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Estagflação, um risco ignorado por muitos: Coluna

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Estagflação, um risco ignorado por muitos: Coluna

São poucos os que hoje dão bola para as chances de uma estagflação global tão potente que possa paralisar a economia mundial

Estagflação, um risco ignorado por muitos: Coluna
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Atualizado há 17 dias

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São Paulo, 29 de abril – Hoje vim falar de um risco que poucos querem mencionar: estagflação. Hoje vou brincar de profeta de um risco ignorado. Serei curto e grosso nos alertas, prolixo nas explicações e, oxalá, ameno na escrita.

Repito: são poucos os que hoje dão bola para as chances de uma estagflação global tão potente que possa paralisar a economia mundial, piorar a alta de custos, sufocar os lucros corporativos e, quem sabe, deteriorar ainda mais a frágil geopolítica internacional.

Nesta semana, economistas do Deutsche Bank previram uma recessão na economia dos Estados Unidos no ano que vem, com um ambiente de ranger de dentes e temor generalizado. Mas, sinceramente, eu estou bem mais assustado com a chegada de uma estagflação do que com os riscos de uma recessão.

Por quê?

A estagflação é um fenômeno econômico caracterizado por uma paralisação na atividade econômica e uma alta persistente e significativa dos preços ao consumidor.

Na última vez que o mundo viveu uma estagflação de grandes proporções, na Crise do Petróleo, no início da década de 1970, a disparada dos combustíveis derrubou a bolsa americana em 48% entre 1973 e 1974.

Hoje, o risco de uma estagflação é latente. Apesar dos frequentes alertas de autoridades do Federal Reserve, executivos de grandes companhias, líderes políticos e ministros de finanças sobre a gravidade da conjuntura econômica, alguns sinais de irracionalidade entre os investidores continuam intactos. É algo preocupante.

Vamos mencionar apenas um: em abril, o percentual de recomendações de “compra” para ações que formam parte do índice S&P500 atingiu o pico em, pelo menos, 12 anos, de acordo com um estudo da FactSet.

Como pode?

Estamos em meio à maior crise alimentar e energética em décadas e próximos de uma recessão global, dois anos depois do choque causado pela pandemia do coronavírus. A insatisfação social pela alta inflação já se alastra pelo Oriente Médio e América Latina, no Sudeste da Ásia e no Norte da África. Um governo já caiu no Paquistão e outros perigam, no Sri Lanka, no Peru …

O ciclo de alta de juros mais agressivo em 17 anos nos EUA é iminente. Para o Deutsche Bank, o problema é que isso não será capaz de ancorar as expectativas futuras de inflação, resultante de problemas de oferta.

A guerra na Ucrânia não parece que vai acabar em semanas – e sim em meses, ou anos. De fato, ela envolve uma potência nuclear que não sente o menor pudor em levantar o risco de um confronto do tipo.

Por outro lado, o mais recente surto de Covid-19 freou a segunda maior economia do mundo, paralisando a rotina na capital Pequim e na segunda maior cidade, Xangai. Os gargalos logísticos causados pela crise da pandemia têm piorado agora que as economias estão reabrindo. E, desta vez, os balanços de muitos setores nos EUA não estão correspondendo às expectativas.

Profetas sempre alertam de coisas terríveis.

Na religião, profeta é aquele que entra em contato com um ser divino e diz que fala em nome dele, servindo como intermediário com a humanidade, transmitindo mensagens ou ensinamentos da fonte sobrenatural para outras pessoas.

No meu caso, eu não faço nada disso. Eu simplesmente repasso coisas que estão aí – coisas essas que possivelmente você, investidor, pode ter ignorado ou nas quais pode não ter prestado atenção.

Vamos repassar os problemas e as pioras do começo do segundo trimestre.

Comecemos pelos EUA. Em abril, a maionese parece ter desandado por lá. Nesta semana, o índice S&P500 chegou a ter o pior desempenho em 25 meses. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano atingiram o máximo patamar desde dezembro de 2018, perto de 3%. O índice VIX, que mede a volatilidade esperada para o mercado de ações, disparou mais de 50%.

Segundo dados da Refinitiv, o somatório dos consensos para as receitas das companhias listadas nos EUA que divulgaram seus balanços até 27 de abril devia ter atingido US$1,06 trilhão. Até agora, o valor aferido foi de US$981 bilhões.

Na Europa, a invasão russa à Ucrânia acelera a inflação e prolonga a falta de gás, petróleo, trigo e milho. A Alemanha enfrenta a maior alta de preços desde antes da queda do muro de Berlim e a falta de gás pode desligar temporariamente sua poderosa indústria.

Na China, a economia deve desacelerar neste ano, pelo impacto da política de Zero Covid-19 e pelo esfriamento da demanda agregada no Ocidente. Os gargalos logísticos recentes incendiaram a inflação no médio prazo. Um indicador preditivo de movimentação nos portos chineses mostra que a atividade pode atingir, em maio, patamares tão baixos quanto os da pandemia.

Curiosamente, analistas parecem não acreditar que todo esse cenário apocalíptico possa ser negativo para as ações. Também é curioso demais que o S&P500 esteja próximo dos 4.200 pontos de junho passado – quando quase ninguém falava de recessão ou de estagnação.

Ah! E isso porque eu ainda nem falei do “Sell in May and Go Away” …

DISCLAIMER: Felipe Corleta é colunista e editor da Mover. As opiniões dele não necessariamente refletem a posição da Mover

Texto: Felipe Corleta
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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