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‘Maior Lollapalooza da história’ marca retorno dos festivais e esperança no 'velho normal'

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‘Maior Lollapalooza da história’ marca retorno dos festivais e esperança no 'velho normal'

A diretoria da Time for Fun, organizadora do evento, espera que o Lollapalooza deste ano tenha o maior público da história do festival

‘Maior Lollapalooza da história’ marca retorno dos festivais e esperança no 'velho normal'
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Atualizado há cerca de 2 meses

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São Paulo, 24 de março – Dezenas de milhares de pessoas juntas em um espaço aberto, sem máscara, cantando, comendo e bebendo em frente a um palco: a cena, impensável até poucos meses atrás, deve fazer do Lollapalooza o marco do retorno dos grandes festivais de música para a agenda brasileira de eventos após quase três anos, prometendo turbinar o setor e reacender entre os fãs o sentimento do “velho normal”.

O evento, marcado para os dias 25 a 27 de março em São Paulo, será o primeiro dos grandes festivais a acontecer no Brasil desde outubro de 2019, quando o Rock in Rio teve sua oitava edição, e promete ter recorde de público.

“Estamos trabalhando com a expectativa do maior Lollapalooza da história. Vai ser o evento com maior público desde o início dele”, afirmou Diego Parente, gerente de Relações com Investidores da Time For Fun, que organiza o festival, em entrevista à Mover.

A empolgação da diretoria da empresa tem uma explicação simples: faz três anos que os fãs brasileiros esperam pelo Lollapalooza, após o cancelamento da edição de 2020 e o adiamento em 2021, ambos devido à pandemia de Covid-19. Ou seja, há uma forte demanda reprimida.

A expectativa da Time For Fun é de que, pela primeira vez desde a chegada do Lollapalooza ao Brasil, em 2012, todos os 300 mil ingressos sejam vendidos até o primeiro dia do evento, nesta sexta-feira.

Somando 40 mil ingressos do dia extra, quinta-feira, destinados a participantes de uma promoção, o festival deve receber 340 mil espectadores ao longo de quatro dias.

A companhia não revela as projeções de receita com o festival, mas projeta que o Lollapalooza deste ano gere 25% de seu faturamento anual – em edições anteriores, esse patamar não costumava ultrapassar os 20% segundo Parente.

Reviravolta

O setor de eventos e entretenimento, principal afetado pela pandemia, passa por uma revolução desde o início da crise sanitária.

No caso da Time For Fun, os dois anos de isolamento social trouxeram diversas mudanças na estratégia de negócios.

Parente explicou que a Time For Fun se viu obrigada a alterar completamente sua estrutura, enxugando funcionários da parte operacional e se desfazendo de três grandes casas de shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Para a companhia, o “novo normal” do setor de entretenimento é focar em grandes eventos e deixar de lado ativos que possam gerar prejuízos em momentos turbulentos, como as casas de shows fechadas.

A atratividade de concertos em locais abertos, denominados shows outdoor, também está menor.

“Os festivais são mais recorrentes e com patrocínios muito maiores. O Lollapalooza vende de 10 a 15 vezes mais do que um show outdoor, seja em alimentos, bebidas, merchandising devido à forte marca criada pelo evento… além de conseguir coletar mais dados de consumo do cliente”, explicou Parente.

Para o analista Carlos Herrera, fundador da Condor Insider, que acompanha o desempenho dos papéis da Time For Fun na bolsa, a estratégia pode fazer sentido no atual momento do mercado.

“Nos grandes festivais você tem mais espaço, onde é possível ter mais distância, portanto há menos risco de um cancelamento devido à pandemia. E o potencial atrativo é maior, porque consegue atrair diferentes estilos. Os eventos como Lollapalooza estão fazendo sucesso em outros países da América Latina também, então tudo isso é tendência”, avalia.

Concorrência

Por outro lado, Herrera alerta para a forte concorrência de empresas estrangeiras, como a Live Nation, que já vinham fincando bases cada vez mais sólidas no país antes da eclosão da pandemia e, com uma eventual melhora da economia brasileira, podem voltar com força.

“Se não tivermos outro surto, a Time For Fun pode ter um cenário pior que ela tinha antes em termos de concorrência. Antes mesmo ela estava mal, com vários concorrentes nacionais e internacionais. Ainda é muito cedo para saber o que houve com o setor no geral, por isso, temos uma visão conservadora”, diz.

Segundo Parente, da Time For Fun, a companhia “possui credibilidade e relacionamento único no país com os diversos players do mercado de entretenimento, diferenciais que são barreiras de entrada a novos concorrentes, o que deve fazer com que o mercado siga tendo players pequenos e pulverizados”.

O papel ordinário da companhia (SHOW3) acumula perdas de cerca de 26% desde 26 de fevereiro de 2020, dia no qual os mercados globais derreteram diante da ameaça da pandemia.

O ‘Novo Normal’

Ao longo da crise sanitária, surgiu um novo elemento no mercado de entretenimento: fundos de investimentos que compraram antecipadamente direitos de shows, permitindo a diversos artistas adiantar receitas com bilheterias previstas para 2022.

Um desses fundos é o Four Even FIDC, que ganhou notoriedade ao adquirir a agenda completa de shows do cantor sertanejo Gusttavo Lima em 2022 por R$100 milhões, em um negócio até então nada usual para o mercado de entretenimento brasileiro.

Com esse tipo de contrato, o fundo compra o direito de explorar a agenda de shows de determinado artista para um determinado período, vendendo depois essas apresentações por todo o Brasil e lucrando ao conseguir vender os concertos por um valor maior que o estipulado no começo.

“Para o artista, é a possibilidade dele colocar foco na carreira. Ele começa o ano com tranquilidade de que os shows já estão vendidos. Não é mais um problema dele. Como artista, tem que cuidar da imagem, da música. Isso acaba direcionando as energias para a carreira em si”, diz Paulo Marins, sócio da gestora Contea Capital, que estruturou e geriu o fundo Four Even e agora prepara o lançamento de um novo veículo de investimento com o mesmo foco.

Segundo Marins, o “novo normal” com a entrada dos fundos é uma governança cada vez maior em um setor marcado pela informalidade.

“Quando começamos a estruturar o fundo lá atrás, entendemos o quanto esse mercado trabalha com a informalidade. Uma pessoa paga, outra contrata, outra faz o meio, é dinheiro indo e vindo. Quando você começa a trazer isso para a Faria Lima, o investidor quer saber exatamente para onde o show vai, para quem o dinheiro está indo. Ele não se importa em pagar, mas quer ter certeza de que quem pagou, recebeu o serviço. Ao contribuir com essa governança, você traz o mercado para o mundo formal”, explica.

Segundo a Time For Fun, o envolvimento de fundos não é uma ameaça ao seu modelo de negócios.

“Entendemos que esse é um comportamento pontual ocorrido durante a pandemia, onde os artistas tiveram necessidade de adiantar recebíveis, porém não deve se consolidar como a regra no mercado”, disse a área de Relações com Investidores da empresa em nota à Mover.

Futuro

A pergunta que investidores e executivos do setor de entretenimento se fazem é se as empresas do ramo estariam preparadas para o baque de uma nova onda de epidemia que forçasse o cancelamento de grandes eventos.

A Time For Fun acredita estar pronta, apesar de não apostar em uma volta das restrições vistas no início da pandemia.

“Se acontecesse de novo, a gente tiraria todos os temporários da companhia, seguiríamos rodando com a estrutura mínima. Estamos muito mais preparados do que antes. Mas a gente não acha que seja um cenário provável. Quando você analisa todas as pandemias, a tendência de um vírus altamente contagioso é ficar mais contagioso e menos letal”, disse Parente, gerente de RI da companhia.

O analista Carlos Herrera, da Condor Insider, tem uma visão mais cautelosa e inclui possíveis futuras medidas de isolamento social na análise de qualquer empresa do setor.

“Como analista, devemos trabalhar com um cenário conservador, no qual seja possível ter novos surtos nos próximos meses e anos. Temos que considerar isso nos múltiplos ao observar um fluxo de dez anos. Se ainda há grande dúvida sobre setores de imóveis corporativos, shoppings e varejo, imagine como é imprevisível o futuro no segmento de shows”, diz.

Paulo Marins, da Contea Capital, afirma que a gestora já inclui possíveis cancelamentos nos contratos de todos os shows que negocia, já que a pandemia ainda não está completamente superada. “Em termos de negócios, consideramos que tudo é possível de acontecer”, diz.

Apesar do otimismo com a retomada do setor, Marins não vê grandes shows internacionais – fora os de festivais como Lollapalooza e Rock in Rio – chegando ao Brasil até meados de 2023.

“Essa demanda reprimida por shows é mundial, não só brasileira. Com isso nós vamos ter que disputar com quem paga em euro e em dólar, o que já nos deixa em desvantagem. Pensando em 2023, vai depender de situações macroeconômicas e do dólar, mas seguramente até metade de 2023 haverá um crescimento grande desse mercado de shows, mas mercado interno, com poucos internacionais”, avalia.

Texto: Gustavo Boldrini
Edição: Gustavo Bonato
Imagem: Divulgação

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