0

Multinacionais vivem dilema em meio a sanções à Rússia

mercados

Multinacionais vivem dilema em meio a sanções à Rússia

Grandes empresas globais se veem diante da difícil escolha: perder receitas na Rússia com as sanções ou sofrer "cancelamento" do Ocidente?

Multinacionais vivem dilema em meio a sanções à Rússia
giovanni-porfirio

Atualizado há cerca de 2 meses

Ícone de compartilhamento

São Paulo, 25 de março – Várias das grandes empresas multinacionais enfrentam atualmente o dilema entre a perda de receitas na Rússia ou da boa reputação construída durante décadas no Ocidente, após as sanções impostas por vários países desenvolvidos e organizações ocidentais à Rússia por causa da invasão à Ucrânia, maior conflito armado na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, que completou um mês na última quinta-feira, 24.

As sanções econômicas transformaram a Rússia em uma espécie de “pária global”, movimento que chegou ao mundo corporativo, com várias empresas interrompendo total ou parcialmente seus negócios no país – um desafio adicional em um cenário de alta de juros, especialmente nos Estados Unidos.

O movimento começou com a britânica British Petroleum, que possui ações listadas em Nova York, e foi a primeira empresa do Ocidente a suspender negociações com companhias russas em 27 de fevereiro, três dias após o início da invasão da Ucrânia.

Desde então, mais de 40 organizações de vários segmentos seguiram o mesmo caminho de impor sanções, abrindo mão de receitas no maior país do planeta em extensão territorial. Outras ainda resistem em interromper seus negócios e acabam com a reputação manchada, por não se posicionarem de maneira efetiva contra a guerra e seus efeitos devastadores.

Neste caso, o que vale mais: a perda de receitas no país com as sanções ou o “cancelamento” pelo mercado no Ocidente?

Para o professor de estratégia e gestão pública da Fundação Dom Cabral, Paulo Vicente Alves, a permanência das operações de uma empresa na Rússia no cenário atual pode causar danos diretos de reputação na marca que podem ser “irreversíveis” a longo prazo.

Por outro lado, Alves acredita que a saída da maior parte das organizações também tem como pano de fundo a pouca relevância do mercado russo para os seus negócios.

“Foi uma decisão muito rápida para a maioria das empresas, elas perceberam que era uma questão moral, além do negócio, porque o mercado russo não é tão significativo para muitas delas. Entre perder minha reputação na Alemanha, França ou Estados Unidos e perder mercado russo, adeus ao último. A conta era fácil de fazer”, disse.

Shell ‘cancelada’

Um dia depois da saída da rival British, a Royal-Dutch Shell também informou que sairia de todas as suas operações russas, incluindo uma grande usina de gás natural liquefeito, na qual detém uma participação de 27,5%, e que tem a russa Gazprom com 50% do capital, além de ser operadora.

Entretanto, uma semana depois, em 7 de março, a petroleira anglo-holandesa defendeu sua decisão de comprar um carregamento de petróleo bruto com desconto da Rússia, caracterizando a atitude como “dífícil” e dizendo que “não teve alternativa”.

A Shell foi fortemente criticada pela atitude, o que gerou, inclusive, uma manifestação negativa do ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, que questionou a companhia no Twitter dizendo: “O petróleo russo não cheira a sangue ucraniano para vocês?”.

Após a repercussão negativa, no dia seguinte, o diretor-presidente da Shell, Ben van Beurden, veio a público se desculpar pela atitude, informando que não só interromperia todas as compras de petróleo russo como também destinaria os lucros do volume que restava a ser processado a um fundo de ajuda humanitária para a Ucrânia.

Em um aspecto macro, Vicente avalia que, além da questão financeira, as sanções por parte de empresas também vão ao encontro do modelo ESG, sigla em inglês para políticas ambientais, sociais e de governança, comum a muitas empresas de grande porte.

“Quem ficou no muro, e ainda está no muro, é porque a ética não é tão forte internamente, e isso já mostra um dano na reputação intrinsecamente. Para algumas companhias, o negócio na Rússia não é tão simples assim de abandonar, porque é razoável o valor delas”, disse.

Simbologia pós-URSS

Dentre as várias empresas que suspenderam os seus negócios na Rússia, a decisão do McDonald’s é, certamente, a mais representativa.

A rede começou a operar em Moscou em janeiro de 1990, menos de três meses depois da queda do Muro de Berlim, em novembro do ano anterior. A ideia de abrir um restaurante da companhia no país era negociada havia cerca de 10 anos, como parte do processo de abertura do regime ao Ocidente.

“A entrada dessas marcas representavam uma Rússia moderna, depois de anos e anos de União Soviética. Era ter a presença de marcas globais, poder comprar McDonald’s, Coca-Cola, Pepsi, marcas de luxo, um carro estrangeiro. No imaginário do russo, era um país que estava se abrindo e mudando”, apontou Alves.

No caso do McDonald’s, a suspensão ocorreu após uma série de manifestações de consumidores, e da pressão de um fundo de pensão americano com mais de US$280 bilhões em ativos, que possui ações da companhia.

“Nossos valores defendem que não podemos ignorar o sofrimento humano desnecessário visto na Ucrânia”, disse o presidente-executivo do McDonald’s Chris Kempczinski, em mensagem a funcionários.

Apesar da interrupção no atendimento de todos os 847 restaurantes da rede na Rússia, a empresa informou que os 62 mil colaboradores na Rússia continuarão recebendo seus salários até segunda ordem. Com isso, de acordo com a companhia, o custo da medida chegaria à casa dos US$50 milhões.

Assim como o McDonald’s, outra marca bastante simbólica para o russo é a Pepsi, uma das poucas que eram permitidas na então União Soviética antes de seu colapso.

A companhia, que faturou US$3,4 bilhões no país em 2021, estaria relutante em fechar sua unidade russa devido à produção de leite e comida infantil, por exemplo, mas informou que interromperia a fabricação de refrigerantes.

De qualquer forma, de acordo com Vicente, mesmo com a Rússia reduzindo suas ofensivas na Ucrânia nas próximas semanas, já é claro que o movimento de sanções por empresas deixará a Rússia em uma situação financeira delicada, além de isolar uma geração inteira. “Para a classe média russa, para a intelectualidade, isso tudo deve ser um choque”, disse.

Perspectivas

O analista de investimentos e editor de conteúdo da corretora australiana Stake, Rodrigo Lima, aconselha os investidores a manterem uma atenção especial ao setor de commodities, mesmo em meio a um cenário de debandada de empresas.

O pano de fundo é a crescente e persistente falta global de semicondutores no mercado, que prejudicam a produção de alimentos no mundo todo justamente por causa da mecanização.

“Existem fazendeiros que protestam porque não conseguem realizar o próprio reparo em suas máquinas, porque tudo passa por semicondutores e programação. Eles estão acostumados a mexer no seu próprio maquinário, e agora isso virou um problema”, pontuou Lima.

Por outro lado, mesmo Rússia e Ucrânia sendo um dos maiores produtores mundiais de trigo e milho, por exemplo, Lima afirmou que a guerra em si acaba não influenciando tanto nesse processo.

“Apesar do conflito criar problemas para o setor logístico que opera no Mar Negro, não é uma região conhecida por sua produção ou escoamento de semicondutores, ou seja, não acaba afetando tanto esse mercado”.

Ele também chamou atenção para o ouro, à medida que investidores buscam por ativos de segurança em um cenário de elevada incerteza.

Lima recomenda também atenção às empresas tecnológicas, que têm ganhos de escala e de margem bastante expressivos. Mas a alta dos juros pressiona o custo de capital dessas empresas, que são bastante alavancadas.

“É preciso separar, principalmente, as tecnológicas consideradas pré-breakeven operacional, ou seja, que ainda não são lucrativas e geradoras de caixa, das empresas que geram caixa efetivamente. Os investidores também têm que ficar de olho na alta das taxas de juros nos Estados Unidos, que pode acontecer com maior rapidez”.

De uma forma geral, Lima acredita que o momento atual não é para tomar decisões precipitadas. “É preciso pensar em ter alguma alocação estratégica. Acho que isso tende a fazer com que o portfólio melhore a longo prazo”, diz.

Texto: Giovanni Porfírio
Edição: Gustavo Boldrini e Renato Carvalho
Imagem: Vinicius Martins / Mover

relatorios
image

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.