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Rali da bolsa brasileira deixa Vivest com um pé atrás

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Rali da bolsa brasileira deixa Vivest com um pé atrás

Devido à valorização recente da bolsa brasileira, o gringo já estaria mais parcimonioso, trazendo dinheiro ao Brasil a uma velocidade menor

Rali da bolsa brasileira deixa Vivest com um pé atrás
bruna-chieco

Atualizado há cerca de 1 mês

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São Paulo, 7 de abril – Para Jorge Simino, um veterano com mais de quatro décadas de atuação no mercado brasileiro, o recente rali da bolsa brasileira, que puxou o Ibovespa acima dos 120 mil pontos no início de abril, pode ser mais um desses capítulos que deixará na boca do investidor local um gosto agridoce.

Simino, que como diretor de investimentos da Vivest administra R$46 bilhões em recursos e é responsável por alocar o dinheiro das aposentadorias dos funcionários de companhias como Enel, Auren e CPFL Energia, relaciona a recente alta nas avaliações da bolsa brasileira com a guerra na Ucrânia.

Para ele, o salto nas commodities atrai o estrangeiro, que, por sua vez, corre para investir em ações de produtoras de grãos, petróleo e minerais. “O gringo pensou em comprar em um país que tem ganho líquido com a alta dos preços das commodities”, afirmou Simino em entrevista ao Scoop by Mover.

Ele corrobora com a visão de que os estrangeiros estão agora saindo da Rússia, à procura de outros emergentes – tornando do Brasil “a bola da vez”.

Apenas três dos últimos 14 pregões da bolsa na B3 fecharam no vermelho. Apesar da forte revisão de dados de fluxo estrangeiro para o primeiro trimestre, em que a bolsa reduziu em 40% o montante do ingresso de recursos por um erro de cálculo, a correção ainda registrou recorde de R$66 bilhões no mercado à vista.

No entanto, e em consonância com relatos ouvidos pelo Scoop e que circulam nas mesas institucionais de grandes bancos, Simino percebe que o investidor estrangeiro já estaria um pouco mais parcimonioso, trazendo dinheiro ao Brasil a uma velocidade menor, devido à valorização recente da bolsa.

“A sensação que tenho é que esse é um dinheiro esperto”, disse. Dados da B3 mostram a tendência de enfraquecimento do fluxo diário, que foi negativo em R$174,9 milhões no segundo dia de abril.

O mesmo tema vem sendo discutido entre bancos de investimento e gestores pelo mundo, que estão tendo trabalho para convencer instituições globais de peso – como fundos de pensão – a trazer seu dinheiro para o Brasil e deixá-lo no longo prazo, conforme o Scoop relatou em 3 de abril.

Múltiplos

Mesmo que sempre haja oportunidades na bolsa brasileira, é preciso “tomar cuidado com o valuation”, disse Simino, referindo-se às avaliações – métricas que mostram a atratividade absoluta e relativa de uma ação ou um índice acionário.

A relação entre o preço e o lucro de papéis que compõem o Índice Bovespa já subiu de 7,9 vezes em janeiro para 9,3 vezes hoje, segundo dados da Refinitiv. O número ainda está abaixo da média histórica, de 11,3 vezes, o que pode indicar que o mercado antevê revisões para baixo nas projeções de lucro das companhias.

O Ibovespa acumula ganhos de cerca de 12% em 2022. Maiores alvos de compras dos estrangeiros, as ações dos setores de materiais básicos, energia e financeiro acumulam altas médias de 9,65%, 14,35% e 16,77% neste ano.

O que chama atenção é que, por conta da valorização do câmbio e do ponto de vista dos estrangeiros, os ativos já se valorizaram em dólares mais de 35%.

“Olhando essa valorização, o investidor para para pensar. Quem pegou o rali do começo não vai vender, mas o volume de compra vai reduzir”, avaliou Simino.

‘Como chegará?’

Ele apontou que, além de todas as dificuldades na esfera econômica, há a preocupação com a eleição presidencial de outubro. “Independentemente do resultado, como será que o Brasil vai chegar em 2023?”, questionou ele

Simino destacou a apreensão com a situação fiscal do país – tópico levantado também pelo diretor presidente da Santander Asset Management, Carlos André, em entrevista ao Scoop publicada em 5 de abril.

Apesar de, em janeiro deste ano, a Dívida Líquida do Setor Público e a Dívida Bruta do Governo Geral terem caído, atingindo 56,6% e 79,6% do PIB, respectivamente, há um temor sobre a tendência de elevação da dívida diante da elevação da taxa básica de juros.

As preocupações advêm da necessidade de o governo responder aos desafios causados pelo aumento da inflação e redução lenta do desemprego, o que, comumente, produz despesas maiores por parte do poder público.

Em seus 41 anos de experiência nos mercados, Jorge Simino já vivenciou diversas crises. Entre as piores, ele pontuou a do plano econômico do ex-presidente Fernando Collor de Mello; a Crise Financeira Global, em 2008; a recessão de 2014-2015, a mais profunda da história do país, e; mais recentemente, a crise da pandemia do coronavírus.

Carteira ideal

Simino disse que busca, em renda variável, investir em “empresas resilientes, com boa administração, baixo endividamento, e com capacidade de repassar preços, que já entraram no passado por momentos difíceis macroeconômicos, que possuem bons gestores e bons resultados”.

Desde que chegou à Vivest, em dezembro de 2005, ele e sua equipe atingiram rentabilidade acumulada de 742%, ante uma meta atuarial de 697%.

Simino ressaltou que a diversificação dos investimentos é importante, mas toda aplicação tem que preencher retorno, risco e liquidez. E hoje, para a Vivest, manter recursos alocados em caixa, rendendo a Selic, é o que comporta melhor esse trinômio. Por isso, em janeiro, ele decidiu resgatar cerca de R$3 bilhões que estavam alocados no exterior e direcionar para essa estratégia.

“Agora temos guerra, eleições. A gente está mais preocupado em ter um portfólio de baixo risco e baixa volatilidade, do que em buscar atingir as metas”, apontou.

*Esta reportagem foi publicada primeiro na última quarta-feira, 06, exclusivamente aos assinantes. Quer receber notícias e furos em primeira mão? Assine um dos planos do TC.

Texto: Bruna Chieco
Colaboração: Machado da Costa e Felipe Corleta
Edição: Gabriela Guedes e Guillermo Parra-Bernal
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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