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Com inflação e juros altos, emprego vai desacelerar mais em 2022, avaliam economistas

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Com inflação e juros altos, emprego vai desacelerar mais em 2022, avaliam economistas

Os dados de emprego “são termômetros do que está acontecendo na economia” e mostram melhora, mas também perda de fôlego, diz economista

Com inflação e juros altos, emprego vai desacelerar mais em 2022, avaliam economistas
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Atualizado há 18 dias

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São Paulo, 3 de maioO cenário de inflação alta e aperto monetário no Brasil e nos Estados Unidos devem pressionar a melhora do mercado de trabalho nos próximos meses, em um movimento de desaceleração na criação de empregos, disseram economistas ouvidos pela Mover.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, Caged, que mede apenas a criação de postos de trabalho formais e é contabilizado pelo Ministério da Economia, registrou saldo líquido positivo de 136.189 vagas formais abertas em março, uma desaceleração frente a fevereiro, quando foram criados 328.507 novos postos de trabalho.

Já a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, PNAD, que também coloca na conta as vagas de emprego informais, mostrou que a taxa de desemprego brasileira ficou em 11,1% nos três primeiros meses do ano, queda de 0,1 ponto percentual em relação ao trimestre móvel encerrado em fevereiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O resultado foi melhor do que o esperado pelo mercado.

Emprego no Brasil

De acordo com o economista-chefe da Parcitas Investimentos, Vitor Martello, enquanto o Caged está mais relacionado ao ciclo de investimentos do país, já que olha para o mercado formal, a PNAD Contínua mostra melhor a recuperação da economia em setores como serviços, por abranger também o mercado informal.

Os dados de emprego “são termômetros do que está acontecendo na economia” e mostram melhora, mas também perda de fôlego, segundo a economista-chefe da gestora Claritas, Marcela Rocha. Eles “ensejam cautela, porque o mercado de trabalho ainda tem muito a recuperar.”

A Claritas prevê que as contratações devem continuar em nível favorável, mas com ritmo inferior a 100 mil vagas por mês. Para a gestora, a taxa de desemprego deve terminar o ano em 10,7%.

Emprego e inflação

Para Martello, o principal canal entre emprego e inflação é o salário. Com um mercado de trabalho aquecido, a remuneração costuma ter reajuste acima dos índices inflacionários, aumentando o poder de compra das famílias, alimentando a demanda e, assim, colaborando para o aumento de preços.

Em contrapartida, quando a inflação está em alta, “além de ter que subir os juros, inibir o investimento e a contratação, esse cenário traz menos visibilidade para o país e menos atratividade. Tudo isso prejudica o emprego”, ressalta Rocha.

Em março, o Caged registrou recuo de 2,03% no salário médio de admissão em relação ao mês anterior, ficando em R$1.872,07. Enquanto isso, a PNAD Contínua registrou alta de 1,5% no rendimento médio real dos trabalhadores, chegando a R$2.548.

Enquanto isso, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, IPCA, considerado o indicador de inflação oficial do Brasil, teve em março opior resultado para o mês desde 1994, acumulando alta de 11,30% em 12 meses. Já o IPCA-15, prévia da inflação,acelerou em abril, mas abaixo do esperado pelo mercado.

“A surpresa positiva [do IPCA-15] foi concentrada em itens voláteis, que não costumam ser uma sinalização de mudança de tendência”, ressaltou o economista-chefe da Parcitas.

Tanto a Claritas quanto a Parcitas preveem que a inflação termine 2022 em 7,5%, bem acima da meta do Banco Central, estipulada pelo Conselho Monetário Nacional, de 3,5%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. 

Já para o ano que vem, Rocha vê a inflação em 4,0% e Martello, em 3,7%. Ambas as expectativas estão acima da meta de 3,25% para 2023, mas dentro do intervalo de tolerância.

Juros, a ferramenta do BC

O controle da inflação e o pleno emprego são os dois mandatos do Banco Central. Mas, neste momento, os economistas apontam que a estabilidade dos preços é o principal objetivo da autoridade financeira.

“O Banco Central não vai olhar o que está acontecendo no mercado de trabalho e não deveria olhar. O que mais pode fazer pelo desemprego é trazer a inflação para a meta”, apontou Rocha.

Na tentativa de controlar a inflação, o BC possui algumas ferramentas, e a mais comum é o controle da taxa básica de juros, a chamada Selic. Quando os juros sobem, os créditos ficam mais caros e a demanda tende a cair, forçando uma queda dos preços.

Juros no Brasil

Atualmente, a taxa Selic está em 11,75% ao ano, em um ciclo de alta que começou no primeiro trimestre do ano passado, quando os juros estavam em 2%. A Claritas vê aumento para 12,75% na reunião desta quarta-feira, 4, e mais uma elevação de 50 pontos-base em junho, quando a sequência de aumentos deve se encerrar com a Selic em 13,25%, mesmo patamar que a Parcitas prevê no fechamento do ano.

“Nos próximos meses, ainda não teremos uma janela de dados positivos de inflação”, afirma Martello ao justificar a previsão acima da última sinalização do BC, de 12,75%.

Cenário global

Em meio à continuidade da guerra na Ucrânia, a oferta de commodities, como milho, trigo, petróleo e gás, foi afetada, contribuindo para a alta da inflação global, já robusta com a pandemia.

O Brasil, por ser exportador de commodities, pode ter suas atividades beneficiadas no primeiro semestre, mas a partir do segundo o cenário pode se tornar negativo, pelo efeito inflacionário e aperto monetário também em outros países, como nos Estados Unidos, avaliou Martello.

As commodities ajudaram nos resultados de algumas empresas e na criação de emprego no Brasil nos últimos meses, apontou o economista, mas a inflação, a intensificação da guerra e a recente valorização do dólar ajudam a pressionar o ambiente doméstico.

Marcela Rocha defende que os preços das commodities deixarão de ser um fator relevante na economia global, com maior atenção para as políticas monetárias. A subida de juros em países desenvolvidos leva à desaceleração de atividades, explicou.

A incerteza sobre os juros americanos gera cautela nos investidores, que perdem o apetite pelas economias emergentes. Nesse cenário, o dólar pode se valorizar, terminando o ano em R$5,10 na perspectiva da Claritas. 

O Federal Reserve, banco central americano, terá reunião de política monetária no mesmo dia do Banco Central brasileiro, formando a conhecida ‘Super Quarta’ e podendo escalonar a volatilidade que vem dominando o mercado.

Eleições 2022

A decisão de juros nos EUA é o principal fator a ser acompanhado, mas a eleição é a “cereja do bolo”, caracterizou Rocha. Para ela, a disputa ficará entre o presidente Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

“Em uma campanha polarizada e acirrada, talvez não tenhamos clareza sobre os planos, afetando a confiança, e o câmbio também acaba prejudicado”.

No último domingo, Dia do Trabalhador, o pré-candidato petista sinalizou que o combate à inflação será prioridade em um eventual governo seu.

Durante discurso em evento na cidade de São Paulo, Lula falou de questões trabalhistas, sem voltar a criticar a recente Reforma Trabalhista de 2017. Ele afirmou que “é possível elevar salário mínimo sem gerar mais inflação”, porém não apresentou um plano para isso.

Texto: Letícia Matsuura
Edição: Stéfanie Rigamonti e Renato Carvalho
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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