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Dólar em queda faz fundos de pensão hesitarem na diversificação global

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Dólar em queda faz fundos de pensão hesitarem na diversificação global

A queda do dólar tem causado perdas no patrimônio líquido dos fundos brasileiros em renda fixa, ações e aplicações multimercado no exterior

Dólar em queda faz fundos de pensão hesitarem na diversificação global
tcuser

Atualizado há cerca de 2 meses

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São Paulo, 28 de março – A carteira internacional dos fundos de pensão estava indo tão bem no final do ano passado que os gestores queriam alocar mais dinheiro nesses ativos em 2022. No entanto, o jogo subitamente virou, culminando na queda do dólar mais recentemente.

No final de dezembro, o mundo tremeu quando o Federal Reserve, banco central americano, sinalizou que poderia elevar o juro básico americano nos primeiros meses deste ano. Uma alta antecipada no custo do crédito nos Estados Unidos daria início a uma derrubada, por exemplo, dos preços dos títulos de dívida e das ações de empresas de tecnologia americanas.

Esse cenário criou incertezas para o Postalis, o fundo de pensão dos funcionários dos Correios, e muitas outras fundações brasileiras que estavam à procura de maior diversificação global e pegavam carona nas altas que as bolsas americanas vinham apresentando até então.

Depois, quando a Rússia sinalizou que invadiria a Ucrânia, em janeiro, os preços das commodities agrícolas e de energia dispararam, a volatilidade saltou e o quadro inflacionário global piorou de vez. De acordo com o diretor de investimentos do Postalis, Pedro Pedrosa, o momento é de esperar um pouco, mesmo que a política de investimentos da fundação seja a de aumentar a exposição em ativos internacionais. O fundo tem mais R$200 milhões alocados fora do país.

“O dólar está com tendência de queda, então colocamos o pé no freio”, disse Pedrosa em entrevista recente. Os investimentos no exterior “têm correlação negativa com a bolsa local – no momento em que um cai, o outro sobe, o que dá um balanceamento razoável”.

A demora na estratégia de diversificação global das fundações deverá ter reflexos em suas estratégias e resultados no curto prazo, principalmente com a proximidade da eleição presidencial no Brasil, que deve piorar a incerteza e a volatilidade locais. Ela também demonstra a natureza insular do mercado financeiro brasileiro, que, apesar dos esforços recentes de abertura por parte de reguladores e de algumas instituições, se recusa a sair do casulo.

A taxa básica de juros local já elevada oferece retornos acima da inflação projetada, o que conversa com a ideia das fundações de manter o capital no país, visando bater metas atuariais – todas elas, atreladas a índices locais ligados à inflação. A taxa Selic deve finalizar 2022 no seu maior patamar em seis anos, de acordo com as projeções do Boletim Focus semanal, divulgado pelo Banco Central.

Como resultado, os ativos locais – expostos a uma moeda protegida pela Selic alta e ao boom das commodities – parecem mais atrativos do que muitos mercados globais tradicionais. Em 24 de março, o dólar futuro atingiu R$4,77, o menor patamar em dois anos, devido, principalmente, ao fluxo de capital estrangeiro, que segue positivo.

Enquanto isso, no mês, até 18 de março, o patrimônio líquido dos fundos brasileiros em renda fixa, ações e aplicações multimercado no exterior caiu R$5,44 bilhões, de acordo com dados fornecidos pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, representante de bancos de investimentos e da indústria de fundos.

O volume de resgates nesses fundos foi de R$2,71 bilhões em março e, no acumulado do ano, de R$7,18 bilhões.

Previ

Maior fundação do país, a Previ, que administra as aposentadorias dos funcionários do Banco do Brasil, ainda está longe do limite de alocação no exterior – mesmo à procura de boas estratégias e ciente de que há oportunidades de ganho. Do patrimônio total da instituição, de quase R$250 bilhões, apenas R$1 bilhão está alocado em investimentos externos.

Enquanto a Previ e outros grandes fundos de pensão não possuem investimentos relevantes fora do Brasil, as fundações de menor tamanho carecem de estrutura para comprar ativos externos e administrá-los, de acordo com gestores e consultores.

As regras vigentes permitem que apenas 10% do patrimônio das fundações seja investido no exterior. No entanto, a alocação média do setor não chega nem a 3%. Há discussões em andamento para aumentar a exposição para 20%, mas o Conselho Monetário Nacional, que edita a lei, não especificou uma data para avaliar eventuais mudanças.

Apesar de muitas fundações estarem com o “dedo no gatilho” para iniciar ou ampliar a exposição em ativos internacionais, o diretor da consultoria para fundos de pensão Aditus, Guilherme Benites, culpa a instabilidade que ronda os mercados globais pela mudança de estratégia.

“Com o câmbio caindo 5 centavos ao dia, o pessoal está preferindo achar um patamar mais estável. Acho que não vai ser agora”, disse ele.

A Funcef, fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal, aguarda a estabilização do câmbio para alocar mais recursos no exterior. “Estamos fazendo contas para saber qual o melhor momento de entrada, pois é uma classe de investimento nova para nós”, disse o diretor de investimentos, Samuel Crespi.

‘Tira e põe’

A Forluz, que abriga planos de previdências para funcionários da Cemig, também planejava ampliar a exposição no exterior no início deste ano. No entanto, após a deflagração da guerra na Ucrânia e a alta dos juros nos EUA, a fundação acredita que é mais seguro manter o dinheiro alocado no Brasil.

“Com os juros lá fora subindo, a relação risco-retorno fica desfavorável”, disse o diretor de investimentos, Emílio Cáfaro.

A Regius, fundo de pensão do Banco de Brasília, que atualmente possui zero exposição internacional, iniciaria os aportes no final do ano passado, mas também decidiu esperar. Contudo, a queda do dólar não será suficiente para iniciar os investimentos. “Às vezes a questão cambial está favorável, mas a economia não”, explicou a diretora-presidente, Nilza Rodrigues.

Com a perspectiva de que a Selic volte a cair a partir de 2023, as fundações devem olhar com mais seriedade para a diversificação internacional. A concentração em ativos locais não garantirá para sempre o cumprimento das metas atuariais, sendo necessário correr mais riscos para evitar déficits nos planos. A perspectiva é de que parte do dinheiro que hoje está alocado em títulos públicos flua para investimentos internacionais.

“As análises a longo prazo mostram que o Brasil não sustenta esse patamar de juros por muito tempo”, disse o diretor presidente da Real Grandeza, fundo de pensão de Furnas, Sergio Wilson Fontes. “Quando os juros dos títulos voltarem a um patamar não interessante, eu posso eventualmente tirar desta classe e colocar no exterior”.

Texto: Bruna Chieco e Felipe Corleta
Edição: Gabriela Guedes
Imagem: Mover

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