0

Guerra na Ucrânia pode acelerar crise alimentar sem precedentes no mundo

mercados

Guerra na Ucrânia pode acelerar crise alimentar sem precedentes no mundo

A crise alimentar acontece em um momento de aparente recuperação mundial, mas em que a oferta não conseguiu acompanhar a demanda reprimida

Guerra na Ucrânia pode acelerar crise alimentar sem precedentes no mundo
tcuser

Atualizado há 25 dias

Ícone de compartilhamento

Washington/São Paulo, 20 de abril –  Dois anos após ter sofrido com as consequências da primeira pandemia do século 21, países ricos e pobres podem enfrentar um problema ainda pior: uma crise alimentar, com a escassez inédita de grãos e fertilizantes em meio a uma guerra em um importante enclave agrícola e a elevações nos juros globais para combater a inflação.

Poucas semanas depois do afrouxamento das restrições sanitárias relacionadas à Covid-19, a inflação alimentar no mundo atingiu níveis recordes, disse a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, conhecida como FAO. A invasão russa à Ucrânia, iniciada em fevereiro, exacerbou a disparada de combustíveis, fertilizantes e produtos agrícolas – cujos preços já sentiam os entraves logísticos e de produção causados pela pandemia, assim como a crise climática que ameaça a segurança alimentar mundial há anos.

À medida que as zonas rurais da Ucrânia viraram campos de batalha, a incerteza em torno das exportações agrícolas do país impulsionou os preços mundiais de trigo, milho, soja, fertilizantes e óleo de girassol em pelo menos 30% em questão de semanas. Rússia e Ucrânia, membros do seleto grupo de celeiros do mundo, respondem por 30% da oferta mundial de trigo, 62% de óleo de girassol e mais de 20% de fertilizantes potássicos, mostram dados do Banco Mundial.

A pandemia aumentou a estimativa de famintos no mundo em “mais ou menos 100 milhões em 2021, o que elevaria o total para a casa de 1 bilhão, ou mais. Esses dados, em si já assustadores, ainda não incluem os efeitos da guerra, que só devem ser calculados mais adiante”, disse à Mover o ex-diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, que também idealizou o programa “Fome Zero” no Brasil.

Paradoxalmente, a crise alimentar acontece em um momento de aparente recuperação mundial, mas em que a oferta de bens e serviços não conseguiu acompanhar a demanda reprimida. Os atrasos na cadeia de suprimentos e o reordenamento no mercado global de trabalho também puxaram a inflação, mas o conflito na Ucrânia foi o gatilho para disparadas mais violentas nas commodities – que devem piorar profundamente as condições sociais.

Se as economias mais frágeis sofrem mais com as restrições de oferta física de alimentos causadas pelo conflito, a inflação subsequente deve impactar o mundo inteiro. O relatório “Estado da Insegurança Alimentar e Nutrição do Mundo”, divulgado em julho pela ONU, apontou que 2,3 bilhões de pessoas, ou 30% da população global, não tiveram acesso a uma dieta adequada ao longo do ano de 2020.

Desde então, o trigo e o milho mais do que dobraram de preço, enquanto o índice que permite à FAO calcular as oscilações nos alimentos já disparou 60%. No mesmo período, a renda per capita no mundo avançou pouco menos de 10%.

Armazenamento especulativo

Com o conflito, os países mais ricos pararam de usar os estoques de trigo e outros grãos para mitigar oscilações de preços, gerando armazenamento especulativo e inflação no Oriente Médio, no Norte da África e na América Latina.

Desde o início do ano, o contrato contínuo do trigo já subiu mais de 43%, enquanto o preço da cevada disparou 99%. O contrato mais popular para a soja acumula alta de 26% em Chicago, enquanto o do milho sobe 35%. Todos esses itens estão perto das suas cotações mais altas em pelo menos dez anos.

Já o petróleo Brent no mercado internacional sobe 38%; o gás natural avança 94% nos Estados Unidos e mais de 340% na Europa; e o carvão sobe 120%.

Como uma forma de mitigar o impacto da menor oferta e dos efeitos gerados pelas sanções que as potências ocidentais impuseram à Rússia pela invasão da Ucrânia, a Secretaria do Tesouro dos EUA decidiu ontem reduzir os riscos à segurança alimentar.

Em comunicado, o Tesouro americano informou que reforçaria as redes de segurança social para as pessoas mais vulneráveis, “desbloqueando o financiamento do comércio para suavizar as cadeias de suprimentos interrompidas para alimentos e suprimentos críticos, fortalecendo a produção doméstica dos países e abordando os impactos macroeconômicos da crise naqueles mais afetados”.

De qualquer maneira, essas medidas chegaram tarde: o coquetel de menor oferta, estoques armazenados e volatilidade de preços gerou tanta instabilidade política e social em regiões desfavorecidas, que muitas comunidades, especialmente as mais pobres, foram levadas ao limite pelo aumento exagerado no custo de vida.

Crise alimentar: a pior em 15 anos

Os protestos e as greves registradas em Irã, Iraque, Paquistão, Peru e Sri Lanka desde meados de março são uma amostra dos riscos da atual crise alimentar, que se apresenta como a mais grave em 15 anos, de acordo com organizações multilaterais, analistas e especialistas consultados pela Mover.

A crise alimentar atual relembra os efeitos do último grande aumento nos preços globais de alimentos, entre 2007 e 2008, que se tornou o catalisador para a chamada Primavera Árabe, que derrubou governos de longa data na Tunísia, Líbia e Egito entre 2010 e 2012, desencadeou a guerra civil da Síria e uma das piores crise de refugiados na história da Europa.

“No curto prazo, o choque afeta mais fortemente algumas das áreas mais pobres e politicamente mais instáveis do mundo”, disse a diretora de pesquisa de meio ambiente, sociedade e governança da Algebris Investments, de Londres, Silvia Merler. “A pergunta que sobra é: qual será o efeito real de todos os problemas na segurança alimentar e nos preços dos alimentos ao longo do tempo?”, questiona.

As limitações na oferta de alimentos e fertilizantes causados pela guerra atingem um mundo que já sofria com o acirramento da fome e da desnutrição por conta da pandemia de Covid-19.

No topo da lista dos países mais afetados pelas interrupções causadas pela guerra estão Líbano, Tunísia e Etiópia, que compram da Ucrânia 64%, 49% e 31% do trigo que consomem diariamente, respectivamente, de acordo com a FAO.

Em março, o Egito, maior importador per capita de trigo do mundo, pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional para apoiar as finanças públicas em meio à alta sem precedentes na gasolina e no pão. Como medida desesperada para enfrentar a crise, o governo egípcio decidiu, mês passado, tabelar o preço dos pães.

No entanto, a falta de alimentos e a carestia deverão permanecer nos próximos meses, e o efeito será sentido em todo o mundo – mesmo em países que não dependam muito da Ucrânia ou da Rússia para importações de grãos, disse Merler.

‘Bagunça’

Em Sri Lanka, o governo teve de decretar toque de recolher para controlar manifestações contra a falta de gás e alimentos básicos. A inflação de dois dígitos corroeu o apoio ao governo do premiê paquistanês Imran Khan, que deixou o cargo em abril. No Peru, pelo menos oito pessoas morreram neste mês em protestos contra as altas nos alimentos e nos combustíveis.

O caso do país andino exemplifica como muitos governos, ainda pressionados com os altos custos que a pandemia impôs em seus orçamentos, ainda não sabem como lidar efetivamente com a crise alimentar.

Em março, o governo do presidente peruano Pedro Castillo declarou estado de emergência no setor agrícola, culpando a guerra na Ucrânia pelo possível desabastecimento de alimentos básicos.

O povo não engoliu o motivo e, quando o governo disse que a inflação tinha atingido um pico de 26 anos, milhares de pessoas saíram para as ruas e as estradas para pedir a renúncia de Castillo.

Uma delas, Milagros Huaman, disse que o que mais a exasperou foi ver o custo da farinha de trigo, da cenoura e do açúcar, alguns dos insumos que utiliza em sua confeitaria, mais do que triplicar desde o início de fevereiro sem que Castillo, um ex-líder sindicalista eleito no ano passado, “fizesse praticamente nada” para impedi-lo.

“Mesmo que a guerra na Ucrânia tenha sido o motivo por trás de tudo isso aqui, há um desgoverno total e ninguém, depois de dois anos de pandemia, está a fim de aguentar uma bagunça dessas proporções”, disse Huaman, cuja confeitaria Fausta Pasteleria Casera vende bolos, doces e alfajores no bairro de classe média-alta de San Isidro, em Lima, capital do país.

Brasil, Argentina

Além da dificuldade de saber quando a guerra na Ucrânia pode acabar, Graziano comentou que é difícil mensurar o impacto no longo prazo dos boicotes comerciais sobre a Rússia, principalmente para os países dependentes de alimentos, petróleo e fertilizantes produzidos na região onde o conflito acontece.

“O aumento de custos em função do preço de petróleo, derivados e fertilizantes pode reduzir muito a produtividade da próxima safra na maioria dos países produtores e, aí sim, teríamos um agravamento da crise alimentar”, disse o ex-diretor-geral da FAO.

A combinação de uma eventual redução na produtividade da próxima safra com um acirramento de medidas protecionistas, como a proibição de exportações, pode levar a uma piora da crise de abastecimento global, disseram ele e outros especialistas consultados pela Mover.

Para quem é produtor de alimentos, como o Brasil, em um primeiro momento restringir as exportações para garantir o abastecimento interno pode parecer uma boa ideia. Mas restringir ainda mais o fluxo de comércio pode piorar a situação.

Por exemplo, o Brasil, maior exportador de soja, café e suco de laranja congelado do mundo, importa fertilizantes, dos quais 40% são potássicos, cujos principais fornecedores são Rússia e Bielorrússia. Antes do conflito, os agricultores já estavam reduzindo as plantações pela disparada nos preços dos combustíveis e de alguns fertilizantes.

Na Argentina, segundo maior exportador de milho e de soja processada do mundo, a escolha do governo foi controlar os preços internos para conter a inflação.

Gerindo estoques

Dessa forma, gerir estoques inteligentemente e coordenar políticas entre países exportadores e consumidores para aumentar a oferta global de grãos pode ser uma solução temporária à oscilação violenta de preços, disse o vice-presidente para Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial, Juergen Voegele.

“Os países devem evitar políticas que gerem efeitos em cadeia no suprimento e nos preços, como, por exemplo, acumulação de commodities, restrições à exportação e controles de preços”, informou o FMI em nota enviada ao Scoop.

Voegele, do Banco Mundial, vai na mesma linha e defende a manutenção do mercado de commodities aberto. “Se você quer apoiar sua própria população, faça de uma maneira diferente, mas não bloqueie o fluxo de alimentos”, disse.

Citando dados do International Food Policy Research Institute de Washington, Graziano disse que, após o início da guerra, o número de países que passaram a adotar medidas de restrição de exportações de alimentos passou de três para 17.

“Somente essas medidas já afetam cerca de 17% do total de calorias comercializadas no mundo”, disse Graziano. No início da pandemia, 21 países adotaram essas restrições, “mas rapidamente voltaram atrás quando notaram que não houve aumento, mas queda no consumo”, apontou.

Inflação e juros

Segundo o FMI, o aumento do preço dos alimentos pode empurrar para cima os índices gerais de inflação no mundo todo e, consequentemente, acelerar o aumento das taxas básicas de juros em diferentes países.

O Índice de Preços de Alimentos da FAO saltou 12,6% em março ante fevereiro, alcançando seu maior patamar desde a criação do indicador, em 1990. Segundo a FAO, a escalada de preços decorre de altas recordes verificadas em itens como óleos vegetais, cereais e carnes.

O pior é que o cenário de uma crise alimentar pode gerar uma situação que retroalimenta a própria inflação, disseram economistas ouvidos pela Mover. Mesmo com os bancos centrais utilizando os juros básicos para ajudar a conter a disparada nos preços ao consumidor, os governos podem ter de lançar mão de medidas fiscais para que suas populações consigam comprar alimentos – o que também pode pressionar a inflação.

“As interrupções no fornecimento induzidas pela guerra, notadamente para alimentos e energia, aumentarão o custo de vida, particularmente para as famílias de baixa renda. O apoio fiscal direcionado para essas famílias pode ajudar a amortecer o impacto”, informou o FMI em nota ao Scoop, destacando também a possibilidade de elevação mais rápida dos juros em muitos países.

Enquanto a ajuda direta para famílias mais vulneráveis é vista como um paliativo à crise alimentar, protegendo o poder de compra das mais pobres com programas de proteção social bem direcionados, a tentação de subsidiar os preços dos alimentos deve ser evitada, disse Voegele, do Banco Mundial.

“Por exemplo, subsidiar pão em todos os níveis de renda é apenas muito caro para os governos. É regressivo. Incentiva o desperdício de alimentos e pode ser muito difícil corrigir uma vez que a crise termine”, apontou.

Com a experiência de quem já liderou um grande programa de combate à fome, Graziano acredita que a melhor maneira de fazer frente à atual crise alimentar é tentar aumentar a produção global de petróleo, derivados e commodities agrícolas.

*Esta é a primeira de uma série de matérias desenvolvidas pelas equipes da Mover e do Scoop by Mover sobre a crise alimentar global e o conflito na Ucrânia

Texto: Leonardo Goy, Bruna Narcizo e Felipe Corleta
Colaboração: Vinícius Martins, Bruna Chieco, Machado da Costa, Luciano Costa, Gustavo Boldrini e Artur Horta
Edição: Guillermo Parra-Bernal, Renato Carvalho e Allan Ravagnani

relatorios
image

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.