0

Copom deve sinalizar sequência mais forte da Selic em 20 anos

mercados

Copom deve sinalizar sequência mais forte da Selic em 20 anos

O Comitê de Política Monetária do Banco Central deve elevar a taxa básica de juros, Selic, em 1,5 ponto, segundo especialistas

Copom deve sinalizar sequência mais forte da Selic em 20 anos
tcuser

Atualizado há 6 meses

Ícone de compartilhamento

São Paulo, 8 de dezembro – O Comitê de Política Monetária do Banco Central, Copom, deve subir a taxa básica de juros nesta quarta-feira em 1,5 ponto percentual, dos atuais 7,75% para 9,25% ao ano. Além disso, deve passar mensagem forte ao mercado, indicando uma nova alta de mesma magnitude na reunião de fevereiro, segundo avaliou a maioria dos economistas e gestores consultados pela Mover.

Com a alta da Selic de 1,5 ponto percentual anunciada previamente em outubro, a sequência prevista agora seria a mais forte em quase duas décadas. O Copom realizou aumentos de 1 ponto, 3 pontos e 0,5 ponto nas reuniões realizadas entre novembro de 2002 e janeiro de 2003, também somando 4,5 pontos.

A piora das expectativas para a inflação deve levar o Copom a manter um tom duro, até como forma de evitar uma perda de credibilidade, disse o banco JPMorgan.

Entre 14 bancos, consultorias e gestoras acompanhadas pela Mover, 13 apontaram para uma alta em fevereiro, na sequência da elevação desta quarta-feira, que já é consensual.

“Uma projeção de nova alta de 1,5 ponto na próxima reunião [em fevereiro] serviria para o BC controlar as expectativas, com impacto positivo nas taxas futuras de juros”, defende José Pena, economista da Porto Seguro Investimentos.

Hawkish ou dovish?

A grande expectativa será com o tom do comunicado da reunião desta quarta-feira e com a mensagem que o Copom vai transmitir ao mercado, se mais duro, ou “hawkish”, ou mais suave, ou “dovish”, o que será importante para traçar a trajetória dos juros nos próximos meses.

Alguns analistas, porém, avaliam que o Copom também poderia deixar de sinalizar um aumento para a primeira reunião de 2022 para garantir um espaço de manobra, diante das incertezas sobre o impacto da nova variante ômicron do coronavírus e com o ritmo da atividade local, que já dá indicações de desaquecimento e pode fazer parte do trabalho dos juros no combate à inflação.

O BC também deve rever no comunicado suas estimativas de inflação e os cenários de risco.

A alta de 1,5 ponto nesta quarta-feira, se confirmada, levará a Selic para o maior nível desde setembro de 2017, reforçando a preocupação do Banco Central com a forte alta da inflação. O IPCA, que atingiu 10,67% em 12 meses até outubro, maior nível desde janeiro de 2016, dá sinais de se espalhar para diversos setores e contamina as expectativas, como mostram as projeções do mercado.

O relatório Focus indica um IPCA de 10,18% ao final deste ano, muito acima do teto da meta do BC, de 5,25%. Para o ano que vem, as estimativas de inflação de 5,02% também já superam o teto da meta, de 5,0%. Mais relevante que isso, o mercado vem subindo a projeção de inflação para este ano há 35 semanas e, para o ano que vem, há 20 semanas.

O comunicado deve mostrar o crescimento dos sinais de disseminação da inflação, ou efeitos secundários, deterioração das expectativas para 2021 e 2022 e piora das expectativas gerais da inflação, incluindo núcleos e serviços, diz o Goldman Sachs.

Assim, o balanço de riscos para inflação deve continuar assimétrico para cima.

Para o banco americano, a projeção de IPCA para este ano deve subir de 9,5% para 10,0% e, para 2022, de 4,1% para 4,5%, acima do centro da meta de 3,5%, mantendo-se, porém, em torno de 3,0% para 2023.

Cenário macroeconômico

Além da inflação, o desgaste da política fiscal provocado pela Proposta de Emenda à Constituição dos Precatórios complica o cenário. Para o Goldman Sachs, uma política monetária restritiva no médio prazo seria decorrência também do dano causado em investimentos e crescimento, diante da volatilidade financeira com o elevado risco fiscal.

O risco fiscal cria volatilidade financeira (dólar, inflação, juros) e reduz investimentos, por isso o BC terá de manter os juros altos.

O enfraquecimento da âncora fiscal e os desdobramentos políticos também sugerem que a taxa neutra real de juros está subindo. Isso requer uma calibração mais dura da política monetária no curto prazo, diz o banco.

Já o Santander avalia que esses fatores devem levar o Copom a reafirmar que a política monetária deverá avançar “ainda mais no território contracionista”, reforçando um balanço de riscos ainda altista.

O cenário externo também deve contribuir para um Copom mais duro, diante da expectativa de que o Federal Reserve dos Estados Unidos antecipe o fim da redução das recompras de títulos, o “tapering”, na semana que vem.

Para o JPMorgan, o Copom deve definir o cenário externo como “mais desafiador”, particularmente diante do aperto monetário nos bancos centrais de países desenvolvidos, com a deterioração da inflação global além das expectativas.

Atividade econômica

A favor de um Copom mais suave está a atividade econômica local, que vem perdendo força e pode entrar em recessão no ano que vem.

“Acredito que, após um PIB e uma produção industrial fracos, o BC deve, em seu comunicado, mostrar algum sinal de que os aumentos da Selic começaram a fazer algum efeito”, diz Régis Chinchila, analista-chefe da Terra Investimentos.

As chuvas acima do esperado também podem reduzir a pressão sobre os preços da energia. No cenário externo, os preços das commodities também dão um sinal de perda de fôlego, o que poderia aumentar com os desdobramentos da ômicron.

Todas essas mudanças devem tornar ainda mais relevante a decisão do Copom hoje, depois das 18h30, que terá como única certeza que a direção dos juros é para cima.

Texto: Angelo Pavini e Eduardo Puccioni
Edição: Gustavo Bonato e Renato Carvalho
Imagem: Vinicius Martins / Mover

relatorios
image

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.