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Desconto e vocação por commodities ‘embelezam’ Brasil aos olhos dos estrangeiros

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Desconto e vocação por commodities ‘embelezam’ Brasil aos olhos dos estrangeiros

Em meio ao aperto monetário nos países desenvolvidos, o Brasil, com preços com descontos a nível pré-impeachment, atrai estrangeiros

Desconto e vocação por commodities ‘embelezam’ Brasil aos olhos dos estrangeiros
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Atualizado há 4 meses

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São Paulo, 28 de janeiro — O ambiente de aperto monetário no mundo desenvolvido, atrelado à força do Brasil na exportação de commodities e a um desconto nos papéis do Ibovespa para os níveis de final de 2015, época pré-impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, tornam o mercado e as empresas brasileiras mais atrativas aos olhos dos investidores estrangeiros neste ano, avaliam analistas ouvidos pela Mover.

Apenas nos primeiros 21 dias do ano, o fluxo de capital estrangeiro na Bolsa brasileira atingiu 28% do saldo aportado aqui no ano passado inteiro, apontam dados da B3 compilados pela Mover.

O saldo de entradas e saídas do investidor estrangeiro ficou em R$20,11 bilhões nas primeiras três semanas de 2022, ante R$70,76 bilhões do ano completo de 2021.

Esse é um dos fatores que explicam a alta de cerca de 7% do Ibovespa em 2022. O EWZ, fundo de índice que replica o Ibovespa na Nova York e é negociado em dólares, já se valorizou 22% sobre o S&P500, após perder 40% ante o principal índice acionário do ano passado.

A queda do S&P500 está intimamente ligada à perspectiva de aperto monetário pelo Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, que deve começar em março. Juros mais altos significam renda fixa mais atrativa, e acabam prejudicando as chamadas companhias de crescimento, como as tecnológicas – o índice Nasdaq 100 cai 14% desde o início do ano.

Tempestade do bem

A situação se assemelha a uma “tempestade perfeita”, mas no sentido positivo do termo, com diversos fatores diferentes contribuindo para essa rotação para países emergentes que tenham empresas sólidas e múltiplo descontado, que é o caso do Brasil.

“Trata-se de um processo estratégico, de alocação mais inteligente de recursos: o investidor está buscando empresas baratas e ligadas às commodities, que tragam proteção à inflação”, avalia Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos.

“A Bolsa brasileira tem 40% de commodities, com Vale e Petrobras, e grandes bancos com múltiplos descontados. São empresas bem atrativas nesse momento de mercado”, acrescenta.

Desconto de impeachment

Um levantamento do TC LABs com dados da Economatica apontam que o múltiplo preço/lucro das companhias brasileiras se encaminha para fechar janeiro 32% abaixo da mediana dos últimos 10 anos.

“Ainda estamos em níveis de múltiplo do período da abertura do impeachment da ex-presidente Dilma, no final de 2015, quando a bolsa estava praticamente largada”, aponta o head do TC LABs, Orleans Martins.

Assim como sete anos atrás, a política segue como fator-chave para explicar o desconto da Bolsa brasileira, avalia Matheus Jaconeli, economista da Nova Futura.

“Vivemos nesta primeira parte do ano uma espécie de marasmo de notícias negativas com o recesso dos políticos em Brasília. Isso naturalmente ajuda a reduzir os ruídos”, diz.

Esse “marasmo”, no entanto, tem dias contados na visão de Jaconeli, uma vez que a aproximação das eleições presidenciais de outubro deve trazer muitas turbulências ao longo do ano.

“As incertezas das eleições ainda estarão no radar, mesmo que o atual líder das pesquisas – o ex-presidente Lula – esteja sinalizando para o centro. Existe ainda o risco do governo atual, buscando a reeleição, tomar medidas fiscais mais graves. O movimento positivo pode permanecer, mas deve encontrar ruídos ao longo do caminho,” alerta.

A “inversão” das políticas monetárias globais também pode ser uma sinalização positiva para a Bolsa brasileira em 2022, diz Felipe Vella, analista de renda variável da Ativa Investimentos.

“O ciclo de aumento de juros e reprecificação dos ativos afastou investidores do mercado de renda variável brasileiro no ano passado, mas agora, o Brasil começa a chegar ao fim do seu ciclo de aumento talvez ainda no primeiro semestre, enquanto o mundo começa a aumentar juros e cortar estímulos”, diz.

Apetite

Diante desse cenário, também é natural que as empresas promovam medidas “anticíclicas”: se os receios fiscais e políticos ainda afastam o Ibovespa das suas máximas históricas e ampliam o desconto de empresas com fundamentos sólidos, o momento é de aproveitar as oportunidades que o mercado oferece, seja promovendo ofertas subsequentes, os chamados follow-ons, ou fusões e aquisições.

“Da mesma maneira que existem muitas oportunidades na Bolsa brasileira para o investidor, isso se expande para o ambiente corporativo, e muitas empresas negociadas em Bolsa acabam aproveitando para investir. É uma mensagem anticíclica. Empresas sólidas se aproveitam do momento de volatilidade para fazer bons investimentos”, disse Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos.

O mês de fevereiro será marcado pela precificação de diversas ofertas subsequentes de ações, com destaque para BRF no dia 1, Arezzo no dia 3 e Equatorial no dia 8.

As três empresas utilizarão os recursos levantados para investir, seja na expansão da capacidade, seja em fusões e aquisições – nos três últimos meses do ano passado, apenas Petz e 3R Petroleum captaram recursos em ofertas primárias no mercado.

“Essas ofertas não vêm do nada. Se a empresa vai ao mercado, ela sabe que tem demanda por aquilo. Condições de mercado facilitam”, completa Villegas.

IPOs

O analista da Genial não acredita que a entrada maciça do investidor estrangeiro possa acelerar a agenda de IPOs, que após o volume recorde no primeiro semestre de 2021, estacionou no segundo semestre.

De acordo com dados da CVM, desde o início do ano, 12 companhias que pretendiam abrir capital na B3 já desistiram dos planos, incluindo a rede de restaurantes Madero e a Environmental ESG, subsidiária da Ambipar.

“Fluxo estrangeiro não significa andamento de IPOs, uma vez que esse fluxo é direcionado a empresas com bom histórico e já consolidadas”, avalia.

Felipe Vella, da Ativa Investimentos, reconhece que o fluxo estrangeiro pode voltar a esquentar a agenda de abertura de capital, mas vê o ambiente de juros mais altos possibilitando alternativas para as companhias de capital fechado buscarem capital.

“Não podemos nos esquecer do crédito privado, já que começa a fazer cada vez mais sentido para os grandes bancos fomentar o crédito com os juros mais altos. Com isso, a fatia das empresas que não têm condições de fazer IPO recorrerão ao crédito privado, enquanto uma outra parte de empresas que cancelaram seus IPOs podem voltar atrás com essa entrada massiva de capital estrangeiro”, diz.

Texto: Gustavo Boldrini
Edição: Renato Carvalho
Imagem: Vinícius Martins / Mover

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