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Petrobras: Adriano Pires escolhe vendas de ativos como prioridade

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Petrobras: Adriano Pires escolhe vendas de ativos como prioridade

Mesmo não intervindo imediatamente na política de preços de combustíveis da Petrobras, o projeto de Pires satisfaria os desejos de Bolsonaro

Petrobras: Adriano Pires escolhe vendas de ativos como prioridade
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Atualizado há cerca de 2 meses

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São Paulo, 30 de março – Confirmado pelo Palácio do Planalto para assumir a presidência da Petrobras no mês que vem, o economista e guru do setor energético Adriano Pires pretende colocar à venda áreas consideradas menos nobres dentro da estatal, como refinarias, térmicas, gasodutos e poços de petróleo fora do pré-sal, segundo duas fontes próximas do executivo.

A jogada parece interessante, até porque Pires não pretende implementar políticas que barram de forma imediata as altas nos preços dos combustíveis, disseram as fontes, que pediram ao Scoop by Mover anonimato para falar livremente sobre os planos dele na Petrobras.

Dessa forma, Pires chega na Petrobras com propostas que visam evitar, ou minimizar, os prejuízos para o acionista minoritário, castigado por décadas de voluntarismo na política energética do país. Controlador da petroleira, o governo brasileiro já mudou o comando da Petrobras na média a cada 1 ano e sete meses. Se confirmado, Pires se tornará o 40º diretor-presidente em 68 anos de história da companhia.

Mesmo não intervindo imediatamente na política de preços de combustíveis da estatal, o projeto de Pires satisfaria o desejo do presidente Jair Bolsonaro de tirar da Petrobras o controle dos preços da gasolina e do diesel. Se der certo, o ônus das constantes altas nos combustíveis deixaria de recair sobre o presidente da República, seja Bolsonaro ou seu sucessor, apontaram as fontes.

“O problema não é o preço alto. Uma política pública não relacionada à Petrobras poderia ajudar a baixar o preço na bomba. O que o Planalto não quer mais é o custo político de não acabar com a paridade internacional da Petrobras”, disse um alto funcionário da Casa Civil ao Scoop.

Procurada, a Petrobras não comentou as informações. Pires não respondeu aos questionamentos do Scoop sobre seus planos para a estatal. O Palácio do Planalto tampouco comentou.

Para Luiz Carvalho, analista do UBS BB que segue o setor de petróleo e gás, a ação do governo de colocar Pires como substituto de Joaquim Silva e Luna, que no ano passado foi nomeado para comandar a Petrobras para reprimir a alta na gasolina, pode ser interpretada “como uma sinalização de que atenderá as preocupações da sociedade, mesmo que nenhuma alteração sobre as políticas de preços de combustíveis se materialize”.

Atualmente, a Petrobras só controla o preço dos combustíveis por ter posição dominante no refino e na importação de gasolina e diesel. Ao se desfazer dessas operações, as empresas privadas passam a praticar preços sem a influência da companhia — algo que a Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi, já faz como controlador da Refinaria Landulpho Alves, na Bahia.

Ao vender todo o parque de refino, o governo não teria qualquer forma de controlar o mercado, restando ao governo as políticas de compensação, como fundos de estabilização ou subsídios.

Contatos

Antes mesmo do anúncio oficial, Pires já fazia contato com pessoas que ele considera chave para ocupar as principais diretorias da companhia, com o objetivo principal de implementar um programa de desverticalização da petroleira, disseram as fontes.

É claro que Pires não acredita ser possível vender tudo isso até o fim desta legislatura. Porém, quer deixar o caminho pavimentado para o próximo presidente. “Ele deverá desverticalizar rapidamente a companhia, criando unidades produtivas independentes e, assim, facilitando a venda de tudo o que não for relacionado ao pré-sal”, disse uma das pessoas convidadas por ele.

De outro lado, Pires também esteve envolvido em embates recentes entre poderosos do setor de óleo e gás e sua ascensão à presidência da Petrobras mostra que este grupo, que reúne políticos e empresários, venceu a guerra.

A principal batalha foi travada na tramitação do projeto de lei da privatização da Eletrobras, quando uma emenda foi inserida no texto para criar a figura das termelétricas inflexíveis, com localidade pré-definida.

Essas térmicas, que ainda precisam ser leiloadas, serão responsáveis por criar uma demanda firme de gás natural no interior do país, permitindo, assim, a viabilidade econômica na construção de gasodutos.

Compass

Por meio da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado, companhias como a Compass, do grupo Cosan, que fez proposta pela Gaspetro no ano passado e aguarda resolução do Cade, e a Termogás, uma antiga sócia da Gaspetro em concessões de distribuição de gás em estados sem infraestrutura, apoiaram esse projeto. Procuradas, a Compass, a Termogás e a Abegás não comentaram até o momento.

O projeto, que provavelmente avançará mais rapidamente com a influência direta de Pires no governo, permitirá que a Petrobras possa explorar também o gás do pré-sal. Hoje, quase a totalidade é reinjetada nos campos de exploração por não ter preço competitivo.

No lado oposto deste embate, estava a Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia, um grupo industrial que busca alternativas para comprar gás pelo menor preço possível.

A Abrace acredita que a melhor alternativa para o gás do pré-sal, que é associada a uma produção do petróleo firme e constante, é o uso industrial, com efeitos para o Brasil semelhantes aos do gás de xisto para a economia dos Estados Unidos.

Os técnicos da associação entendem que a criação das térmicas inflexíveis distantes das indústrias acabaria por aumentar esse custo do gás e da energia. Procurada, a Abrace não se manifestou.

Preços de combustíveis

As duas fontes que falaram ao Scoop sobre os planos de Pires reforçaram que ele tentará ao máximo continuar com a Paridade de Preços Internacionais. Contudo, ressaltaram que ele poderá ter um cenário mais favorável do que Luna.

Na última terça-feira, 29, conversas de um cessar-fogo no conflito entre Rússia e Ucrânia, além de um lockdown parcial em áreas da China pela disseminação da Covid-19, derrubaram a cotação do petróleo. Enquanto isso, o dólar vem registrando sucessivas quedas. Perto das 10h, o contrato futuro da moeda caía 0,60%, negociado a R$4,734.

A relação entre os dois ativos é determinante para o preço cobrado pela Petrobras para a gasolina e o diesel, e, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, criará um cenário favorável a Pires.

Caso essa tendência de desvalorização do petróleo e do dólar continuem, em breve a Petrobras poderá reduzir os preços. E isso aconteceria em pleno acordo com o PPI. O Palácio do Planalto não poderia ficar mais satisfeito.

*Esta reportagem foi publicada primeiro na última terça-feira, 29, exclusivamente aos assinantes. Quer receber notícias e furos em primeira mão? Assine um dos planos do TC.

Texto: Machado da Costa
Edição: Renato Carvalho e Stéfanie Rigamonti
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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