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Atualizado há cerca de 1 ano

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São Paulo, 6 de outubro – O Tesouro Selic, título público corrigido pela taxa diária de juros, também conhecido como Letra Financeira do Tesouro, ou LFT, fechou o mês no negativo pela primeira vez em dezoito anos, provocando perdas para as aplicações de curto prazo, normalmente usadas pelos investidores em suas reservas de emergência, como fundos DI ou o próprio Tesouro Direto. A aplicação encerrou setembro com queda de 0,46% no seu título com vencimento para 2025. Grande parte das carteiras de fundos renda fixa, mesmo os de prazo mais longo, deixa uma boa parcela de sua carteira em LFTs e também sofreu o impacto da perda dos títulos.

E essa perda continua neste mês, já que muitos fundos seguem vendendo esses papéis para comprar títulos prefixados de prazo semelhante, para 2026, que rendem mais de 7% ao ano, ante 2,0% da Selic. Em 30 dias encerrados ontem, esses papéis já acumulavam queda de 1,08%. Essa perda é reflexo do deságio que está sendo oferecido para quem aceita comprar a LFT para 2025, e que equivale a um adicional de 0,31% ontem.

Ou seja, além da taxa Selic, o investidor que comprar o papel agora recebe um adicional de 0,31% ao ano. Isso significa um ganho equivalente a 120% do CDI, com a garantia do governo e liquidez diária, estima um gestor de fundos. Assim, a perda de hoje para quem tinha o papel passa a ser ganho para quem entrar na aplicação agora e até 2025. Mas o prejuízo pode continuar enquanto o papel continuar a perder valor e o prêmio além da Selic continuar subindo, alerta esse gestor.

É o mesmo que acontece com outros papéis, como as LTN prefixadas, ou os papéis corrigidos pela inflação, as NTN-B, ou Tesouro IPCA. Quem aplica agora vai ganhar juros mais altos daqui para frente, mas ainda pode ter algumas “perdas virtuais” se as taxas continuarem subindo. Só que quem levar o papel até o vencimento vai receber exatamente o juro acertado na aplicação. As “perdas” hoje são reflexo do ajuste dos preços dos títulos aos valores atuais de mercado para quem precisar vendê-los. Para quem continuar com eles o que vale é o preço original da compra.  

Camila Dolle, analista de renda fixa da XP Investimentos, diz que continua enxergando as aplicações em Tesouro Selic como uma boa alternativa para reserva de emergência. O risco de crédito do título continua sendo o mais baixo do mercado e a liquidez diária significa que o resgate pode ser realizado a qualquer momento.

As distorções recentes podem ter causado estranhamento, afirma, mas, foi um caso pontual. Além disso, o efeito para o “pequeno investidor”, ou seja, para as pessoas físicas, é muito pequeno e só tem efeito de perda em caso de venda do ativo. Ela explica ainda que o efeito de queda é temporário – com o tempo, o título retornará ao seu comportamento normal e voltará a valorizar, como já ocorreu outras vezes. E quem entrar agora no papel terá uma rentabilidade mais alta daqui para frente por conta do ágio.

O que é a LFT

A LFT, Letra Financeira do Tesouro, é a aplicação em renda fixa mais indicada para investidores como opção para compor sua reserva de emergência, mas tem sofrido com os impactos da crise causada pela pandemia do Covid-19, bem como as incertezas quanto à economia.

Especialistas apontam que não há motivo para pânico e nem risco de calote para o Tesouro Selic. “Se olhar a rentabilidade de mais de um ano, o mês foi apenas um tropeço perto de uma rentabilidade maior. Foi um movimento técnico e específico”, diz Marília Fontes, analista de renda fixa da Nord Research ao Valor Investe.

O que aconteceu com o Tesouro Selic?

Por ser um título público que se compromete a pagar a variação da Selic no seu vencimento, o Tesouro Selic, ou LFT, costuma ter retorno positivo e acompanhar a taxa básica de juros. Por não ter muita volatilidade, essa aplicação não costuma dar retorno negativo, por isso, pode ser vendido antes do prazo sem perdas.

A taxa Selic baixa, bem como as incertezas sobre as contas públicas e o excesso de oferta de Tesouro Selic, fizeram com que os investidores topassem deságios cada vez maiores a fim de conseguir se desfazer de seus papéis. Quem compra LFT, no entanto, busca por uma taxa maior que a Selic para garantir seus ganhos.

Os títulos com um prazo menor tendem a sofrer menos com essa desvalorização, tendo em vista que, em horizontes mais curtos, fica mais fácil de prever o que pode acontecer. As maiores perdas são de fundos com papéis mais longos, ou longa duração, e prefixados ou corrigidos pela inflação.

A perda, porém, é apenas virtual se o investidor não resgatar o papel ou a cota do fundo neste momento. Isso porque ela representa o preço do título no mercado agora. Quem não precisar vender e levar o papel até o vencimento terá exatamente o ganho fixado quando comprou o título. Por isso é importante sempre comprar títulos de acordo com o prazo que o dinheiro pode ficar aplicado, para evitar o risco de ter de vender o papel em um momento de alta dos juros, quando os preços dos papéis caem.

Alta das taxas em papéis fixados e corrigidos pela inflação

Os papéis prefixados se ajustaram à alta das taxas, reflexo do maior risco fiscal. O papel prefixado para 2023 subiu 4,17% no fim de agosto para 4,62% no fim de setembro. Para 2026, a taxa subiu de 6,58% ao ano para 7,19%.

No caso dos papéis corrigidos pela inflação, a alta dos juros reais também foi expressiva. A NTN-B para 2035 com juros no final pagava 3,73% ao ano mais IPCA no fim de agosto e fechou setembro com 4,11% ao ano mais IPCA, mesmas taxas para 2045.

A alta torna os títulos do Tesouro Direto mais atrativos, mas o investidor precisa estar preparado para o caso de novas altas dos juros, que podem derrubar novamente os preços dos papéis caso o governo não chegue a um acordo para manter o teto de gastos no próximo ano, por exemplo. Ou seja, a renda fixa não é tão fixa assim.

Texto: Ana Carolina Amaral

Edição: Angelo Pavini

Imagem: divulgação

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