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Como o petróleo em alta pode derrubar a economia global

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Como o petróleo em alta pode derrubar a economia global

Sempre que o petróleo dispara 50% em uma janela de 6 meses, as chances de uma recessão mundial aumentam significativamente, diz especialista

Como o petróleo em alta pode derrubar a economia global
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Atualizado há 3 meses

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São Paulo, 9 de março – O momento atual do mercado é um daqueles em que o preço do petróleo pode dar pistas ao investidor de quão perto o mundo está de uma recessão global.

A commodity energética mais importante do planeta também é a mais sensível à geopolítica. A Rússia, a segunda maior produtora global, colocou o mercado em alerta máximo ao entrar em guerra com a vizinha Ucrânia em 24 de fevereiro, ao mesmo tempo em que o mundo já enfrentava uma espiral inflacionária – causada, entre muitas razões, pela disparada nos preços da energia em meses recentes.

Por conta do conflito na Ucrânia, a diferença entre os preços à vista e futuros da commodity atingiram níveis recorde em dias recentes. Sendo a Rússia responsável por cerca de 12% da oferta de petróleo no mundo e de um terço do gás natural na Europa, o investidor já precifica uma forte queda da oferta de energia – e, portanto, teme uma recessão mundial.

Analistas apontam que o comportamento incomum das cotações atestam essas chances. Por exemplo, na semana passada, o WTI, referência para os contratos de petróleo nos Estados Unidos, subiu quase 20%. Em três das quatro vezes em que uma alta similar aconteceu a economia global afundou, de acordo com a Bespoke Investment Group.

“Sempre que o petróleo dispara 50% em uma janela de seis meses, as chances de uma recessão econômica aumentam significativamente”, disse Gabriel Rech, contribuidor de macroeconomia do TC.

E apesar de hoje o petróleo cair pela primeira vez em quatro pregões, em um movimento guiado por boatos e especulações, o fato é que a volatilidade deve pautar a dinâmica desse mercado no curto prazo, disseram traders. Por volta das 12h10, o contrato do petróleo tipo Brent para entrega em maio recuava 5,65% cotado a US$120,72 o barril.

Em 2022, bastaram apenas dois meses para um ganho da magnitude descrita por Rech – ou até maior – acontecer. Por exemplo, na sexta passada, os futuros do petróleo Brent com vencimento em maio dispararam 20,61%, fechando a US$118,11 o barril – o maior salto desde, pelo menos, os anos 1980.

As sanções econômicas que as potências ocidentais impuseram à Rússia por conta da incursão na Ucrânia têm dificultado a procura de compradores, o transporte do produto e o recebimento de pagamentos para as petroleiras russas.

Grandes potências vinham relutando em impor restrições diretas à compra de petróleo e gás russos. Mas isso começou a mudar, o que eleva as probabilidades de uma recessão mundial acontecer.

O presidente americano Joe Biden anunciou na última terça-feira, 8 , um embargo às importações de petróleo russo nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, ele tenta negociar com outros países produtores da commodity ampliações na produção. Países europeus, por outro lado, não acompanharam essa sanção imediatamente, por conta de sua alta dependência dos produtos energéticos da Rússia.

‘The B Word’

Os temores de menor oferta estão pressionando o diferencial entre o petróleo à vista e o futuro, disse Alê Delara, especialista em commodities da Commodity Trading Academy. Esse indicador atingiu um recorde de inclinação na semana passada, segundo ele.

Para Delara, o conceito chamado “backwardation” é útil para entender esses fenômenos raros com essa intensidade no mercado do petróleo. O backwardation parece, nessa conjuntura, aquela palavra proibida que ninguém no mercado quer ouvir: “The B Word”.

No mercado de futuros, o backwardation acontece quando o preço de um ativo hoje, chamado de preço spot, está sendo negociado acima do preço do mesmo ativo para uma data futura.

No gráfico, as curvas com os preços futuros para diferentes vencimentos do petróleo Brent para esta semana e para os fechamentos dos últimos quatro anos mostram que o backwardation está presente no mercado desde, pelo menos, a eclosão da pandemia do coronavírus, no primeiro trimestre de 2020.

Isso reflete em parte os problemas nas cadeias de produção decorrentes da pandemia, mas a inclinação “nunca foi tão acentuada” como agora, ele disse.

A interpretação é de que esse ativo sofre com demanda maior do que oferta no curto prazo. Contudo, os preços futuros – embora menos elevados que os de curtíssimo prazo – indicam que o petróleo não voltará tão cedo aos patamares vistos nos últimos anos.

Uma maior oferta de petróleo que venha a surgir por alguma articulação política pode ser apenas um paliativo, disse Edmar Almeida, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio.

A prometida liberação de cerca de 60 milhões de barris das reservas estratégicas de petróleo por parte de países da Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE, oferece apenas “algum alívio”, ele apontou.

Qualquer solução que não envolva uma desescalada do conflito Rússia-Ucrânia não irá normalizar os preços no curto prazo, disse.

‘Sem boas alternativas’

Almeida e Delara coincidem em afirmar que, mesmo um acordo nuclear com o Irã, tido por muitos como um possível fator de alívio para a oferta de petróleo, não será capaz de normalizar o balanço de oferta e demanda com rapidez.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados, conhecida como Opep+, que se beneficia dos preços elevados e da qual a Rússia faz parte, não parece possuir capacidade ociosa ou intenção de acelerar sua produção.

Um eventual acordo com o Irã poderia levar até dois meses para aumentar a oferta em 1,5 milhão de barris, muito distante dos 8 a 9 milhões de barris que a Rússia coloca no mercado, lembrou Delara.

Não há boas alternativas e, sem essa mínima normalização, o petróleo poderá atingir US$150,00 ou mais”, diz Almeida. O JPMorgan avalia que, com a permanência das sanções à Rússia, o Brent pode atingir US$185,00 em dezembro.

Implicações

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, todas as recessões econômicas foram antecedidas por disparadas no petróleo. É o caso da década de 1970, com os embargos do petróleo tracionando a inflação; nos anos 1980, novamente um choque no mercado do petróleo antecedeu uma recessão global.

No começo dos anos 1990, entre outras coisas, uma nova recessão foi precedida por uma disparada do petróleo – desta vez causada pela guerra no Golfo Pérsico. Em 2008, a crise financeira também eclodiu em meio a uma escalada de preços da commodity – formada por uma bolha de preços em alguns ativos.

Preços mais altos no curto prazo podem, sem alternativas de maior oferta de petróleo, resultar em destruição de demanda, impactando o consumo mundial e o comércio internacional.

O conflito bélico na Ucrânia traz sérias implicações globais, desde a pressão de margens no setor privado, a possível quebra de empresas altamente dependentes de energia na Europa, como no setor industrial alemão, a redução do consumo e até a insatisfação popular pela carestia nos combustíveis, avaliam economistas do Citigroup.

Para o JPMorgan, as commodities caras devem manter a inflação elevada nas principais economias do mundo. O presidente do banco central americano, Jerome Powell, pontuou na semana passada que as consequências econômicas do conflito na Ucrânia são “altamente incertas”.

Assim, a incerteza elevada e o petróleo nas alturas devem permear o tom dos comunicados das reuniões dos principais bancos centrais do planeta ao longo deste mês, disseram economistas do BTG Pactual liderados por Alvaro Frasson.

Em resposta à perspectiva de desaceleração da economia, apostas na alta do juro nos EUA em 16 de março têm arrefecido, de 50 para 25 pontos-base, em dias recentes.

Texto: Felipe Corleta e Gabriel Brondi
Edição: Gustavo Bonato
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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