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Atualizado há cerca de 1 mês

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São Paulo, 22 de outubro – Se o mercado não acredita no potencial de lucro das empresas brasileiras, fique tranquilo, investidor: conselhos e diretorias não devem parar com programas de recompras de ações ao longo deste e do próximo ano.

O volume de recompras de ações disparou desde julho, mês que marcou a trajetória de queda do Ibovespa. Isso sinaliza que o ciclo positivo de lucros visto após a eclosão da pandemia do coronavírus deve continuar em 2022 - reforçando a percepção de que os papéis negociados na B3 estão abaixo do seu valor justo.

Levantamento feito pela Mover com dados da B3 aponta que 36 companhias abriram programas de recompra de ações desde julho. No período há saldo comprador no mercado à vista de cerca de R$11,7 bilhões, indicando que as companhias foram recomprar suas próprias ações enquanto o Ibovespa cedia 15%..

As recompras de ações ocorrem quando companhias utilizam parte do caixa para adquirir papéis de própria emissão no mercado. Elas também são vistas como uma forma de retornar dinheiro para o acionista, dando liquidez para ele em momentos de cotações declinantes ou instáveis nos papéis de uma empresa.

Para o estrategista-chefe do TC Matrix, Hugo Queiroz, um dos motivos que levam companhias às recompras é quando estas enxergam o preço de tela abaixo do valor justo.

“Acreditamos em um PIB impulsionado por investimentos diretos e consumo das famílias no ano que vem. Nesse sentido, a trajetória crescente de receita e lucros das empresas deve continuar, então pode ser que várias empresas estejam vendo suas ações baratas”, disse.

Movimentos contracíclicos

Sócio e analista da Eleven Financial, Raphael Figueiredo destaca que as recompras de ações são movimentos contracíclicos. Ou seja, as partes relacionadas compram quando os papéis caem, e vendem quando o mercado está aquecido, inclusive em ofertas subsequentes.

“Os programas também sinalizam que a companhia prevê um cenário positivo no médio prazo, ainda não precificado”, completa.

Esse é o caso da Moura Dubeux. A incorporadora e construtora com forte atuação no Nordeste abriu um programa de recompra de até 10% de seus papéis em abril.

“Temos termômetros que mostram que nada mudará no curto e médio prazo, mas o mercado parece ignorar isso”, afirma Diogo Barral, gerente de relações com investidores da Moura Dubeux. “Fomos às compras, pois há quatro trimestres consecutivos a empresa entregou margens e lucros crescentes, além de atingir dívida líquida negativa”, disse.

Desafios

A disponibilidade de caixa é fundamental para que as empresas consigam gerar valor aos acionistas via recompras.

Contudo, vários participantes do mercado apontam um ambiente mais desafiador no ano que vem, principalmente em função da elevação da curva de juros e inflação, que impactam diretamente nos custos das empresas.

A eleição presidencial, em um ambiente polarizado, pode deixar o mercado mais sensível - impactando as operações de mercados de capitais, como as recompras, disse um banqueiro de investimento que pediu anonimato para falar livremente sobre o assunto.

Figueiredo, da Eleven, diz que dificilmente companhias com altos patamares de dívida abrem programas de recompra. Caso o fizerem, é provável que o mercado “os veja com maus olhos”, uma vez que o cumprimento das obrigações financeiras é fundamental para a continuidade das operações, disse.

'Tir Alavancada'

Queiroz, do TC Matrix, reconhece que o pagamento antecipado de dividendos em razão de uma possível taxação pode gerar certa pressão no caixa das empresas.

“Aquelas que possuem uma boa estrutura de capital podem usá-la para antecipar a remuneração, ou seja, tomar dívida para pagar dividendos. Isso já é utilizado e conhecido no mercado como uma taxa interna de retorno alavancada”, completa.

Até 19 de outubro, Gerdau e Itaúsa já sinalizaram que pretendem adiantar os proventos, caso a Reforma do IR seja efetivamente aprovada pelas casas em Brasília.

A Câmara dos Deputados já aprovou o texto da Reforma do Imposto de Renda que retoma a tributação de dividendos no Brasil, o que poderia aumentar a atratividade de programas de recompra como ferramenta de remuneração a acionistas.

“A recompra é a melhor opção em um cenário de proventos tributados. É assim que funciona nos Estados Unidos e nosso mercado tende a seguir essa linha”, avalia Figueiredo.

O analista político da Mover, Leopoldo Vieira, acredita que ainda é incerta a conclusão da Reforma do IR pelo Senado. Também há dúvidas se o relator vai alterar o texto em relação à tributação de dividendos e extinguir os Juros sobre Capital Próprio.

O senador Angelo Coronel, relator do projeto no Senado, disse ao Scoop by Mover que a alíquota de tributação de juros e dividendos será mantida em 15%, porém só passaria a valer após uma redução na alíquota do Imposto de Renda Pessoa Jurídica.

Texto: Artur Horta

Edição: Gustavo Boldrini e Guillermo Parra-Bernal

Arte: Vinicius Martins / Mover

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