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O que pensam investidores estrangeiros sobre o Brasil

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O que pensam investidores estrangeiros sobre o Brasil

Fontes presentes em reunião com diretores de grandes gestoras, em março, mostraram as visões de investidores estrangeiros sobre o Brasil

O que pensam investidores estrangeiros sobre o Brasil
tcuser

Atualizado há cerca de 2 meses

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São Paulo/Washington, 4 de abril – O Brasil não é para amadores, nem para impacientes. Isso foi o que a Pimco, maior gestora global de títulos de dívida, tentou transmitir ao maior fundo de pensão dos Estados Unidos, o CalPERS, em reunião com investidores estrangeiros e diretores de grandes gestoras em 13 de março, em Sacramento, na Califórnia, disseram fontes presentes no evento ao Scoop by Mover.

A anfitriã CalPERS, que administra US$502 bilhões em dinheiro de aposentadorias de funcionários públicos na Califórnia, optou por ignorar o recado, por ora – pelo que as fontes relataram.

No encontro, que também reuniu gestores da Goldman Sachs Asset Management e da BlackRock, consultores e outros executivos de grandes casas financeiras globais, foi discutido como repensar estratégias e realocar investimentos na esteira da invasão russa à Ucrânia, contaram as fontes.

Quando o debate rumava à procura por investimentos menos problemáticos do que a Rússia, um alto executivo da Pimco buscou recolocar o Brasil na rota do chamado “Smart Money” global. Foi aí que a discussão esquentou de vez, mostrou a gravação da reunião, repassada por uma das fontes ao Scoop.

Pramol Dhawan, líder global da Pimco para mercados emergentes, sugeriu que, para o retorno dos investidores estrangeiros ao Brasil fazer sentido, o Smart Money – a verdadeira força que influencia e movimenta os mercados financeiros globais, e cuja alma é o grande investidor instituicional transnacional – precisa ficar no país por anos.

Maior economia da América Latina, o Brasil é grande produtor de commodities minerais, agrícolas e energéticas, possuidor de uma base industrial razoável e riquíssimo em recursos não renováveis. A Amazônia brasileira, por exemplo, é considerada o pulmão do mundo.

Muitas das maiores empresas brasileiras – como Vale, Suzano ou JBS – detêm posições dominantes nos mercados globais que atuam. O Brasil conta com bancos saudáveis, um mercado de capitais sólido e um ecossistema pujante de empresas de tecnologia.

Contudo, alguns dos presentes questionaram esse raciocínio, citando os recentes anos de fragilidade institucional e as posições polêmicas do presidente Jair Bolsonaro sobre temas como o meio ambiente, por exemplo, disseram as fontes.

Esses pontos cruciais, segundo esses investidores mais céticos, acabam por afastar de vez, ou, no mínimo, levam o smart money a procurar por investimentos no país que sejam menos arriscados.

Dirigindo-se particularmente a executivos do CalPERS, Dhawan reconheceu que o ciclo político no Brasil é frágil e, na maior parte do tempo, imprevisível. “Você não pode subscrever um ciclo político de quatro anos. Precisa ter uma visão de longo prazo sobre o plano de voo do país”, disse Dhawan aos presentes.

Gringo

Procuradas para comentar as informações, nenhuma das instituições citadas – Pimco, CalPERS, Goldman e BlackRock – se pronunciou até agora.

Os gringos, como os investidores estrangeiros são conhecidos no Brasil, sabem do seu valor. A BlackRock, por exemplo, é a maior gestora de ativos do mundo, com US$10 trilhões em recursos administrados.

Todos os grandes bancos e gestoras do país fazem negócios com a BlackRock – que detém participações não majoritárias em dúzias de empresas listadas na B3.

A bolsa no Brasil só sobe se os preços das commodities avançam e se o capital estrangeiro entra no país, de acordo com um estudo da Universidade Estadual de Campinas.

Em 2022, o Ibovespa avançou todos os meses e, coincidentemente, o fluxo de investidores estrangeiros foi positivo em todos eles, de acordo com a B3.

Com a guerra na Ucrânia e a alta dos juros em países como os EUA, o cenário comparativo entre economias emergentes voltou a ser mais positivo para o Brasil.

Desde a guerra comercial com os EUA, a China se tornou mais arredia com o Ocidente. A Rússia entrou em guerra com a Ucrânia e se isolou. As instituições na Índia e na África do Sul ainda são vistas com desconfiança, assim como o governo da Turquia. A dependência que a economia do México tem das importações americanas ainda preocupa.

Não restam muitos caminhos a não ser o Brasil, cujos problemas continuam os mesmos: suas commodities, seu juro básico alto, seu sistema político disfuncional.

Abraçando Lula?

No entanto, na reunião em Sacramento, os embates em relação ao Brasil ganharam contornos mais dramáticos quando o encontro debateu a posição de Bolsonaro no conflito da Ucrânia.

“Fica muito difícil explicar como você vai colocar dinheiro em um país cujo presidente se reuniu com o russo Vladimir Putin dias antes do início dos ataques, e que não quis ir a Kiev depois – o que poderia ter dado um tom mais neutro à viagem”, disse ao Scoop by Mover Maurício Moura, presidente do instituto de pesquisa Ideia Big Data.

Moura, professor da Georgetown University e que também tem fundos de pensão internacionais como clientes, nota o ceticismo desses investidores estrangeiros em relação à corrida eleitoral de outubro – que provavelmente será polarizada entre Bolsonaro e o ex-presidente e líder esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva.

“Existe uma chance enorme de o mercado financeiro internacional abraçar o Lula devido ao conflito da Rússia e a Ucrânia. Vai ficar difícil justificar, do ponto de vista simbólico, esse movimento de Bolsonaro apoiando Putin”, disse Moura.

O Brasil já enfrentava dificuldades antes em atrair a atenção e o dinheiro desses fundos por conta das posturas ambientais e sanitárias de Bolsonaro. Mas, agora, a questão geopolítica torna o problema mais difícil de resolver, apontou Moura.

A seis meses do primeiro turno da eleição, a maioria das pesquisas de opinião mostram que a intenção de voto em Lula supera a de Bolsonaro. No entanto, a vantagem de Lula está recuando.

Um gestor de dívida emergente sediado na Suíça disse ao Scoop que, desta vez, os investidores estrangeiros devem tender a não reagir violentamente nesta eleição. “No caso atual, os dois candidatos principais buscam, um na prática, outro em teoria, a reeleição”, disse.

‘Economia do futuro’

No entanto, o câmbio e os juros brasileiros devem continuar operando em ambiente de grande incerteza, independentemente de quem ganhe, disse o gestor. Isso pela forte polarização que ambos os candidatos representam – o que pode ser um obstáculo para o Smart Money voltar no médio prazo, apontou.

Os fluxos de investimento estrangeiro direto e de carteira sempre ditaram o rumo da moeda brasileira e dos mercados locais. E, em anos de eleição, esses fluxos oscilam bastante.

De acordo com dados do Banco Central do Brasil, desde 2018, o real testou mínimas históricas em trimestres em que os ingressos por exportações líquidas e fluxos de investimento somaram menos de US$30 bilhões. “É isso que o cara em Nova York, Zurich ou Londres teme: que a eleição traga mais incerteza”, apontou.

No entanto, para o Smart Money, nem todo o risco associado ao Brasil é eleição conturbada, caos político ou desordem institucional.

Greg Olafson, co-presidente de negócios alternativos do Goldman Sachs Asset Management, argumentou no encontro em Sacramento que o Brasil é e sempre será a “economia do futuro”. Ao mesmo tempo, ele frisou que “é um país incrível e uma grande oportunidade, em parte porque tem grandes perspectivas e talvez seja mais fácil de acessar”, apontou.

A abordagem ideal em países como o Brasil é estar presente localmente, participando do crescimento de seus investimentos, disse Olafson, que citou inclusive o apoio que o Goldman Sachs deu ao Nubank antes mesmo da startup abrir capital na bolsa de valores de Nova York.

Estigma

Dhawan, da Pimco, pontuou ainda que muitas análises de crédito de empresas acabam sendo rebaixadas, dependendo de onde essas empresas estão localizadas. O Brasil, infelizmente, carrega um estigma, apontou.

“Fizemos um exercício de mudarmos a casa de vizinhança, e perguntamos o que a agência de crédito falaria sobre uma empresa X se ela não estivesse no Brasil, e sim na Austrália. E encontramos que o rating aumentaria somente por conta dessa mudança”, relatou aos presentes no encontro.

Na reunião, Axel Christensen, estrategista-chefe de investimentos para a América Latina da BlackRock, disse ao CalPERS que investimentos com menor liquidez, como os brasileiros, não deveriam ser um problema para o carrego na carteira. “Quando você entra em ativos com muito baixa liquidez, é preciso fazer muita inteligência, não só dos investimentos, mas sobre quem serão seus parceiros, porque talvez você tenha que ficar mais tempo do que pensou por conta das condições de mercado”, disse Christensen.

Ele citou que é mais fácil, contudo, ter influência sobre a gestão das companhias investidas, especialmente para que elas evoluam em termos de regulação e governança.

Texto: Bruna Chieco e Leonardo Goy
Colaboração: Machado da Costa e Felipe Corleta
Edição: Guillermo Parra-Bernal
Imagem: Mover

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