesta quarta-feira.

Provocação

Para Kofman, Putin usa a diplomacia, a desinformação e a sabotagem cibernética para alimentar um clima de provocação aos ucranianos “que possa ser enquadrado como legítimo”.

Diplomatas russos se reuniram este mês com Sherman, funcionários da Otan e representantes da Organização para Segurança e Cooperação na Europa. Todas as discussões se concentraram nas demandas de Putin – mas ainda não diminuíram a tensão.

Na quinta-feira, a Rússia deu uma resposta inicial crítica às propostas americanas, dizendo que não atenderam às suas demandas para impedir a expansão da Otan, mas indicou que as negociações provavelmente continuarão. A Otan ofereceu aos russos mais transparência sobre exercícios militares na região do Mar Negro, de acordo com reportagens da imprensa internacional.

A aliança de países ocidentais também teria oferecido não implantar mísseis de alcance intermediário ou tropas de combate na Ucrânia, em troca de compromissos recíprocos da Rússia.

No entanto, segundo a CNN, o presidente americano Joe Biden disse na quinta-feira ao chefe de governo da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que uma invasão russa é “praticamente um fato”. A rede de notícias citou um assessor de Zelensky como fonte das informações.

Frango, ouro, Swift

Um evento de grande risco, como um conflito Rússia-Ucrânia, estremeceria a confiança global, forçando os grandes investidores a buscarem proteção em instrumentos vistos como os mais seguros.

No mercado de câmbio, por exemplo, o franco suíço – cuja cotação ante o euro é vista como o maior indicador de risco geopolítico na Europa – opera perto das máximas em sete anos.

O ouro, outra forma de investimento vista como proteção em tempos incertos, negocia perto da máxima em dois anos.

Os preços da energia poderiam disparar na Europa e ao redor do mundo caso a Rússia decida cortar seu fornecimento de gás ao continente.

Além disso, cresce dentro dos EUA a ideia de que a Rússia deveria ser excluída da Swift, organização internacional que processa transferências entre bancos internacionais.

Autoridades russas já disseram que essa iniciativa praticamente impediria o pagamento pelas exportações de óleo e gás russos, mas antes de prejudicar empresas nacionais, causaria desabastecimento nos países compradores.

Petróleo

Para Ghizzi, da Quasar, “qualquer déficit de oferta seria pelo menos parcialmente mitigado por entregas de outros produtores via o mercado transoceânico, o que pode afetar todo o mundo”.

O preço do petróleo tipo Brent para entrega em março ultrapassou os US$90 o barril nesta semana. As reservas americanas recuaram em quase 2 milhões de barris na semana anterior – sinal de que o mercado espera uma dinâmica de oferta mais severa, de acordo com analistas dos bancos JPMorgan e Barclays.

O JPMorgan disse que as tensões no Mar Negro podem levar os preços do petróleo a um pico. Para o banco, uma cotação de US$150 no barril do contrato Brent reduziria o crescimento econômico global anualizado para menos de 1% no primeiro semestre e puxaria a inflação mundial para um nível acima de 7%. O preço mundial do gás natural também não para de subir no mês. A Rússia fornece cerca de 35% do que é consumido na Europa.

‘Até o pãozinho’

No entanto, um conflito Rússia-Ucrânia não deve somente impactar o custo da energia e reforçar a espiral inflacionária global.

Os preços do óleo de girassol, da ração para o frango e até o pãozinho podem sofrer com o “xadrez de Putin”, disse Raphael Mandarino, analista chefe da consultoria americana AgResource no Brasil.

Um conflito entre os dois países traria “um senhor impacto” e “um novo nível de precificação de todos os produtos” agrícolas produzidos na região do Mar Negro, disse Mandarino, contribuidor do TC na área agrícola e de commodities. “Putin não vai querer sair derrotado dessa situação”.

Rússia e Ucrânia produzem conjuntamente uma em cada quatro toneladas globais de trigo, girassol, cevada e milho, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

Para Mandarino, a tendência de preços desses produtos é “altista no médio e mais longo prazo”. O preço do milho em Chicago já disparou mais de 10% desde meados de janeiro.

Mesmo na ausência de um ato de guerra, a truculência de Putin deve manter a geopolítica e os mercados financeiros “incertos e voláteis por mais um tempo ainda”, disse Fernanda Pereira, contribuidora de renda fixa e macro reading do TC.

“A ascensão da Rússia no xadrez mundial fica mais evidente, mais visível” com o episódio da Ucrânia, disse Pereira.

Texto: Gustavo Bonato
Edição: Renato Carvalho
Imagem: Vinícius Martins / Mover

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