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Grandes bancos devem ficar mais competitivos com juros em alta

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Grandes bancos devem ficar mais competitivos com juros em alta

Em detrimento de fintechs e bancos digitais, os bancões devem ser favorecidos em 2022 pela alta nos juros, somada à inflação e inadimplência

Grandes bancos devem ficar mais competitivos com juros em alta
iolanda

Atualizado há 5 meses

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São Paulo, 30 de dezembro – O movimento de alta dos juros, somado à inflação e ao crescimento da inadimplência, em ambiente de baixo crescimento econômico e de menor expansão no volume de empréstimos, são fatores que devem favorecer os grandes bancos em 2022, enquanto fintechs e bancos digitais devem ser penalizados por essas condições macroeconômicas adversas, avaliam especialistas ouvidos pela Mover.

“Os incumbentes, como são conhecidos os bancos maiores e tradicionais, retornam a um ambiente ao qual já estão acostumados, incluindo a perda de renda e do poder de compra dos brasileiros”, explica o analista da Guide Investimentos Rodrigo Crespi.

Enquanto isso, as fintechs e os bancos digitais, que ganharam mais corpo a partir de 2010, têm pouca experiência nesse cenário mais desfavorável, acrescenta Crespi.

“Se o ano de 2021 foi de retomada para o setor bancário, calcado na reação econômica após o momento mais agudo da pandemia, 2022 será um ano de acomodação”, aponta Rafael Reis, do BB Investimentos, em relatório de análise do setor.

Para Reis, a maior parte dos bancos já retomou o “voo de cruzeiro” do lado operacional, e a previsão de juros mais elevados em 2022 “sugere benefícios para os bancos por conta do espaço para recomposição de spread”, que é a diferença entre os juros que os bancos pagam pelos recursos tomados e aqueles cobrados em financiamentos e empréstimos.

Com a concorrência das fintechs e bancos digitais, além das baixas taxas de juros que vigoraram até meados de 2021, as instituições maiores viram seus spreads espremidos. A estimativa de taxa básica de juro, Selic, de 11,5% ao final de 2022, pode contribuir para um aumento nessas margens, estima Crespi.

Como os bancões têm mais acesso a recursos, o chamado funding bancário utilizado para a concessão de crédito, e a preços mais baratos que fintechs e bancos digitais, estes últimos tendem a ver suas margens mais comprimidas, especialmente diante da menor liquidez devido à redução de estímulos às economias mundo afora com a pandemia sob controle.

Crédito desacelera

Entre as principais fontes de lucros dos bancos, os empréstimos e financiamentos devem cair ante a expansão prevista pelo Banco Central para este ano, de 14,6%, e mesmo diante da perspectiva da Federação Brasileira de Bancos, de 12,7%. A Febraban projeta alta de 7,3% para a carteira de crédito total ano que vem. Já o BC estima crescimento de 9,4% para o estoque total.

A redução é explicada pelo baixo crescimento previsto para a economia, com o Produto Interno Bruto do país subindo menos de 1% no próximo ano, o que representa baixo investimento público e privado, e deterioração do mercado de trabalho.

Na ponta do lápis, os especialistas colocam ainda a inflação corroendo o poder de compra dos brasileiros, que já viram sua renda cair em 2021 ao menor patamar desde 2012.

Baixo crescimento da economia, renda e mercado de trabalho comprimidos desestimulam a busca de empresas e pessoas físicas por crédito, que também estará ainda mais caro com o aumento previsto para a taxa de juros.

Na opinião dos especialistas, essa piora das expectativas econômicas, além de reduzir a expansão das carteiras de crédito, pode levar também a uma escalada da inadimplência em 2022 – atualmente no patamar de 4,3% para pessoas físicas e de 1,6% para empresas, segundo o BC.

“Os bancos maiores também já estão acostumados com índices mais altos de inadimplência. Esperavam aumento forte no volume de operações em atraso em 2021, o que não se confirmou. Contudo, fizeram altas provisões e estão preparados para um possível aumento em 2022”, ressalta Crespi.

Lucros em alta

A deterioração das perspectivas econômicas, contudo, não deve arrefecer os ganhos dos bancos em 2022, diz relatório do BTG Pactual. O documento aponta os bancos brasileiros lucrando 10,9% mais ante 2021.

Segundo o relatório, as instituições devem apresentar lucro consolidado de R$96,92 bilhões, comparativamente aos R$87,39 bilhões previstos para 2021.

Considerando os ganhos estimados para todos os setores econômicos analisados, o BTG espera que o lucro consolidado das empresas cresça 9,4% em 2022, “o que significaria um lucro adicional de R$ 20,2 bilhões. Desse total, R$ 19,1 bilhões devem vir de bancos, varejo e serviços básicos”, afirmam os analistas, liderados por Carlos Sequeira.

Os ganhos com operações financeiras devem colaborar bastante para esses resultados, favorecendo, especialmente, as instituições com forte atuação nas áreas de “investment banking” e seguros, cujos prêmios arrecadados são investidos, observa Crespi.

O analista da Guide destaca na área de “investment banking” a possibilidade de maior ritmo nos processos de fusões e aquisições, com redução das operações de abertura de capital.

Os IPOs, sigla em inglês para oferta inicial de ações, devem diminuir diante do cenário mais hostil para a renda variável, de baixa liquidez e juros altos, que levam investidores a outras modalidades de aplicação.

“Assim, as empresas mais fragilizadas devem buscar associações com outras e as que têm caixa irão às compras”, afirma Crespi, acrescentando que essas operações oferecem maiores margens aos bancos.

“A rentabilidade dos bancos brasileiros é muito alta, muito acima de vários outros países desenvolvidos, e dificilmente ela corre risco, porque eles sabem se reinventar”, diz.

Para Crespi, as ações do bancões também devem ter desempenho melhor em 2022 em comparação aos papéis de fintechs e bancos digitais, explicado pelo mesmo cenário desafiador, no qual os investidores buscam aplicações mais defensivas.

“Eles conseguem remunerar melhor os acionistas. Estão entre os maiores pagadores de dividendos”, acrescenta.

No acumulado de 2021, o Índice Financeiro, IFNC, está entre os índices da B3 que registraram as maiores perdas, com quase 25% de recuo.

Texto: Iolanda Nascimento
Edição: Gustavo Boldrini e Renato Carvalho
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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