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Juros podem não ser suficientes para controlar inflação, dizem especialistas

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Juros podem não ser suficientes para controlar inflação, dizem especialistas

O 2º semestre será mais desafiador, com inflação alta, atividade fraca, câmbio depreciado, pressão em ativos e eleição, disseram economistas

Juros podem não ser suficientes para controlar inflação, dizem especialistas
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Atualizado há 7 dias

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São Paulo, 12 de maio – Eventuais altas de juros pelos bancos centrais de todo o mundo podem não ser suficientes para amenizar a inflação global, provocada principalmente, neste momento, pelo choque de oferta em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia, apontaram especialistas à Mover.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo, IPCA, considerado o indicador oficial de inflação no Brasil e que direciona as metas do Banco Central, apresentou alta de 1,06% em abril na base mensal, acumulando avanço de 12,13% nos últimos 12 meses.

O dado, divulgado na última quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, representou uma desaceleração frente ao mês anterior, mas, ainda assim, atingiu o maior patamar para o mês desde 1996.

Já nos Estados Unidos, o Índice de Preços ao Consumidor, CPI na sigla em inglês, subiu 0,30% no mês passado na comparação mensal, atingindo 8,30% no acumulado de 12 meses, mantendo o pior patamar em 40 anos. 

O núcleo do índice, que exclui categorias voláteis, como combustíveis e alimentação, registrou piora, sinalizando que a pressão dos preços está se espalhando pela economia. O indicador acelerou 0,60% frente ao mês anterior.

Essa escalada da inflação vista no Brasil e no restante do mundo tem raiz na crise de oferta de insumos para a indústria, segundo especialistas. A guerra entre Rússia e Ucrânia provoca uma crise de oferta. Os dois países são exportadores de importantes commodities agrícolas, como milho e trigo, além de energéticas, como gás e petróleo.

Com as últimas rodadas de sanções da União Europeia à Rússia, os países do bloco, que são dependentes do gás russo agora buscam alternativas para suprir suas necessidades energéticas.

Nessa esteira, a recente volta de duras restrições em importantes centros comerciais e financeiros na China, como parte da política de “Covid Zero” do país asiático, tem preocupado o mercado e provocado volatilidade nos preços de commodities energéticas e de insumos industriais, como o aço.

Diante desse cenário, o economista-chefe da Infinity Investimentos, Jason Vieira, avalia que a inflação no Brasil não pode ser controlada totalmente pelo Banco Central, e não será amortecida, “a não ser por uma resolução de choque de ofertas”.

“Essa inflação está se espalhando para o restante da economia, como serviços e salários. Não à toa, o mercado tem jogado as projeções para cima”, afirma o economista do Banco BV, Carlos Lopes.

Há uma tendência de leve inflexão pela frente, com o pico da inflação ocorrendo ainda neste semestre, segundo Vieira e o diretor de Investimentos da Blackbird, Bruno Di Giacomo. Já Lopes vê a máxima de preços sendo alcançada no começo da segunda metade do ano.

Caso o cenário se mantenha, as previsões da Infinity, da Blackbird e do Banco BV para o IPCA no término de 2022 é em torno de 8%, bem acima da meta do Banco Central de 3,50%, cujo intervalo de tolerância é de 1,5 ponto porcentual para mais ou para menos.

Política Monetária

O Comitê de Política Monetária do Banco Central elevou na semana passada a taxa básica de juros em 100 pontos-base, para 12,75% ao ano,  sinalizando uma nova alta de menor magnitude na próxima reunião.

De acordo com a ata da reunião, divulgada na última terça-feira, a atual política contracionista do BC ainda não foi sentida na economia, com a inflação “surpreendendo negativamente”.

O aumento de juros,usado pelos bancos centrais pelo mundo para conter a inflação, encarece o crédito, o que teoricamente esfria o consumo. Mas Lopes alerta para a limitação dessa ferramenta. “A política monetária não é feita para reagir a choques, mas aos efeitos deles sobre a economia”, explica, corroborando com a visão de que a pressão inflacionária só vai aliviar de fato quando a raiz de seu problema for solucionada.

A Blackbird Investimentos vê os juros básicos terminando o ano em 13,75% ao ano, 25 pontos-base a mais que na previsão do Banco BV. A Infinity espera que o término do ciclo aconteça na próxima reunião, a 13,25%. No entanto, as três casas admitem a possibilidade de 2022 encerrar com uma taxa maior.

Enquanto o aperto monetário brasileiro iniciou em março de 2021, os juros americanos tiveram sua primeira alta há dois meses. Atualmente, a chamada taxa Fed Funds está na faixa de 0,75% a 1,00%.

Investimentos

O aperto monetário americano pode deixar as economias emergentes menos atrativas devido à relação entre risco e retorno, de acordo com os especialistas. A perspectiva de juros em alta nos Estados Unidos impulsiona o retorno dos títulos do Tesouro, considerados os ativos mais seguros do mundo, o que diminui a atratividade de outros países mais arriscados.

Para Vieira, contudo, mesmo com o aumento de juros pelo Federal Reserve, banco central americano, ainda há espaço para o mercado brasileiro. 

“No primeiro trimestre, o Brasil se mostrou atrativo para o fluxo estrangeiro, particularmente em bolsa, porque o país é um grande exportador de commodities, que se valorizaram muito”, diz Lopes, citando os preços descontados das ações como mais um motivo.

Por outro lado, Giacomo acredita que a “festa dos investidores estrangeiros” já acabou, ao menos até passarem as eleições. “Juros americanos são capazes não só de deixar de aportar, mas tirar o fluxo do Brasil.”

Os especialistas veem o segundo semestre mais desafiador, com inflação ainda longe da meta, atividade econômica mais fraca, câmbio depreciado e pressão sobre os ativos financeiros. Além disso, consideram a eleição de outubro um ponto de atenção para os investidores.

Segundo Lopes, “a polarização eleitoral, por acirrar a disputa, em geral, empobrece o debate econômico”, o que pode trazer volatilidade ao mercado local. O economista do banco BV não espera um avanço rápido nas pautas de reformas, mas ganhos incrementais na agenda.

Proteção à inflação

Com a taxa Selic de volta a patamares elevados, a renda fixa ganhou força novamente, apontaram os economistas. O cenário é mais desafiador para a renda variável, e os investidores precisam reavaliar o portfólio, disse Vieira. No acumulado de três meses, o Ibovespa desvaloriza aproximadamente 6%.

Giacomo também considera que os ativos atrelados à taxa Selic são uma proteção à inflação. Ele ainda cita infraestrutura como um segmento protegido a longo prazo fora da renda fixa.

Texto: Letícia Matsuura
Edição: Stéfanie Rigamonti e Renato Carvalho
Imagem: Vinícius Martins / Mover

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