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Invasão da Ucrânia provoca turbulência em mercados

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Invasão da Ucrânia provoca turbulência em mercados

Invasão na Ucrânia aumenta a pressão na economia global, que sofre com sequelas financeiras da pandemia e inflação mais intensa em 40 anos

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Atualizado há 3 meses

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São Paulo, 24 de fevereiro – Investidores no Brasil e mundo afora procuraram hoje intensamente por ativos mais seguros, após a Rússia iniciar invasão com um amplo e rápido ataque militar à Ucrânia desde a madrugada, derrubando bolsas e ativos de riscos que só se recuperaram depois que os Estados Unidos detalharam as sanções que deverão ser impostas à Rússia.

O movimento russo, que incluiu ataques aéreos e terrestres à infraestrutura ucraniana e deixou dezenas de mortos, foi condenado pelo presidente americano Joe Biden e líderes na Europa.

A invasão na Ucrânia aumenta a pressão na economia global, que sofre com as sequelas financeiras da pandemia do coronavírus e a espiral inflacionária mais intensa em quatro décadas.

Ainda ao amanhecer, forças russas começaram ataques com morteiros e mísseis, invadindo o território ucraniano pelo norte, leste e pelo litoral ao sul, iniciando confrontos com soldados ucranianos.

Milhares de civis ucranianos tentaram fugir das cidades mais atacadas. Ao entardecer, forças especiais e paraquedistas já se aproximavam da capital Kiev. Até a malfadada usina nuclear de Chernobyl acabou sob o controle russo.

Nesse contexto, a busca global por proteção derrubou os principais índices acionários americanos. O Índice CBOE VIX, métrica da cautela nos mercados, chegou a operar no nível mais alto em um mês.

Consequentemente, o ouro e o preço dos Treasuries americanos, que normalmente sobem em tempos de estresse, avançaram. O petróleo Brent, contrato de referência global para a commodity, superou os US$100 o barril pela primeira vez desde 2014.

O índice referência MOEX da bolsa de Moscou chegou a cair 45%, pior queda na história, enquanto a Ucrânia fechou seus mercados devido à imposição da lei marcial.

Os reflexos da invasão da Rússia à Ucrânia no Brasil, cujos mercados são altamente dependentes da mobilidade global de capital e os preços das commodities, não se fizeram esperar. O índice Bovespa caiu 0,68%, e o câmbio voltou a se desvalorizar na B3, com o real registrando perda maior do que moedas pares emergentes.

“Olhando as reações do mercado, ficou muito claro que esses ataques militares não estavam precificados, apesar dos alertas do governo dos Estados Unidos nas últimas semanas”, disse Andrey Nousi, consultor e fundador da Nousi Finance, em entrevista à TC Rádio.

Os juros futuros na B3 seguiram o câmbio e subiram, refletindo maiores riscos inflacionários. De acordo com traders, a intensa volatilidade forçou o Tesouro Nacional a reduzir a oferta de títulos prefixados no leilão semanal de dívida hoje, em que não vendeu nenhum dos títulos com taxas pré-fixadas, conhecidos como NTN-Fs.

O olhar dos investidores está fixado agora no tamanho e escopo das novas sanções das potências ocidentais à Rússia – e como isso poderia impactar ainda mais o desempenho econômico mundial, disse Paul Donovan, economista-chefe do UBS Wealth Management, em nota a clientes.

“O aumento das sanções pode ser mais disruptivo economicamente. É importante ressaltar que esta é a primeira guerra europeia com um identificador de Twitter em tempo real”, disse.

De igual forma, o investidor analisa o início de uma era em que o poderio dos Estados Unidos fica sob forte escrutínio, por conta da ascensão da China como potência global e da relutância da Rússia em se adequar às demandas de segurança do Ocidente.

De olho no Biden

No meio da tarde, os mercados deram sinais positivos, durante e após um discurso do presidente americano Joe Biden, indicando que investidores viram as sanções como menos disruptivas do que o esperado para as grandes economias globais.

Biden também reiterou que não pretende tomar a dramática medida de enviar soldados americanos para solo ucraniano.

Os EUA congelarão ativos de bancos russos em território americano, impor limitações à capacidade russa de negociar com moeda estrangeira, restringir exportações americanas à Rússia e um corte em mais da metade das importações russas de alta tecnologia. Biden não anunciou sanções pessoais contra Putin.

A União Europeia, os EUA e o Reino Unido prometeram sanções mais duras à economia e ao setor financeiro da Rússia devido à invasão na Ucrânia.

Após o pronunciamento do presidente americano, o petróleo Brent futuro arrefeceu alta para 2,00% e perdeu o patamar dos US$100 atingido durante a madrugada desta quinta-feira.

As bolsas americanas também viraram suas direções. O índice S&P500 fechou em alta de 1,50%, após atingir queda de 2,58% próximo à abertura. O Dow Jones que recuou 2,50% após a abertura, fechou em alta de 0,28%. O índice Nasdaq 100 se destacou entre os índices americanos com avanço de 3,44%, após alcançar queda de 3,29% ao longo do dia.

Além disso, o contrato de ouro futuro também refletia o maior otimismo do mercado, caindo 0,7%, depois de atingir alta de 3,49% no dia.

O índice de volatilidade VIX caía 5% ao final do dia.

“Os Estados Unidos não foram capazes de colocar nenhuma sanção que realmente ameaçasse a Rússia, e a Europa ‘nem se pronunciou’. O mercado mais uma vez gostou e terminou o dia longe das mínimas e do pico do pânico do começo da manhã”, resumiu Fernanda Pereira, contribuidora de renda fixa e macro reading do TC.

Próximos passos

O presidente russo Vladimir Putin disse ontem que a Rússia não planejava ocupar a Ucrânia e reiterou que a ação militar lançada na madrugada se tornou necessária depois que os Estados Unidos e seus aliados se excederam ao expandir a aliança da Otan.

Mais tarde, agências russas relataram que o Kremlin estava disposto a negociar uma rendição da Ucrânia, mas não houve resposta conhecida por parte do governo de Kiev.

O governo ucraniano, inclusive, disse que se preparava para enfrentar uma nova onda de ataques russos, incluindo ações aéreas.

O saldo trágico do dia, pelos relatos iniciais, foi de 40 soldados ucranianos mortos, segundo oficiais, com dois helicópteros e sete aviões russos abatidos. Já o Ministério de Defesa russo disse que destruiu mais de 70 alvos militares, incluindo 11 aeroportos, um helicóptero e quatro drones ucranianos.

Autoridades americanas disseram que forças russas já se aproximavam de Kiev, indicando que a sexta-feira ainda será tensa na região.

“Mesmo que o conflito na Ucrânia não seja muito prolongado, as consequências irão durar por muitos anos. Acredito numa polarização, como nos tempos da Guerra Fria, com elementos de guerra híbrida e conflitos periféricos. Apenas não temos um componente ideológico tão claro”, disse Vicente Ferraro, cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da USP, também em entrevista à TC Rádio.

Texto: Gustavo Bonato
Edição: Renato Carvalho
Imagem: Vinícius Martins / Mover

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