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Mães empreendedoras são resposta a um mercado de trabalho seletivo

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Mães empreendedoras são resposta a um mercado de trabalho seletivo

As dificuldades enfrentadas pelas mães no mercado de trabalho alertam para a deficiência nas políticas ESG voltadas para esse público

Mães empreendedoras são resposta a um mercado de trabalho seletivo
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Atualizado há 13 dias

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São Paulo, 8 de maio– Uma pesquisa feita pela Rede Mulher Empreendedora mostra que 68% das brasileiras que lideram seus próprios negócios começaram no empreendedorismo depois de terem filhos. Muitas mães veem na atividade uma forma de conseguir flexibilidade de horários e liberdade para poder estar mais perto dos filhos.

O resultado da pesquisa é um sintoma da forma como o mercado de trabalho lida com as mulheres que se tornam ou querem ser mães. Outro estudo realizado em 2021 pela Fundação Getúlio Vargas indicou que 50% das brasileiras empregadas ficaram sem trabalho em até dois anos após terem filhos.

A diretora-presidente da EcoCão Espaço Pet, Patrícia Sprada, é pedagoga e trabalhou por 20 anos na área da educação antes de começar a empreender. Segundo sua experiência, muitas empresas ainda fazem a opção por colaboradores do sexo masculino justamente para evitar a possibilidade de uma gravidez causar o afastamento temporário da licença-maternidade.

“A mulher precisa fazer um esforço maior para provar que sua competência está acima dessa possibilidade de afastamento. E falando especificamente do mercado financeiro, que é ‘numérico’, baseado na razão, a visão de que a mulher tem aflorada sua emoção com a maternidade pode atrapalhar na concorrência a uma vaga na área”.

Sprada ainda lembra de um problema recorrente, que é o das demissões que acontecem assim que mulheres retornam da licença. Muitas empresas temem a queda na produtividade dessas trabalhadoras, mas a entrevistada argumenta que o fato de existirem tantas mães empreendedoras mostra como elas são capazes de conciliar funções.

“Se empreender já não é uma tarefa fácil, ser mãe empreendedora prova que a mulher é capaz de gerenciar tanto um negócio próprio quanto em qualquer outra empresa, inclusive no mercado financeiro”.

Falando em licença-maternidade, outro grande problema para as mulheres é o curto período desse afastamento no Brasil, que atualmente é de apenas 120 dias. Somado a isso, tem o fato de os pais praticamente nem possuírem esse direito assegurado por lei, já que eles podem tirar apenas de cinco a 20 dias corridos.

Sprada, que é mãe e atuante no mercado de trabalho desde os 17 anos, comenta que ainda há muitas desigualdades tanto dentro de casa quanto fora, apesar de, atualmente, muitos homens dividirem as tarefas ou cuidarem dos filhos enquanto as mulheres saem para trabalhar.

“Nossa cultura vem de uma sociedade patriarcal, em que o homem é o provedor da família, é quem sai de casa e traz o maior salário para o sustento, o que interfere diretamente nessa dinâmica mulher – mãe – mercado de trabalho. Se alguém precisa deixar o emprego para cuidar das crianças, ou dividir o tempo entre os filhos, a organização da casa e o trabalho, geralmente esse alguém é a mulher”.

Mães na liderança

Segundo o Female Founders Report 2021, estudo realizado pela startup B2Mamy em parceria com o Distrito e a Endeavor, apenas 4,7% das empresas nacionais são lideradas por mulheres, ao mesmo tempo em que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, quase metade dos lares brasileiros são sustentados por mulheres.

Nesse cenário, a B2Mamy nasceu como um hub de inovação cujo propósito é “tornar mulheres e mães líderes e livres economicamente, por meio da educação, ajudando-as a empreender”, segundo a diretora financeira da empresa e mãe de dois filhos, Mariana Hagel.

A profissional conta que a startup nasceu em 2015, quando a fundadora e diretora, Dani Junco, tornou-se mãe e sentiu a necessidade de ter que abrir mão de algumas coisas na vida, além de sentir muita cobrança no ambiente de trabalho. Ela não gostaria de escolher entre a carreira e a maternidade, e tinha convicção de que era possível conciliar os dois.

A profissional explica que a iniciativa ajuda esse público a organizar suas ideias de negócio e a desenvolver suas empresas por meio de programas de aceleração, buscando o sucesso do empreendimento e possíveis parceiros para capital e aporte.

ESG

Os desafios da maternidade no mercado de trabalho chamam a atenção para a agenda de diretrizes ambientais, sociais e de governança das empresas, conhecida pela sigla em inglês ESG. Enquanto várias empresas buscam avançar em pautas de inclusão, as mães continuam na marginalidade dessas políticas institucionais.

“Quando eu tive meus dois filhos, trabalhava em ambiente corporativo. E apesar de ter tido benefícios como licença-maternidade e plano de saúde, senti que era sempre preterida nas possibilidades de promoção e novos projetos. As pessoas já partem do princípio de que uma mãe não vai poder se dedicar”, conta Hagel.

Mas a profissional apresenta uma contraposição a essa ideia. “Quando nasce uma mãe, nasce uma empreendedora. Ela tem que ter sempre novas ideias e soluções de negócios, que são alguns dos requisitos visados pelo mercado corporativo”.

Na opinião da diretora financeira, “as companhias devem pensar além dos benefícios tradicionais”. Alguns exemplos de medidas mais inclusivas para as mães citadas por ela são a existência de uma rede de apoio dentro do ambiente de negócios, flexibilidade de horário desde que elas cumpram as demandas com as quais se comprometeu, fim do preconceito sobre o assunto maternidade e igualdade na concorrência para promoções.

Texto: Beatriz Lauerti
Edição: Stéfanie Rigamonti e Renato Carvalho
Arte: Vinícius Martins

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