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maria-luiza

Atualizado há cerca de 1 mês

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São Paulo, 10 de dezembro –  A manutenção do clima morno de vendas no Natal, como aconteceu na Black Friday, e o desenho do cenário macroeconômico desafiador desanimam as perspectivas do setor do varejo e das administradoras de shoppings no médio prazo, de acordo com especialistas ouvidos pela Mover.

Na última quarta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou mais uma Pesquisa Mensal do Comércio, indicando queda de 0,1% no volume de vendas do varejo restrito, que exclui veículos, motos, autopeças e materiais de construção, em outubro ante setembro.

Foi um golpe nos consensos, que esperavam alta próxima de 0,8%, e um prenúncio de Natal mais fraco, além de um 2022 ainda mais desafiador.

O indicador já vinha de duas quedas, de 4,1% em agosto e 1,1% em setembro. Frente a outubro de 2020, o varejo restrito cedeu 7,1%, mas ainda acumula alta de 2,6% no acumulado em 12 meses.

Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio, pontua que a percepção quase unânime foi de um volume de vendas frustrante na Black Friday 2021, um termômetro, segundo ele, fidedigno para o Natal.

“O período intenso de compras em novembro sinaliza um movimento de aumento do faturamento do comércio, mas com queda no volume de vendas. É o que a CNC projeta também levando em conta as últimas divulgações do IBGE”, explica.

Inflação

Para Bentes, o setor é castigado tanto pela corrosão do poder de compra da população, com o IPCA acumulado dos últimos 12 meses na casa dos 10,74%, divulgado na manhã de hoje, quanto pela alta nos preços imposta ao varejista, que têm se aproximado da casa dos 20%, quando se compra no atacado, de acordo com levantamento da CNC.

“O aumento do faturamento do comércio, segundo o IBGE, cresce 15% na base anual, mas o volume cresce 3%, ou seja, esses 12% são corroídos pela inflação e atestam crescimento fraco no setor”.

Entre os canais, a Confederação Nacional do Comércio espera uma performance mais forte do e-commerce na comparação com shoppings e, sobretudo, com o varejo de rua. O órgão estima que as vendas online cresçam 24% na base anual em dezembro e as vendas nos shoppings, 21%. Contudo, a expectativa de crescimento no volume do varejo de rua é de 4% – ao lado do IPCA mais recente, isso representaria uma retração de quase 7%.

“Isso preocupa especialmente porque o varejo de rua corresponde a 77% de tudo o que o setor vende. Existem segmentos inteiros que não compõem o varejo de shopping ou online, como a categoria dos combustíveis”, explica Bentes.

Projeções

Para 2022, o economista da CNC pontua um cenário desafiador, com a deterioração macroeconômica e o esgotamento do crescimento de vendas no varejo oriundo do retorno da circulação de pessoas.

Na semana seguinte à Black Friday, a CNC fez um levantamento interno indicando que o varejo equiparou a movimentação dos consumidores ao nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020.

“Nos preocupa porque sinaliza que o bônus do aumento da circulação de pessoas acabou para o varejo de rua. A recuperação das margens, ainda comprimidas depois de dois anos de pandemia, agora depende das condições de consumo, do controle da inflação, do mercado de trabalho e do acesso ao crédito”, explica Fábio Bentes.

A injeção de liquidez no mercado, com o Auxílio Brasil mínimo de R$400 por família em dezembro, além do 13º terceiro salário e outras bonificações de fim de ano, aumentam a tensão a respeito da inflação por demanda.

“É natural que qualquer atividade econômica tente alocar essa injeção de recursos, mas isso pode pressionar a capacidade produtiva. O Banco Central, na tentativa de ancorar a inflação com a meta, aumenta a Selic, minando a alternativa de consumo via financiamento nos próximos meses. O custo do crédito para as famílias subiu de 37% ao ano para quase 44% ao ano em outubro de 2021”, finaliza Bentes.

Varejo e shoppings

Para além da deterioração do poder de consumo da população e das previsões não tão positivas de vendas de fim de ano, as administradoras de shoppings ainda lidam com os resquícios de descontos concedidos durante a pandemia a lojistas.

Artur Losnak, analista do TC Matrix, explica que, durante a pandemia, o custo de ocupação dos lojistas nos shoppings atingiu altos níveis, que ainda não foram normalizados. Esse custo de ocupação, quando exacerbado, leva ao aumento da inadimplência e, por fim, à vacância.

“Quando a administradora aumenta o preço do aluguel, o lojista sente o custo de operação e pede um desconto. Caso não tenha sucesso, ele começa a ficar inadimplente. O último estágio é a vacância, quando ele deixa de alugar o espaço da loja dentro daquele shopping”.

De acordo com levantamento feito pelo TC Matrix, o custo de ocupação explodiu entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020. No terceiro trimestre de 2021, caiu, mas ainda se encontra acima dos patamares pré-pandemia.

Como consequência, a inadimplência aumentou.

“Cada shopping definiu a sua estratégia, mas percebemos que Iguatemi foi mais agressiva em não dar descontos e acabou sofrendo mais vacância, observada pela queda na sua taxa de ocupação”, pontua Artur Losnak.

Losnak explica que alguns shoppings estão conseguindo ter faturamento próximo do período pré-pandemia, mas recorda que, com a inflação, em termos reais, o faturamento segue abaixo do registro de 2019.

A última divulgação do Índice Geral de Preços – Mercado, referente a novembro, mostrou uma alta de 0,02%, bem mais amena que o ganho de 0,64% de outubro, mas ainda com avanço de 16,77% no ano e de 17,89% nos últimos 12 meses. Calculado pela Fundação Getúlio Vargas, o IGP-M é o principal indexador de tarifas na correção dos contratos de aluguéis.

“Fazer esse repasse de aumento de aluguel acompanhando o IGP-M é até possível para algumas lojas de segmentos específicos, mas o pano de fundo do varejo é desafiador de maneira geral e não tolerará uma turbinada nos aluguéis”, diz Losnak.

Para o ano que vem, Atur Losnak aponta para a relação proporcional entre a performance dos shoppings e do setor varejista. “Os shoppings esperam atingir faturamento em linha com 2019 em 2022, mas se ajustarmos pela inflação, ainda estamos atrás. O shopping é um varejo turbinado: ganha um aluguel mínimo e, caso o varejista venda muito, ganha uma parte disso também”, completa o analista do TC Matrix.

Ainda, sobre a movimentação no preço dos papéis das administradoras de shoppings, Matheus Jaconeli, da Nova Futura, sinaliza para maiores quedas: “Vimos uma melhora recente, com o mercado percebendo a maior circulação de pessoas, mas esse movimento de certa forma se esgotou. O que restaram são previsões macroeconômicas negativas.

Texto: Maria Luiza Dourado
Edição: Renato Carvalho
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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